Lei 10.639/03- IFCH cria 1º programa no país de história da arte não-europeia

A Unicamp passará a oferecer uma pós-graduação em história da arte não-europeia, o primeiro curso do tipo no Brasil, a partir de 2014. A seleção de estudantes deve começar já neste semestre, disse ao Jornal da Unicamp a professora Claudia Valladão Mattos, do Instituto de Artes (IA) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). O estudo da história da arte produzida fora da tradição europeia é uma tendência que vem se consolidando em várias partes do mundo, explica Claudia. “Nos últimos dez anos, mais ou menos, os cursos de história da arte no exterior passaram a expandir seus currículos e a contratar professores que trabalham fora da tradição europeia. Isso cada vez mais acontece nos grandes centros”.

O programa de história da arte da Unicamp, estabelecido há duas décadas, trabalha, tradicionalmente, com duas linhas de pesquisa: Estudos da Tradição Clássica e Arte Moderna e Contemporânea. A pesquisadora diz que o Brasil está numa posição especial para ampliar esse leque: “Este é um país onde existe um legado cultural que vai muito além do desenvolvimento de uma arte europeia transplantada para o Brasil”. O novo programa tratará de Arte Pré-Colombiana e Ameríndia, Arte Africana, Teoria da Arte e Arte Japonesa. A Arte Africana tratará não apenas da arte afro-brasileira, mas também e principalmente da produção tradicional e contemporânea daquele continente.

“Já existe uma grande coleção de obras afro-brasileiras no Museu Afro-brasileiro no Ibirapuera em São Paulo. Uma coleção excepcional”, disse a professora. “Mas não existem coleções públicas de arte africana no Brasil. E para entender a arte afro-brasileira, é muito importante a gente começar a pesquisar e entender o que de fato é essa produção na África. Quais são os grupos, quais as manifestações artísticas, e desenvolver isso”.

A parte do programa de história da arte não-europeia dedicada à História da Arte Pré-Colombiana e à História da Arte Africana terá como base material inicial a coleção doada à Unicamp pelo físico Rogério César de Cerqueira Leite, composta por cerca de 500 peças africanas e 200 pré-colombianas. A arte japonesa foi incluída por conta da importância da cultura japonesa dentro do Estado de São Paulo. “Como professora de História da Arte, sempre recebo essa demanda”, explica a pesquisadora. “Os alunos gostariam de saber mais sobre arte japonesa. No Instituto de Artes, por exemplo, temos uma proporção significativa de estudantes de origem asiática. Esse foi um dos motivos para a gente desenvolver essa terceira linha.”

Já a Teoria da Arte entra no cardápio para garantir o vínculo entre as diversas linhas. “A ideia da Teoria da Arte é justamente pensar como lidar com esse novo campo, como trabalhar com arte não-europeia dentro do campo de uma história da arte crítica”, disse Cláudia. “Porque a história da arte, enquanto disciplina, desenvolveu-se vinculada à tradição clássica, e àquilo que se costuma chamar de arte elevada, digna de figurar em museus.” Apontando para os catálogos da coleção de Cerqueira Leite, ela acrescenta que “tudo isso aqui não era arte. Não era considerado arte no século 19, quando a disciplina se desenvolveu”.

Atualmente, ocorre um debate global sobre o campo, para “desenvolver novos métodos para abordar obras que estejam fora da tradição clássica”, nas palavras da professora. “Esse debate é muito importante para que a gente não divida em dois o programa e a formação dos nossos alunos, entre os que estudam a arte europeia e os que trabalham com essas novos objetos. Então, para manter o programa coeso e para que todos os alunos aproveitem integralmente do programa que oferecemos, teremos o curso de teoria. Este será o lugar de integração e de debate sobre uma nova história da arte crítica”.

Como há poucos especialistas na história das tradições artísticas não-europeias no Brasil, o novo programa da Unicamp trará à universidade, numa parceria com o Instituto Getty de Los Angeles, professores estrangeiros para lecionar nos dois primeiros anos de funcionamento da nova linha.

“Fui, por três meses, pesquisadora convidada do Instituto Getty de Los Angeles. Enquanto estava lá, conversei com pessoas da fundação sobre o nosso programa de pós e sobre a coleção Cerqueira Leite, mostrei as obras que vinham para a Unicamp. O Getty já sentia falta da presença do Brasil no contexto das reuniões internacionais de história da arte, e mostraram grande interesse em trabalhar com o Brasil e com a Unicamp”.

Com isso, Claudia e outros professores da Unicamp prepararam um projeto, que foi aprovado, pelo qual o Getty financiará a vinda de especialistas internacionais para iniciar o novo programa de história da arte não-europeia no Brasil.

A pesquisadora disse que a vinda da coleção de objetos africanos e pré-colombianos para a universidade foi “crítica” para desencadear o projeto. “Infelizmente, até agora, objetos assim são pouco estudados, no Brasil, no contexto da história da arte. É óbvio que essa produção é estudada, mas em geral por antropólogos ou por historiadores que não têm o treino no campo da historia da arte, não usam métodos de historia da arte”.

De acordo com ela, a doação da coleção foi “o grande momento, o grande argumento” a favor da expansão do campo de História da Arte na Unicamp para além da tradição europeia. Essa expansão, disse Claudia, é “uma necessidade em termos de desenvolvimento da disciplina, pois no mundo inteiro isso está acontecendo. Porém, para além da necessidade de colocarmos o Brasil em sintonia com a comunidade científica internacional, sabemos que o país oferece um enorme potencial para pesquisas do gênero, devido à sua história e à enorme diversidade cultural que dela resultou. Esse potencial precisa ser contemplado”.

Professora Claudia Valladão Mattos, do Instituto de Artes (IA) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). (Arquivo Pessoal)

“O grande diferencial, no programa de história da arte da Unicamp, sempre foi o desenvolvimento de pesquisas centradas na materialidade das obras”, disse Claudia. “Em geral não se estuda só o contexto em que a obra foi feita, mas a primeira tarefa é entender a forma, a textura, a materialidade, e o modo como os diferentes contextos são incorporados e organizados em um objeto”. O programa de História da Arte, em sua origem, aproveitou muito de uma parceria com o Museu de Arte de São Paulo (MASP), e com o tempo passou a colaborar com outras instituições também. “A gente estimula o aluno a escolher uma obra ou um conjunto de obras que tenha uma documentação e que ele possa investigar pessoalmente em sua materialidade”.

A professora explica essa abordagem: “Um instrumento fundamental da história da arte é a descrição minuciosa da obra, para não perder de vista o objeto, que é o foco do trabalho”, disse. “A partir desse foco na materialidade da obra, pode-se ir além e se investigar, por exemplo, a história do objeto dentro de determinadas coleções, se perguntar por que aquela obra específica, com determinadas características formais e materiais pôde se tornar objeto de interesse para o colecionador, para o crítico ou para o público, etc. A partir desses questionamentos se pode visualizar a rede na qual essa obra se inseriu num determinado momento histórico”.

Mas o foco, insiste ela, é sempre na obra, ou em um grupo de obras. E isso vale tanto para a arte europeia, quanto para a não-europeia, claro. “Essa é a perspectiva que predomina no programa. Portanto, o que fazer para ampliar o espectro de objetos com que trabalhar, se não havia grandes coleções de arte não europeia à disposição? Agora que temos as obras, o trabalho tornou-se viável.” A verba para a vinda dos professores estrangeiros em 2014 e 2015 já está garantida. O primeiro será o professor Adam Sellen, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), que dará um curso de introdução à arte e cultura maia. “A gente espera que ele vá fazer o curso praticamente dentro da coleção. Ele é um pesquisador que trabalha frequentemente junto a museus e coleções”, disse a professora. O destino exato das peças da coleção Cerqueira Leite dentro da Unicamp ainda não está definido – talvez um novo museu seja construído para recebê-las, ou talvez elas sejam instaladas em um instituto de pesquisa – mas, de acordo com a pesquisadora, o doador já se prontificou a abrir a coleção para os estudantes, caso o espaço para as peças não esteja pronto até o início das aulas, em março do ano que vem.

Claudia espera que, caso o destino final das peças doadas seja um museu, que o programa de pós-graduação trabalhe em proximidade com a nova instituição. “Que a gente possa colaborar, que o museu se envolva de alguma forma com o programa, para que a gente tenha um bom trânsito entre a coleção e o grupo de pesquisa, que é fundamental para manter a coleção viva e a pesquisa andando bem”. Estudantes poderiam, por exemplo, participar da curadoria de mostras específicas, ligadas a seus interesses de pesquisa.

“Infelizmente ainda existe na universidade uma tendência a ver o campo das artes como mera atividade de extensão universitária, não de pesquisa, e acho muito importante que se reafirme o seu caráter de pesquisa. Se tivermos um museu, que ele acolha a pesquisa em arte e história da arte”.

Esse novo programa de pós-graduação está sendo montado por cinco professores que serão os orientadores principais – com os professores estrangeiros como coorientadores – dos alunos matriculados. “Temos a esperança de que, com o apoio internacional e o caráter inovador, consigamos, no futuro, pelo menos um novo professor especialista”, disse Cláudia. “No momento não há professores de história da arte na Unicamp capazes de assumir a área de arte não-europeia. Um dos problemas fundamentais é que o Brasil ainda não formou, de fato, gente para isso, e são muito poucos os historiadores da arte brasileiros que se dedicam a estudar arte não-europeia”.

Além dela, fazem parte do núcleo inicial Luciano Miggliacio, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP; Marcos Tognon, Pedro Paulo Funari e Omar Thomaz, da Unicamp.

 

 

Fonte: Unicamp

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