Mandela, Buscapé e Beira Mar, por Sueli Carneiro

As identidades de classe e de raça permitiram que as contradições que opuseram no passado recente setores da classe média e dissidentes das elites ao regime militar fossem superadas. Militantes de esquerda, democratas sinceros, terroristas que combateram a ditadura tornaram-se senadores, ministros, deputados etc… Os demais, vivos ou mortos, foram anistiados e indenizados. Um ato de justiça e reparação. Eles, de fato, travaram o bom combate.  No entanto, o povão, classe e raça subalternas, permaneceu onde sempre esteve, à margem do poder e de suas benesses. O povo pacífico e tolerante, que acredita ainda hoje no “Brasil ame-o ou deixe-o” continuou punido com o abandono social. Nenhuma recompensa por tanta cordialidade e resignação.

Por Sueli Carneiro

“Quem não chora não mama”. Quem não se rebela não merece respeito. Quem não luta em defesa de seus interesses não é digno de ter poder. É o que expressa o desprezo das elites por esse povo.

Beira Mar e outros como ele entenderam a mensagem más, estão construindo um novo paradigma para os do “andar de baixo”. Nada de revolução, nem de ideologia racial ou de classe. O niilismo burguês adquire nele releitura popular.

Sua imagem arrogante diz para uma massa jovem e despossuída que é possível chegar lá: tornar-se uma celebridade escoltada por dezenas de carros e homens, com direito à “luz, câmara, e ação”; ter poder de mando e de negociação mesmo encarcerado. Desfrutar de pijamas de seda, salmão, picanha, babá para os 10 filhos, celulares a granel e um batalhão de advogados e subordinados. Esbanja poder e tripudia das estruturas que historicamente tripudiam de gente que vem de onde ele vem.

Renunciou à cesta básica da solidariedade, às políticas compensatórias, às esmolas que aplacam consciências, controlam a indignação e domesticam a revolta. Deixou para traz a fase romântica do crime organizado em que barões do jogo do bicho e das elites emprestavam prestígio uns aos outros, diante dos dois mundos, desfilando abraçados na Sapucaí.

Filho dos tempos atuais, Beira Mar, adepto do livre mercado e do unilateralismo sabe que hoje, em qualquer concorrência impera apenas a lei do mais forte. E que o “respeito” conquistado será proporcional à crueldade aplicada aos inimigos.
O que mais se pergunta nas ruas é porque ainda não o mataram. Insinua-se que sua vida tornou-se preciosa para muita gente que tem nome e sobrenome, não apenas apelido. Ele aprendeu, à sua moda, o sentido da “política de alianças”. Como candidato ao posto supremo do crime organizado sabe que deve assegurar uma política de geração de renda e empregos; que para conquistar e manter o poder é preciso além da força bélica, uma política eficiente de “persuasão” capaz de destruir inimigos física ou moralmente. Entendeu que o inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã, e que é preciso poupar alguns do campo adversário que podem, no futuro, facilitar as alianças, indispensáveis para assegurar, sob um comando único, a governabilidade do sistema do tráfico.

Nesse caldo de cultura correm soltas as divagações sobre o filme Cidade de Deus que não vi, mas muito li. O que mais impressiona nas reações ao filme é o “choque” de realidade provocado pela ficção. Hipocrisia?Alienação? Dentre as opiniões previsíveis, gosto especialmente de formulações como essa de um espectador, registrada nesse jornal: “O filme mostra que é possível conviver com o crime sem necessariamente fazer parte dele.” Essa é a aposta que governos tem feito para manter políticas de exclusão e também a sociedade para justificar sua indiferença: os bons sempre sobreviverão na retidão, os maus sucumbirão ao pecado. Uma espécie de darwinismo de matriz religiosa.

A complexidade que o crime organizado estabeleceu nas relações sociais em que se combinam de um lado, promiscuidade e corrupção entre marginalidade e poder público, e de outro atemorização e ausência de opção para as comunidades sob o controle do trafico exige muito mais do que profissão de fé para que os Buscapés da Cidade de Deus não se tornem amanhã Fernandinhos da Beira Mar.

Mandela dizia que só homens livres negociam e que sua liberdade era a liberdade de seu povo. Ele não previa o que o destino reservava a si, um homem encarcerado.

A emergência de lideranças da estatura de Mandela foi “uma oportunidade histórica suprimida” no Brasil, expressão cunhada por Barrington Moore Jr., em seu livro Injustiça: as bases sociais da obediência e da revolta. O preço dessa decisão é a sociedade ter crescentemente de negociar com “gente” como Fernandinho Beira Mar.
Uma escolha, no mínimo, trágica.

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