Mulher Negra: Resistindo e caminhando

Todos os anos, chegando ao 25 de julho, comemoramos o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. É uma das mais emblemáticas e importantes datas na luta feminista e para o conjunto de movimentos de mulheres negras do país.  Trata-se da oportunidade de descortinar uma série de realidades que apontam a permanência da discriminação de gênero, do racismo, exploração de classe e outras formas de violência ainda presentes na sociedade. Estamos falando de um público que sofre dupla opressão: por ser mulher e negra, suscetível aos indicadores sociais mais negativos.

por Vera Lúcia Barbosa
Nessa reflexão, inclusive, vale defender a tese de que muitas das práticas racistas e sexistas são, ainda, resquícios de séculos de escravidão, subalternização da figura da mulher e imposição de um regime patriarcal. Isso porque não estamos somente num momento de visibilidade para temática negra ou apenas virando mais uma página do calendário feminista. É hora de incentivo à resistência, afirmação de ideais e reafirmação da nossa condição enquanto cidadãs e sujeitos políticos que fazem o enfrentamento, todos os dias, a diversas barreiras e desigualdades persistentes.
O fato de as mulheres negras ocuparem os lugares mais desfavoráveis na estrutura social e econômica do país, problemas aos quais nos referimos, está revelado no documento “Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil (2013)”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No capítulo que trata do tema “Mulheres Negras, Pobreza e Desigualdade de Renda”, por exemplo, são apresentados alguns indicadores que refletem sérias dificuldades. Enquanto a taxa de desocupação das mulheres brancas é mais de 70% superior a dos homens brancos, a desocupação das mulheres negras excede em mais de 130% este parâmetro. A vitimização de mulheres negras no que diz respeito à violência, num comparativo com a população branca, é outro ponto a ser observado.
Podemos citar um conjunto de outros problemas que fazem parte do cotidiano da população negra feminina, como a discriminação nos equipamentos e serviços públicos, problema que revela a existência de racismo institucional no nosso país, além da fragilidade na promoção de programas de saúde específicos, no fomento e apoio à produção cultural e na efetivação de uma educação inclusiva e não racista.
Destacamos, no entanto, alguns avanços políticos e de garantia de direitos, fruto de conquistas do segmento nos últimos tempos. Reserva de vagas para ingresso no serviço público via concursos; políticas de acesso da população negra às universidades; amparo legal e serviços de enfrentamento ao crime do racismo e da intolerância religiosa, a exemplo do Estatuto da Igualdade Racial da Bahia; o Projeto de Inclusão Produtiva de Trabalhadoras Rurais, também contemplando nossas comunidades quilombolas; além de outras iniciativas para a visibilidade, inclusão social e produtiva de povos e comunidades tradicionais; editais de apoio a projetos, dentre outras. É bem verdade que tais iniciativas ainda são insuficientes diante da existente demanda histórica, mas por conta disso, vamos continuar marchando e perseverando na luta.
Assim sendo, vale refletir e ampliar o debate neste campo. Cabe à sociedade civil organizada e aos poderes constituídos reafirmar o compromisso na construção de políticas sociais ainda mais eficazes, capazes de reparar o descompasso que enfrentamos: um país de maioria de mulheres, acentuadamente negras, porém afetadas pelas perversas e duras práticas racistas, com suas negativas consequências para o desenvolvimento da comunidade negra. É para reverter esse quadro que empreendemos lutas diárias. Fazendo interlocuções e trilhando um caminho de desafios e conquistas.
Trazemos a lembrança de outro importante segmento, as trabalhadoras rurais, que também celebram seu dia nesta data. Para este público, a nossa justa homenagem, à luz de Margarida Alves, negra e agricultora, lutadora incansável pelos direitos humanos e reforma agrária, que tombou na defesa de um Brasil mais justo. Como ela, tantas outras mulheres nos antecederam nas jornadas, deixando essa vida e permanecendo presentes na nossa memória e militância. Também merecem destaque a Negra Zeferina e Maria Felipa, ambas com atuação marcante na construção de uma sociedade baiana de iguais, mesmo nas tantas diferenças. Seguindo o exemplo de tais figuras vislumbramos e queremos alcançar uma Bahia livre do racismo, do sexismo e de todas as formas de desigualdade.

+ sobre o tema

para lembrar

Caneladas do Vitão: Uma vez Anielle, sempre Marielle 2

Brasil, meu nego, deixa eu te contar, a história...

Dizem que `num´pega, mas um dia ainda vão aprender que pega

Domingo passado, folheando revistas velhas, bati o olho numa...

Primeira vereadora negra eleita em Joinville é vítima de injúria racial e ameaças

A vereadora Ana Lúcia Martins (PT) é a primeira...
spot_imgspot_img

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...

“O Itamaraty me deu uma bofetada”, diz embaixadora Isabel Heyvaert

Com 47 anos dedicados à carreira diplomática, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert não esconde a frustração. Ministra de segunda classe, ela se...
-+=