domingo, janeiro 16, 2022
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Morre a poeta norte-americana Lucille Clifton, aos 73

Lucille Clifton, uma respeitada poeta norte-americana cujo trabalho destacava tanto em grandes linhas quanto em detalhes a experiência de ser mulher e negra nos Estados Unidos do século 20, com a exploração de temas vastos tais como as indignidades da História e temas íntimos tais como as indignidades do corpo, morreu no sábado, em Baltimore. Ela tinha 73 anos e vivia em Columbia, Maryland.

 

A causa exata da morte não foi determinada, informou sua irmã, Elaine Philip, à agência de notícias Associated Press, no domingo. Clifton, que sofria de câncer, havia sido internada recentemente em função de uma infecção.

 

Ela recebeu um National Book Award em 2000 por “Blessing the Boats: New and Selected Poems, 1988-2000”, uma antologia de sua poesia. Em 2007, se tornou a primeira escritora negra a conquistar o Ruth Lilly Poetry Prize, um prêmio de US$ 100 mil que constitui uma das mais elevadas honrarias da poesia norte-americana.

 

Seu livro “Good Woman: Poems and a Memoir, 1969-1980”, de 1987, esteve entre os finalistas do prêmio Pulitzer de poesia de 1988.

Além de escrever uma dúzia de livros de poesia, Clifton também foi autora de muitos trabalhos bem recebidos em prosa e de versos infantis que tinham por tema central a experiência de vida dos negros norte-americanos.

 

A poesia de Clifton se tornou muito conhecida por meio de antologias e coletâneas, e combinava uma voz intensa e ocasionalmente bastante direta com uma economia enxuta de linguagem (era comum que seus poemas dispensassem pontuação e convenções como o uso de maiúsculas, que ela entendia como bagagens desnecessárias). Os temas de que tratou variavam de questões éticas de largo alcance como a escravidão e seu legado a preocupações mais cotidianas relacionadas à família e comunidade.

Os textos de Clifton frequentemente eram autobiográficos. Ela conseguia escrever sem hesitar sobre as dificuldades pessoais que enfrentou, entre as quais o abuso sexual que sofreu da parte de seu pai, na infância, e sua luta contra o câncer e o colapso renal, na velhice. No entanto, como apontam os críticos literários, a poeta sempre se recusou firmemente a se descrever na condição de vítima.

 

O estilo de Clifton, que muitas vezes retomava os ritmos da tradição oral negra, era conhecido pela intensidade moral combinada a humor. Em seu poema “desejos para os filhos” ¿ela teve quatro filhos e duas filhas, ela afirmou:

“desejo-lhes cólicas/desejo-lhes uma cidade desconhecida/e o último absorvente/desejo-lhes o 7-11/desejo-lhes uma semana antes/e usar uma saia branca/desejo-lhes uma semana de atraso”.

 

Thelma Lucille Sayes nasceu em 27 de junho de 1936 em Depew, Nova York, e foi criada em Buffalo, uma cidade próxima. Seu pai, Samuel, era operário siderúrgico, e sua mãe Thelma trabalhava em uma lavanderia. A mãe, que tinha estudado apenas até o ginasial, era uma poeta de talento, mas mantinha seus escritos ocultos até o dia em que surgiu a oportunidade de publicar seus poemas. Samuel proibiu. Em “fúria”, Clifton registrou a reação de sua mãe:

“ela está em pé ao lado/da fornalha/o carvão/brilhando como rubis/sua mão chora/sua mão agarra/um maço de folhas/poemas//ela os entrega/eles queimam/joias nas joias…/ela jamais se recuperaria”.

 

Clifton estudou na Universidade Howard mas abandonou o curso antes de se formar, para se dedicar à poesia. De volta a Buffalo, se integrou a um grupo de intelectuais e artistas negros locais. Em 1959, se casou com Fred Clifton, professor de filosofia e estudos negros na Universidade de Buffalo, e mais tarde se radicou com ele em Maryland.

 

Parte dos primeiros trabalhos de Clifton foram publicados em “The Poetry of the Negro, 1746-1970”, uma coletânea editada por Langston Hughes e Arna Bontemps, em 1970.

Poeta laureada do estado de Maryland entre 1979 e 1985, Clifton foi escritora residente no Copping State College, hoje Universidade Estadual Coppin, uma faculdade de tradições negras em Baltimore. Mais tarde, lecionou na Universidade da Califórnia em Santa Cruz e, mais recentemente, no St. Mary’s College, em Maryland.

 

O marido de Clifton morreu em 1984; seu filho Channing e sua filha Frederica também morreram antes dela. Ela deixa a irmã, Philip, e os filhos Graham, Sidney, Gillian e Alexia; bem como três netos.

 

Seus demais livros de poesia são “Good Times” (1969); “Two-Headed Woman” (1980); “Quilting: Poems, 1987-1990” (1991); e “The Book of Light” (1993).

 

Clifton foi tema de diversos estudos críticos e biográficos, entre os quais “Lucille Clifton: Her Life and Letters”, de Mary Jane Lupton, lançado em 2006, e “Wild Blessings: The Poetry of Lucille Clifton”, de Hilary Holladay, de 2004.

 

Ao longo do trabalho de Clifton, o aspecto histórico e o pessoal muitas vezes convergiam em um mesmo poema, como em “homenagem às minhas ancas”, reproduzido abaixo na íntegra:

“essas ancas são grandes ancas/precisam de espaço para/se movimentar/não se enquadram a/lugarezinhos mesquinhos essas ancas/são ancas livres/que não gostam de ser restringidas.Essas ancas jamais foram escravizadas,/vão onde quiserem/fazem o que desejarem./essas ancas são ancas poderosas./essas ancas são ancas mágicas./sei bem que lançaram/um feitiço sobre um homem/que o fez rodopiar como pião!”

 

Fonte: Terra

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