Morre cedo a gente negra

A morte de Nêgo Bispo mostra como a luta insana pela existência plena aniquila, adoece e mata os negros

Antônio Bispo do Santos, o popularíssimo pensador quilombola conhecido como Nêgo Bispo, encantou-se aos 63 anos. Bispo que apresentava um quadro grave de diabetes, sofreu uma convulsão, seguida de parada cardíaca, depois de desmaiar em uma área de lazer da comunidade quilombola de Saco Curtume, em São João do Piauí, seu território. Mesmo socorrido, não resistiu e faleceu.

Eu não sabia da idade de Antônio Bispo, mas imaginava que tivesse 73, 75 anos, o que ainda seria pouco tempo de vida para ir embora, mas 63, 63 anos vividos é pouco demais para encerrar um ciclo de vida na Terra. Bispo mal começara a envelhecer e num átimo se foi. Como e quando as pessoas morrem nos diz muito sobre suas condições de vida. A gente negra morre cedo, muito cedo.

Diante desse tipo de acontecimento, a lembrança da querida dra. Fátima Oliveira me toma. Oriunda do Maranhão, estado vizinho ao Piauí de Bispo, exercia profissão de fé sobre as doenças étnico-raciais, prevalentes na população negra, o diabetes, uma delas. Fátima lutou para que políticas públicas ampliassem nosso entendimento sobre essas patologias, para que as escolas de medicina se detivessem sobre elas, para que políticas de prevenção e de tratamento fossem formuladas e implementadas com seriedade. Fátima se foi no início da velhice, como a amada Luiza Bairros, também se foram Makota Valdina e Emílio Santiago, além de Jovelina Pérola Negra e Marcelo Yuka, ainda mais jovens, entre tantas outras pessoas negras que morrem cedo demais.

O que nos mata? O que mina nossa energia vital, mesmo quando a vivência da espiritualidade nos ampara e nos fortalece? É a pergunta que me faço nas noites insones e nos dias mais pesados, e a resposta que encontro esbarra na luta insana para existirmos plenamente como pessoas, a despeito de sermos pessoas negras. Isso nos aniquila, nos adoece e mata. O nome disso, como todo mundo está cansado de saber é racismo.

Em honra ao legado de Bispo e a seu espírito guerreiro, devo contar que o ouvi recentemente em Cachoeira, Bahia, numa contenda com Leda Maria Martins, que discordou de pontos de sua explanação em relação aos espaços para questões raciais e de africanidades, e para os mestres e mestras das culturas tradicionais nas universidades brasileiras. Bispo localizava as conquistas nos anos recentes, na última década, e enaltecia alguns personagens brancos. Leda Martins pontificava seu trabalho de 40 anos numa instituição pública de ensino superior como docente, orientadora e gestora, 40 anos, nos lembrando em sua fúria banto-mineira, que anterioridade é posto. Houve distensão também sobre o desvalor atribuído por Bispo às “letras escritas”, por meio de intervenção epitelial que levantava a galera com frases de efeito e resultava em aplausos em cena aberta, mas, frente à argumentação de Martins, ele quedou reflexivo e silencioso.

Foi um embate de titãs, no qual se encontraram duas tradições conflitantes em certos aspectos, a de um homem, quilombola piauiense, e a de uma mulher, rainha do Reinado mineiro. Foi bonito. Vivi para ver e aprender o quanto se exercita o respeito à intelectualidade da outra pessoa, quando discordamos dela, apresentamos nossos argumentos, debatemos ideias que, de outra forma, seriam obliteradas por uma noção de consenso que elimina as diferenças.

Merecíamos mais, Bispo. Merecíamos nos embrenhar contigo nestes temas e em tantos outros, resguardando nosso direito à divergência, às idiossincrasias, ao contraditório e aos paradoxos.

Para nós que te conhecíamos fica uma lembrança do seu pensamento; para os que só agora, no momento da sua partida, tomam ciência da sua existência, um excerto para saberem quem foi você e para procurarem saber mais:

 Eu lhe ensinei tudo o que eu sabia, mas não sabia tudo que queria lhe ensinar. Mas mesmo assim quero lhe dizer que enquanto você passar para as outras gerações aquilo que eu passei pra você, mesmo que eu esteja enterrado, estarei vivo. Mas no dia que você deixar de passar para as outras gerações isso que eu recebi de outras gerações e estou lhe passando, mesmo que eu esteja presente, estarei morto. Então a minha vida a partir de hoje está nas suas mãos. A minha vida está na sua vida. (Antonio Bispo dos Santos, A terra dá, a terra quer).

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