Morre o político Luiz Alberto, sem ver o PT priorizar o combate ao racismo

Enviado por / FonteUOL, por André Santana

Morreu na manhã desta quarta (13) o ex-deputado federal Luiz Alberto (PT-BA), 70. Ele teve um infarto. Passou mal na madrugada e chegou a ser socorrido em um hospital em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador, mas não resistiu.

Após quatro mandatos como deputado federal (entre 1997 e 2015), Luiz Alberto dos Santos exercia desde 2022 o cargo de assessor especial da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do governo da Bahia. Antes, em 2007, foi o primeiro dirigente da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia — órgão pioneiro no país.

Um dos fundadores do Movimento Negro Unificado, em 1978, o político morreu sem que o combate ao racismo fosse prioridade no partido que ajudou a construir e no qual militou por mais de quatro décadas.

No Congresso, Luiz Alberto foi responsável pela criação da Frente Parlamentar em Defesa da Igualdade Racial e pelo reconhecimento das contribuições da população negra para o Brasil. É dele um projeto para tornar feriado nacional o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, e para incluir, no livro dos Heróis da Pátria, os líderes da Revolta de Búzios, que já em 1798 lutaram pela liberdade e igualdade entre todos os brasileiros.

Desde 1986, quando disputou pela primeira vez uma vaga para deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, todas as candidaturas de Luiz Alberto priorizaram a defesa dos direitos à cidadania das pessoas negras e a luta contra o racismo — pautas ainda hoje difíceis de serem defendidas pelo maior partido da esquerda brasileira, que ocupa o poder no país pela quinta vez.

Problema nacional

A baixa representatividade negra na política nacional também atinge os partidos de esquerda. São raros os políticos negros de expressividade nacional no PT, assim como na alta cúpula que dirige o partido. Daí a dificuldade de o racismo, que estrutura todas as relações de poder no Brasil, ser de fato assumido e encarado como um problema nacional.Continua após a publicidade

O próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao descartar gênero e raça como critérios na indicação do próximo ministro do STF, frustrou um apelo amplamente defendido pelos movimentos negros do Brasil por representatividade e priorização desta pauta nas esferas de poder e decisão.

Lula seguiu a postura que o partido que ele lidera tem tomado ao longo da trajetória e contra a qual Luiz Alberto precisou unir muita força e resiliência para continuar fazendo política e disputando as prioridades partidárias.

Além de um Congresso Nacional conservador e avesso às questões de direitos humanos, Luiz Alberto também enfrentou resistências internas na política da Bahia, estado de maioria negra.

Mesmo com amplo diálogo com os movimentos sociais — em especial o movimento negro, as organizações sindicais e as comunidades e povos tradicionais —, Luiz Alberto sempre foi preterido pelo partido nas disputas aos cargos do Poder Executivo. Suas campanhas ao Parlamento também não contavam com o mesmo envolvimento partidário.

Como consequência, em 20 anos que o PT governa o estado da Bahia, a questão racial continuou sendo relegada a segundo plano e as políticas de promoção da igualdade racial, sem orçamento e interesse político, não conseguem deter a violência policial, os conflitos contra os territórios quilombolas, o desemprego e baixa escolaridade dos negros e a alta letalidade da população negra, principalmente os jovens, no estado campeão de homicídios do país

Diálogo entre o movimento negro e as lutas por democracia

Luiz Alberto nasceu na comunidade quilombola de Baixa do Guaí, em Maragogipe, município do Recôncavo da Bahia. Na juventude, em Salvador, serviu a Aeronáutica e, em 1974, ingressou na Petrobras como vigilante. Permaneceu na estatal até se aposentar como técnico químico, após passar por seleção interna.

Foi na Petrobras que Luiz Alberto iniciou sua militância junto aos trabalhadores, no fortalecimento de organizações sindicais pioneiras como o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Petróleo.

No início da década de 1980, ajudou na criação do Partido dos Trabalhadores e da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Em plena ditadura militar e em um clima tenso para as discussões políticas no país, Luiz Alberto não desviou seu olhar para a situação dos negros e se colocou como ponte de diálogo entre as demandas dos movimentos negros e as pautas do movimento sindical, das organizações partidárias e das lutas pela democracia — posicionamento que o levou muitas vezes a ser uma voz dissonante em sindicatos e partidos de esquerdas, como o próprio PT.

Na última eleição para prefeito de Salvador, em 2020, Luiz Alberto defendeu, mais uma vez, que as pessoas negras, que majoritariamente compõem a população da capital baiana, tivessem uma representação na disputa. Ele esteve ao lado da socióloga Vilma Reis, ativista do movimento de mulheres negras, em uma pré-candidatura que movimentou as bases sociais e comunitárias do partido na cidade mais negra fora do continente africano.

Mais uma vez, a alta cúpula dirigente do Partido dos Trabalhadores não foi convencida daquele apelo popular e o PT foi buscar fora dos seus quadros partidários um nome para a disputa à Prefeitura de Salvador.

Para que o desprezo pela pauta racial fosse ainda maior, a candidata lançada em 2020 pelo PT representava uma instituição que historicamente exerce violência contra a cidadania de pessoas negras: a candidata foi uma major da Polícia Militar da Bahia.

O resultado foi mais uma derrota do partido que nunca conseguiu governar Salvador. Uma tristeza para Luiz Alberto que, de certo modo, foi amenizada nas eleições de 2022, quando Vilma Reis foi a deputada federal do PT mais votada em Salvador, demonstrando o interesse do eleitor soteropolitano pelo voto racial e pela representatividade política de uma mulher negra.Continua após a publicidade

A trajetória de outras mulheres negras como Lélia Gonzáles, Luiza Bairros e Benedita da Silva são símbolos da resistência do PT a priorizar raça e gênero em seus quadros e nas decisões de suas pautas políticas.

Para as eleições do próximo ano, as articulações para a Prefeitura de Salvador priorizam os partidos do chamado centrão, que compõem a base do governador petista Jerônimo Rodrigues, incluindo o MDB do ex-deputado Geddel Vieira Lima. Triste pensar que as necessidades urgentes da população negra, já tão desprezadas pelos partidos, não contarão com a defesa da voz firme de Luiz Alberto.

O mestre Luiz Operário, agora um “bem lembrado”, um bakulo como nos ensina o povo bantu, viu muitos dos avanços na consolidação das propostas sonhadas pelo movimento negro, como mais estudantes negros nas universidades, mais quilombolas defendendo suas terras e mais jovens, no campo e nas cidades, com consciência racial brigando por seus direitos.

O que Luiz Alberto não viu foi o combate ao racismo como uma prioridade efetiva do Partido dos Trabalhadores. Essa continua sendo uma dívida do PT com um dos seus mais bravos militantes e com mais da metade da população que compõe o Brasil.

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