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Inscrições racistas são encontradas na Unesp

Frases com ofensas de conotação ao racismo são avistadas no banheiro

Marcele Tonelli no JCNet

“Unesp cheia de macacos fedidos”, “Negras fedem” e “Juarez Macaco”. Essas foram algumas das frases lamentáveis que surgiram entre a manhã e tarde dessa sexta-feira (24) em dois banheiros da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. O caso chocou alunos e professores do câmpus pelo conteúdo racista e de ódio que estava grafado em paredes e portas do banheiro masculino e feminino, localizados próximos ao departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac).

As mensagens seriam destinadas aos alunos negros e a um professor do curso de jornalismo do câmpus.

A diretoria da instituição repudiou o ocorrido e informou que instalará, na próxima segunda-feira, uma Comissão de Averiguação para apurar o fato. O trabalho será acompanhado pelo Observatório de Direitos Humanos da Unesp, que também funciona em Bauru, e já foi comunicado sobre a situação.

A coordenadoria do Núcleo Negro da Unesp para a Pesquisa e Extensão (Nupe) e o Coletivo Negro “Kimpa”, duas entidades representativas do movimento na universidade, também se posicionaram e informaram que registrarão hoje o boletim de ocorrência (BO) sobre o caso.

Até o final da tarde dessa sexta, as inscrições permaneciam no local.

Ofensa

Entre as inscrições feitas no banheiro masculino, estavam ofensas ao professor e coordenador do Nupe, Juarez Tadeu de Paula Xavier, que também é chefe do departamento de Comunicação Social da Faac.

“Lamentável uma ação assim. Nos últimos anos, principalmente agora em 2015, o número de negros na Unesp aumentou bastante, impulsionado pelas cotas sociais e raciais. Hoje, temos até um núcleo de pesquisa. Tenho impressão de que isso tem incomodado”, opina Xavier. “É inadmissível esse tipo de atitude, ainda mais dentro de uma universidade pública”, completa.

A falta de câmeras de segurança no local deve dificultar a apuração dos responsáveis.

“Imaginamos que tenha ocorrido no período da manhã, porque ontem (quinta-23) à noite não estava assim”, conta Xavier.

Ao JC, o coordenador do Nupe informou que solicitaria à diretoria da Faac a instalação de uma comissão de sindicância e o encaminhamento do assunto para a próxima reunião da congregação da Unesp, que reúne as diretorias das faculdades e entidades representativas do câmpus.

O assunto também ganhou repercussão nas redes sociais após Xavier publicar em sua página pessoal uma nota de repúdio do Nupe ao ocorrido. Dezenas de alunos e professores criticaram o ato em comentários.

Unesp reage

Por meio de nota publicada em seu site, a Unesp informou que repudia as pichações racistas feitas na sua unidade em Bauru contra as mulheres negras da instituição, o Coletivo Afrodescendente e o coordenador do Núcleo Negro Unesp para a Pesquisa e Extensão. “Trata-se de um ato contra o Estado Democrático de Direito, a população afrodescendente e a política de inclusão adotada pela Unesp”, afirma.

A Universidade diz que conta com um Grupo de Prevenção da Violência que atua na conscientização da comunidade e no fomento aos direitos humanos. Dia 12 de agosto, às 15h, no auditório da Central de Salas do Câmpus da Unesp em Bauru, por exemplo, dentro dessas ações, o Observatório de Educação em Direitos Humanos da Unesp já tinha programada uma assembleia aberta sobre “Universidade, violências e Direitos Humanos”, que ocorrerá no 8.º Encontro de Direitos Humanos da Unesp, durante a Jornada Multidisciplinar da instituição.

Nesta segunda-feira, a direção da FAAC inicia o processo de averiguação dos fatos, que inclui levantamento de informações e obtenção de nomes, datas e horários que possam resultar em provas substanciais de comprovação de responsabilidades da infração ao Regimento Geral da Unesp, o que pode levar as sanções previstas no artigo 162, que vão da advertência verbal ao desligamento da instituição.

Cotas

“Precisamos definir medidas pedagógicas urgentes que envolvam este assunto e qualificar o debate político contra o racismo na Unesp”, frisa Juarez Xavier. Segundo ele, os reflexos da implantação do programa de cotas na universidade ficaram mais perceptíveis neste ano. “O número tende a crescer em todas as áreas e cursos, pois a Unesp tem adotado uma política de inclusão, baseada nas cotas sociais e raciais”, acrescenta.

O sistema de cotas adotado pela Unesp prevê atualmente 35% das vagas destinadas aos candidatos que se autodeclarassem pretos, pardos ou indígenas. Segundo a política, a ideia é obter o crescimento das vagas reservadas por ano, atingindo até 50% de cotistas nos próximos anos.

É crime!

O delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines, disse que o registro criminal dependerá da avaliação detalhada do caso ao ser apresentado na Polícia Civil. Mas adiantou que os crimes em questão devem se enquadrar em injúria racial e dano qualificado ao patrimônio público, previstos pelo Código Penal, e que preveem punição de 6 meses a 3 anos de reclusão, e 1 a 3 anos de detenção, respectivamente.

Casos

Em abril de 2014, a Unesp de Presidente Prudente também instaurou um processo de averiguação para apurar uma pichação feita na parede do banheiro do câmpus que chamavam uma aluna de “preta, safada, macaca”. Estudantes da unidade fizeram várias manifestações pedindo a averiguação e punição dos responsáveis.

Em um caso mais recente de ofensa racista, mas esse no futebol brasileiro, uma torcedora foi gravada por câmeras de televisão gritando “macaco” a um goleiro no jogo entre Grêmio e Santos, pela Copa do Brasil. O caso também foi parar na polícia e a mulher se desculpou em público pela afirmação.

Injúrias raciais proferidas por torcedores também já fizeram com que times fossem excluídos de campeonatos pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

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