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Minha Mãe, Minha Heroína?
Créditos da foto: pixabay

Minha Mãe, Minha Heroína?

“Ainda bem que ninguém saiu ferido, ninguém se machucou. Quem se deu mal foi o bandido. Também pudera invadir uma escola com a arma em punho e querer assaltar mães que entravam na escola e seguiam com seus filhos para uma homenagem ao dia das mães”.

 

por Waldeci Ferreira Chagas enviado para o Portal Geledés

Com essas palavras, o jornalista de uma das grandes emissoras de TV encerrou a reportagem sobre a policial que matou um homem de 21 anos na porta de uma escola particular na cidade de São Paulo. Enquanto mães e filhos aguardavam o portão da escola ser aberto pelo segurança e adentrarem para participarem da festa em homenagem a elas, o homem aproximou-se e de arma em punho ameaçava assalta-las.

Crianças e mães ficaram assustadas e desesperadas. Entre as mães que chegavam uma policial, que diante da cena não hesitou, abriu a bolsa e sacou a arma e disparou três tiros que atingiram o homem e o levou ao chão.

Caído o homem foi imobilizado pela mãe policial que de prontidão chutou a arma impedindo-o que agisse contra as mães e crianças que estavam na frente da escola. Com os pés sobre o corpo imóvel, que provavelmente já estava morto, a mãe policial justificou sua ação.

“Pensei apenas em defender as mães, e as crianças”.

Ainda disse que agiu conforme os ensinamentos que recebeu durante os treinamentos na corporação da qual faz parte. Policiais são treinados a… Ao invés de formados para defender a sociedade.

Argumentos a parte o homem morreu, nenhuma das mães e crianças que saíram de casa para participar da festa em homenagem as mães foram feridos. Não demorou e o homem baleado foi socorrido para o hospital, mas não resistiu.

O que há minutos era forte, ameaçador e precisava ser contido, agora era um corpo imóvel, morto e dominado. Certamente a filha da mãe policial viu-a matar o homem que as ameaçavam, assim como seus colegas; todos/as crianças com idade entre 07 e doze anos.

Retirado o corpo morto da frente da escola, a festa prosseguiu normalmente, e a ocasião se engradeceu, uma vez que a mãe policial que seria naturalmente homenageada assim como as demais mães que ali estavam se tornou heroína.

O que dirá a filha da mãe policial: “minha mãe minha heroína”. Talvez os amigos/as da filha da mãe policial, também a veja como a heroína. Afinal ela salvou a vida de todas as mães e filhos/as que ali estavam. Impediu que o mal, o pior lhes acontecesse, como bem disse em entrevista na grande imprensa.

Para além da heroína, consagrada na festa da escola, na manhã do domingo, dia das mães, a mãe policial fora homenageada pelo governador de São Paulo.

Uma homenagem chinfrim, não lhe deram nenhuma comenda, patente ou medalha. Mas flores. No imaginário dos governantes mulheres, e mães combinam com flores. Mulheres são mulheres, mães são mães e flores, são flores, há até algumas flores com nomes de mulher, ou mulheres com nomes de flores, tipo: rosas, hortênsias, margaridas, violetas e etc.

Mas as Margaridas, Rosas, Hortênsias e Violetas que conhecemos não são flores e nem vivem em jardins, tão pouco em jarros a enfeitar varandas, salas e quartos de alguém. Elas vivem na rua a labutar, primeiro para se afirmarem cidadãs, profissionais e serem felizes. Algumas são mães, outras não, mas são mulheres. Voltemos nossa conversa para a mãe policial, ou seja, sobre o discurso da imprensa que a heroificou.

Para proteger seu filho e certamente os filhos das outras mães, ela matou “o filho de outra mãe”. “Todo homem precisa de uma mãe”. Quando as imagens foram colocadas ao ar, a grande imprensa não discutiu as origens da violência, tão pouco as medidas que levariam a por fim, mas expos a atitude da mãe policial como um fato isolado, dado, pronto e acabado.

O homem morto pela mãe policial não agiu como parte de um fenômeno que assola o Brasil. Ele não tem procedência? Antecedentes? Ele aparece na cena como um ente sobrenatural; às vezes um ser instintivo. A grande imprensa tirou do telespectador a capacidade de analise e crítica. Mães e filhos/as que seguiam com destino a escola no intuito de participar da festa, assim como o homem morto pela mãe policial, e sua mãe que não se sabe ainda está viva são partes da mesma sociedade, e história, moram na mesma cidade e não se conhecem.

Quem sabe as mães da escola, desconhecessem a mãe policial que matou o homem que as ameaçavam e a seus filhos? A mãe policial agora é persona pública, ficou nacionalmente conhecida. Antes era apenas uma policial anônima, que trabalhava no Batalhão da PM na Vila Esperança, zona leste de São Paulo, em meio às péssimas condições, percebendo um salario que nem sempre dar para arcar com as despesas de manutenção de sua família. Ela foi treinada, ao invés de formada a lidar com os mais diferentes problemas na via pública, a exemplo do que enfrentara.

No geral, ela assim como a maioria dos PM´s Brasil a fora dispõem apenas de armas; única condição a combater a violência, além do corpo; muitos dos quais tombam cotidianamente em meios aos potentes armamentos que possuem os bandidos. “Tá lá o corpo estendido no chão”. O fato foi consumado, ou seja, uma tentativa de assalto impedida e um homem morto. Resolvido o fato, sanada a violência? Mães e filhos da escola estão seguros, livres da violência urbana? A mãe policial matou um homem que recorreu da violência para resolver seu problema, que não é seu, mas da sociedade.

Ela recorreu da mesma pratica para resolver um problema social, sobretudo, porque é policial. Essa mãe devido a sua condição de policial tem a prerrogativa de “poder matar” em nome da ordem, em defesa do cidadão. Quem é cidadão na sociedade armada? Talvez, a mãe policial não desejasse matar o homem que ameaçava mães e filhos na porta da escola onde sua filha estuda; instituição cujo propósito é ensinar os sujeitos o exercício da cidadania.

Na sociedade moderna o que é ser cidadão? Quem é cidadão? Os que podem armar-se e livrar-se do que lhe atormenta? Livrem-nos Senhores Gestores Públicos desse tipo de Cidadania. Talvez a mãe policial não desejasse matar o homem, mas não lhe restou outra saída. Ela fora treinada, ao invés de educada, e formada a ser policial cidadã. Afinal com que finalidade o Estado lhe garante o direito de andar armada? Disse o secretario de Segurança Pública de São Paulo que a mãe policial agiu corretamente. Afinal ela baniu da sociedade quem ameaçava a ordem. No discurso da grande imprensa não há espaço para se discutir violência urbana.

Mas se aplaude a morte de bandidos, e se lamenta a morte de policiais. Ganha quem matar mais? Nesse jogo de troca de tiros, a sociedade, e o Estado já perdeu e não quer se dar conta, e prefere heroificar alguns policiais, ao invés de aplicarem políticas de segurança pública. Todos/as os/as meninos/as da escola e suas mães, assim como eu e você pagamos impostos que deveriam ser revertidos aos cidadãos em serviços, a exemplo de segurança pública. As ruas das cidades, sobretudo, as áreas de grandes fluxos de pessoas deveriam ser guarnecidas por policiais bem remunerados e preparados para proteger cidadãos, ao invés de matar bandidos.

Na frente da escola; instituição responsável por ensinar o exercício da cidadania, crianças aprenderam que “andar armado é necessário”, do contrario serão assaltadas ou mortas. Elas também aprenderam que todas as vezes que forem ameaçadas e alguém tentar furtar-lhes, a polícia pode matar. Que cidadãos estamos formando, ou que cidadãos nos tornamos? O que é cidadania? Eu não vi por parte da grande imprensa nenhuma discussão acerca da violência na cidade de São Paulo. Ou da falta de segurança pública nessa cidade e no Brasil.

O caso da mãe policial que matou o homem que ameaçava filhos e mães na porta da escola foi tratado como um fato isolado, mais um caso banal, não fosse o dia das mães, comemorado na escola e no domingo inventado na guarnição onde a mãe policial está lotada. Num clique de mágica, a mãe policial se tornou “minha mãe, minha heroína” e a falta de segurança pública na cidade de São Paulo e no Brasil foi colocada debaixo do tapete.

Afinal, como disse o reporte da grande imprensa: “quem se deu mal foi o bandido”. O que está por traz dessa afirmação? A demonstração de que o Estado brasileiro não está nem ai para a violência urbana nas cidades.

Sobretudo, nesse caso em que o algoz foi morto. Portanto, homens e mulheres, pais e mães, policiais ou não se armem e defendam seus filhos/as, sejam heróis e heroínas deles. Quem sabe um dia vocês também receberão flores das mãos do governador do Estado onde moram?

Enquanto do outro lado da cidade mães e pais continuam a jogar flores sobre a cova rasa dos seus filhos/as feitos bandidos/as, “filhos/as da mesma agonia”.

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