“Liberdade de expressão” é como self-service: você come o que lhe convém

Foto: Flávio Florido

Leonardo Sakamoto

Liberdade de expressão começa em casa, ou melhor dizendo, na própria redação. Por conta da ignóbil chacina promovida contra a redação do Charlie Hebdo, em Paris, muito tem se falado sobre o tema. Mas as ameaças não são apenas externas – como o fundamentalismo religioso, passando pelo crime organizado, os interesses de grandes corporações até o poder político.

Um veículo de comunicação é, em última instância, um negócio, com todas as relações humanas, interesses e pressões de poder. E é natural que seja assim e que seja livre para ter uma linha editorial própria e defender seu ponto de vista Mas também é algo em constante aprimoramento, em um processo em que aprende-se a conviver com limites, reconhecer as imperfeições e consertar o que não está bom.

Cada uma das linhas abaixo brotou de uma história que ocorreu em alguma redação espalhada pelo país, da progressista à conservadora, da grande à pequena, tradicional ou alternativa, e me foram relatadas por colegas.

Nomes? Já perguntava Shakespeare: “O que há num simples nome? O que chamamos rosa com outro nome não teria igual perfume?”

Creio que isto é válido para lembrar que ninguém está sozinho. Afinal, se alguma dessas situações já aconteceu com você, primeiro relaxe, depois vá à luta.

E seja bem vindo ao jornalismo, onde “liberdade de expressão” é um conceito self-service: ninguém o coloca inteiro no prato, mas apenas a parte que lhe convém.

Liberdade de expressão é:

– Não ligar para redação xingando jornalista por matéria sobre problemas no metrô

– Não demitir por telefone o pobre repórter que discordou educadamente da linha editorial do veículo

– Não usar nunca a frase “coloca isso na capa porque quem manda aqui sou eu”

– Não usar a pergunta “você sabe com quem está falando?” em uma reunião de pauta

– Ter a certeza de que a denúncia contra aquele anunciante amigo do patrão vai sair mesmo

– Saber que a apuração virá da reportagem e não da sala da chefia

– Não ser demitido porque o usineiro amigo do dono do jornal se sentiu ofendido com a verdade

– Não sofrer preconceito dos colegas da imprensa por trabalhar em um veículo carimbado como de esquerda ou de direita

– Ter reunião de pauta em que participe mais gente do que apenas o diretor de redação

– Não ser delicadamente removido para setorista de rodoviária porque reclamou de censura prévia

– Não ver seu texto tão alterado no conteúdo a ponto de ter que pedir para tirar seu nome dele

– Não se sentir oprimido ou com pavor de dar uma opinião contrária na reunião de pauta

– Não ser demitido por fazer análise econômica contrária aos interesses de alguém

– Não te entregarem o título pronto da matéria antes de você sair para a apuração

– Não ser proibido um homem usar brinco ou uma mulher ter tatuagem na redação

– Não ter que criar conta falsa de e-mail para dizer ao chefe o que pensa daquela matéria bisonha

– Não ter que fazer hora extra só para salvar o péssimo texto do amigo do chefe que deve entrar amanhã

– Não ser monitorado nas redes sociais pela empresa jornalística em que trabalha

– Ficar no fechamento até tarde sem medo de que o editor te convide para ir para a cama com ele

– Não perder uma promoção por conta de posicionamento ideológico

– Não perder uma promoção por ser mulher

– Não perder uma promoção por ser negro ou negra

– Ao trabalhar em TV e agência públicas, não ter que prestar serviço de assessoria ao governo

– Fazer uma entrevista sem ter medo do editor “adaptar” as ideias da fonte depois

– Não ouvir do chefe para esconder informação de interesse público porque ela “não ajuda na causa”

– Não ser obrigado a defender igreja e chamar umbanda de coisa do capeta.

 

Fonte: Blog do Sakamoto

 

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