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Gays efeminados relatam rotina de discriminação e contam como se fortaleceram

Preconceito é alto dentro da própria comunidade LGBT e já é estudado em universidades como “efeminofobia”

Por Eduardo Vanini, do O Globo

Daniel Kalleb, Caio Riscado e Caio Prado: felizes em se expressar como bem entendem Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Ao mudar de escola, quando ingressou na quinta série do ensino fundamental, o produtor de moda e relações-públicas Daniel Kalleb decidiu ficar quietinho em sala de aula “para ninguém zoar”, prevendo o bullying que iria sofrer. Não adiantou. “A primeira pessoa a esbarrar comigo já me chamou de veado. Foi quando entendi ser efeminado”, recorda-se o rapaz, sobre algo que escutaria pelo resto da vida, na forma de julgamento.

Mesmo diante dos avanços sociais e da presença de ícones LGBTs no mundo pop, “botar a cara no sol” costuma ser mais difícil e implica em riscos para gays efeminados. Junto às transexuais, eles estão entre os principais alvos do preconceito, ao assimilarem em seus comportamentos justamente o que é subjugado pela sociedade patriarcal: o feminino. Hoje, aos 25 anos, Kalleb exibe, com orgulho, toda a sua “cremosidade”, gíria para a adoção, por homens gays, de gestos e expressões considerados femininos. Mas quem o vê desfilando looks “bafônicos” pela noite carioca, talvez não imagine que, às vezes, ele se troca em apartamentos de amigos para transitar com segurança pela cidade. “Uma vez, o motorista de um carro parou na rua e me mandou entrar. Ao ver que era um bêbado tentando me assustar, precisei correr até em casa”, conta o jovem, morador de Bangu.

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, Berenice Bento afirma que, embora o Brasil apareça como o país que mais mata LGBTs no mundo, essa violência não é distribuída igualmente dentro desse grupo. “Mulheres trans, travestis e gays femininos sofrem em um nível muito maior. Se você é gay e não ‘performatiza’ o feminino, é visto como um homem gay. E esse lugar funciona como um escudo”, ela descreve. “Quando analisamos o caso de um homem gay assassinado e começamos a fechar o foco sobre a história, encontramos uma pessoa muito feminina ou uma travesti chamada de homossexual pelos jornais.”

Toda essa discussão já ganhou até nome próprio no universo acadêmico. O termo “efeminofobia” tem aparecido em artigos e publicações, enquanto a palavra afeminado é evitada, já que o prefixo “a” dá uma ideia de negação ao feminino. Doutorando em Comunicação e Sociabilidade Contemporânea pela Universidade Federal de Minas Gerais, Ettore Stefani de Medeiros está entre os pesquisadores interessados no tema. Segundo ele, nem mesmo o próprio meio gay está livre desse preconceito, como é latente nos aplicativos de relacionamento, nos quais expressões como “discreto, fora do meio” e “não sou e não curto efeminados” permeiam os perfis dos usuários. “Esse preconceito tem alguns pilares”, afirma Ettore. “Um deles é a subordinação do feminino. Como vivemos numa cultura desigual, que hierarquiza homens e mulheres, o gênero delas é visto como inferior, fraco, passivo. Assim, um homem efeminado representaria um traidor do privilégio masculino, que abdicou de sua ‘respeitável’ virilidade e teria descido na escala de valor social.”

Daniel desfila looks “bafônicos” e muita atitude pela noite carioca Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Essa discussão já rendeu até letra de música. O trio Não Recomendados, formado pelos cantores Caio Prado, Daniel Chaudon e Diego Moraes lança, no próximo ano, a canção “Discreto fora do meio”, como faixa de seu primeiro álbum. “Versátil ativo desconstruído/Acha massa o feminismo/Mas no aplicativo bloqueia as manas”, diz a letra repleta de ironias. “Somos muito hipócritas. Nos quatro dias do carnaval, as pessoas são autorizadas a saírem pelas ruas usando o que quiserem, fetichizando as vestimentas femininas. Fora desse período, recai o moralismo, afirmando como o outro deve se vestir e comportar”, afirma Caio, que chegou para a sessão de fotos dessa reportagem usando um vestido azul. “Independentemente de estar vestido dessa forma, isso é uma questão permanente para mim, porque sempre chamei atenção por ser preto, efeminado, ter um cabelo diferente e andar rebolando. Naturalizei isso com o tempo.”

Se hoje, aos 28 anos, o cantor sustenta um vestido mesmo fora dos palcos é porque enfrentou, desde cedo, os padrões impostos. Morador de Copacabana, ele conta que, em Realengo, onde passou a infância, a opressão ligada ao machismo era ainda maior. “Quando tinha uns 13 anos, tentei me adequar, usando roupas heteronormativas da moda. Vestia muito surfwear. Graças à ‘deusa’, a vida me disse: ‘gata, sai dessa vibe Billabong e tênis Reef”, recorda-se, soltando uma risada, ao mencionar marcas que faziam sucesso entre os rapazes de sua geração. “Essa virada aconteceu quando comecei a observar outras pessoas que me representavam e descobri a arte em si. Foi libertador.”

Caio Prado faz parte do grupo Não Recomendados, que vai lançar a música “Discreto fora do meio” Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Assim como ele, Daniel Kalleb também tentou se adequar às convenções. De criação evangélica, ele foi estimulado por um pastor a frequentar, durante a adolescência, um programa promovido por uma igreja em Niterói dedicado a “transformar” homossexuais em heterossexuais. “Forcei a barra para mudar meu comportamento, até uma mulher que trabalhava no grupo me dizer para deixar de usar um mocassim azul-royal que amava. Foi quando pensei: ‘isso não é para mim’. Desde então, fui só ladeira acima”, conta ele, para quem a homossexualidade era tratada ali como uma doença similar à depressão. “Eu ficava impressionado ao ver homens que passaram por lá ‘mulheríssimas’, porém casados com mulheres. Pensava: ‘imagina eu, toda cremosa, com uma mulher do lado?’”

O designer Igor Canto, de 27 anos, viveu em Nova Friburgo o que chama de “infância de criança veada de interior”. Roubava os CDs das Spice Girls da irmã para dançar escondido, escolhia personagens femininas nos jogos de videogame, quando não tinha ninguém olhando, e sofria bullying na escola. Recentemente, deu vazão a essas memórias ao criar, no Instagram, o perfil @coisasdeviados. Por lá, compartilha vídeos de pessoas que narram memórias comuns a tantos gays efeminados. “Quando fomos crianças para quem as pessoas apontavam o dedo, nos chamando de veado e provocando o medo de ser quem somos, viramos adultos com um pensamento um pouco frustrado. A página surgiu para nos libertar dessas amarras”, diz ele. “Há relatos de pessoas que não conseguiam comprar uma bola rosa por causa da repressão familiar.”

Caio Riscado já abordou o tema em performances Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Igor reparou que uma queixa recorrente nos depoimentos é a falta de oportunidade de “sair do armário” por vontade própria. Todos foram arrancados de lá por terceiros. Algo mencionado também pelo diretor teatral e professor universitário Caio Riscado, de 31 anos, autor de pesquisas e performances ligadas ao tema. “Poucos têm a oportunidade de se descobrir. É quase sempre o dominante que revela o marginalizado. A palavra gay me representa pouquíssimo. Nunca fui chamado assim na infância. Era sempre bicha, veado. São palavras inaugurais, revelam um mundo”, comenta. “Principalmente quando se é criança, ninguém gosta de ser apontado como diferente. É um processo longo até você se empoderar da sua diferença e ver como isso pode ser uma característica muito singular da sua formação.”

Caio cita a empregabilidade e o respeito cotidiano aos efeminados como grandes barreiras a serem vencidas. O que avançou, segundo ele, é o entendimento desse debate como algo ligado ao direito de existir. “Isso tem aparecido na micropolítica, nos lugares onde frequentamos, nas festas. Começamos a ter um acordo de que precisamos nos manter vivos”, salienta, ao passo que o seu xará complementa: “Mais do que nunca, precisamos preservar a vida de quem está sendo massacrado, apedrejado.”

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