Guarda municipal transexual lança livro onde conta a luta pela vida desde a infância

Jô sempre se sentiu feliz na Guarda: “É a base das minhas vitórias) Foto: Guilherme Pinto

Ele sobreviveu ao abandono da família, ao sofrimento nas ruas, à internação na Febem, a um estupro e toda uma série de violências físicas e morais. E, hoje, se dedica a cuidar da cidade, cenário de todos os tormentos do passado. Transexual, Jô Lessa integra desde 1997 o corpo da Guarda Municipal do Rio. E agora conta sua história no recém-lançado livro “Eu trans. A alça da bolsa. Relatos de um transexual”.

Na infância, o guarda conta que jamais se sentiu uma menina. Não entendia sua sexualidade. Não se via como lésbica nem como homem, nem mulher. Foi a história de João W. Nery, descrita no livro “Viagem solitária”, que o despertou. Era transexual.

— Eu sou corno de mim mesmo. O último a saber o que eu era fui eu. João fez com que eu me reconhecesse. Meu livro já cumpriu seu papel só de ficar pronto. Foi libertador — conta Jô.

Aos 47 anos, o guarda atua na equipe do “Lixo Zero” e se sente realizado na carreira. Em 2013, oficializou sua união com a artesã Bombom Lessa. Em paz com a vida, seu objetivo hoje é lutar para impedir que outros jovens sofram como ele no passado.

— Ter sido expulso de casa com 12 anos foi muito forte. O propósito do livro também é ensinar o que não fazer com seus filhos. Você não pode botar rótulo, e, por culpa, por medo de ter “errado” na criação deles, jogar o filho na rua, onde tem tudo que não presta — conta Jô, que jura não guardar mágoa:

— Eu perdoo e até sou grato. O que me construiu foi minha história.

Jô nunca teve dúvidas sobre a carreira que seguiria. Já se imaginava “suando na rua, dentro do uniforme”, quando fez a prova. Foi quinto lugar no concurso. Então, um guarda “feminino”.

— Sou feliz. A Guarda é a base de tudo que conquistei. Nunca tive dúvida, eu não “estou guarda”. Eu sou guarda. No uniforme, não tenho que disfarçar, me dá segurança — conta Jô, que só sonha agora se submeter a uma mamoplastia masculinizadora (retirada das mamas) para poder “andar sem camisa” à vontade.

— É meu sonho. Mas não quero tomar hormônio, falar grosso, ter barba não. Eu me gosto assim. Eu me sinto bem como sou — diz o guarda, que já deu conselhos a um colega atordoado pela homossexualidade da filha:

— As pessoas não sabem como lidar. Estão perdidas. Antes de pai e mãe, tem que ser amigo, acolher, ouvir. Eu bati no fundo do poço e voltei. Mas muitos ficam.

 

Fonte: Extra

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