sexta-feira, dezembro 3, 2021
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Na apresentação do Show Medicina, preconceito e piadas com desafetos

A reportagem da Ponte conseguiu assistir à edição deste ano da peça. Piadas contra minorias e referências a ‘inimigos’ dão o tom

Igor Ojeda e   na Ponte

Os atores cantam e dançam ao som de “Geni e o Zepelim”. Os espectadores gritam e aplaudem com entusiasmo. “Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni!”, entoam. O público vai ao delírio. “Ela é boa de apanhar! Ela é boa de cuspir!” Mais aplausos e gritos. “Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!” Assobios. Ao fim da cena, o artista que representa a personagem-título da canção se posiciona no centro do palco. O refrão é cantado mais uma vez, com força. Geni cai ao chão enquanto os demais simulam um apedrejamento. A plateia vem abaixo. Catarse coletiva.

Para os leigos, a performance faz parte de uma homenagem do Show Medicina ao compositor Chico Buarque de Hollanda, que completou 70 anos em 2014. Para os iniciados, porém, o recado é claro. Geni é nome do coletivo feminista criado no final de 2013 na FMUSP após uma aluna do curso sofrer abuso durante uma cervejada no Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc). Desde então, o grupo vem questionando fortemente o que qualificam de ambiente machista dentro da faculdade.

Embora a apresentação anual do Show Medicina seja voltada para alunos e familiares, a reportagem da Ponte conseguiu assistir a uma das duas sessões da edição deste ano. Pôde constatar que muitas das esquetes fazem referências diretas a ativistas pelos direitos das minorias que atuam na faculdade e a ex-integrantes da instituição que revelaram os abusos que sofreram e testemunharam.

A primeira cena acontece em um bar. Dois homens bebem cerveja e conversam sentados a uma mesa. Outro homem entra, dirige-se ao balcão e pede ao atendente um sanduíche X-9. Ao ouvir o pedido, os dois rapazes levantam-se e começam a esmurrá-lo. X-9 é a gíria popular para “dedo-duro”.

Outra esquete faz uma paródia com o antigo programa “Sai de Baixo”, da TV Globo. Observando a interação entre os atores, um personagem de cara amarrada segura uma espécie de porrete. Interrompe a conversa a todo o momento para “proibir” determinada piada, por ser machista, homofóbica ou gordofóbica. É o Fiscaliza, alusão a Felipe Escaliza, aluno da FMUSP que milita pelos direitos LGBT dentro da faculdade.

Em um determinado momento, de um dos móveis da sala “sai” uma cabeça gritando, de forma acelerada, discursos e palavras de ordem feministas. Momentos depois, a cabeça “desaparece”. No sofá, um dos personagens, mexendo no celular, diz: “fiz um bom negócio”, uma referência ao comercial de TV do site de compra e venda de produtos usados bomnegocio.com. (veja a cena no vídeo abaixo)

Em outra cena, novamente o discurso feminista é ridicularizado. “Por que falar ‘chapéu’? Por que não ‘chapeia’? Por que não ‘chapex’?” O interlocutor tenta responder, mas a feminista continua falando sem parar. No fim, ela comemora: “Ganhei a discussão! Sou a rainha da argumentação!”. A cada piada “interna”, o público vibra.

Outras esquetes tiram sarro dos pacientes do Hospital Universitário, onde os alunos da FMUSP costumam atender a moradores das comunidades pobres do entorno da Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo. Em uma delas, um médico imita o enfermo que não sabe distinguir o que está sentindo nem o local do problema: “Doutor, estou com uma ‘gastchura’ aqui nessa região”, brinca, passando a mão por todo o abdômen.

A apresentação dura de 4 a 5 horas. Nas primeiras fileiras da plateia estão os “sapos” e as mulheres da “Costura”. A interação é total. Os sapos gritam, fazem piadas com as cenas e jogam latinhas de cerveja no palco e nos atores. De tempos em tempos, exigem que uma cena seja repetida. E ai se não são atendidos. A hierarquia deve ser respeitada. Sempre.

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