“Não consigo entrar no Museu do Amanhã”

Ronilso Pacheco, interlocutor social da ONG Viva Rio, publicou artigo em suas redes sociais sobre o incômodo que lhe causa o novo Museu do Amanhã, na Zona Portuária do Rio:”Mais de meio milhão dos escravos e escravas que por aqui passaram, adentraram pelo Valongo, onde está o Museu do Amanhã. Seus corpos estão ali embaixo (sob a terra, ou lançados ao mar). Alguém aqui imagina a construção de um Museu do Amanhã no território dos campos de concentração em Auschwitz?”. Pacheco conclui: “A construção do Museu do Amanhã é a afirmação de que se o passado é de negros, ‘então não nos interessa’. Não há o que preservar. Deixem esses corpos esquecidos, como lixo que se decompõe em aterro sanitário”

por Ronilso Pacheco do Brasil 247

Porque não consigo entrar no museu do amanhã

Talvez esta seja uma informação desnecessária. Talvez. Mas de qualquer maneira, opto por partilhar desse desestímulo, dessa frustração, porque tudo o que envolve a construção do Museu do Amanhã (e não ele necessariamente), e o que ele agora significa, me afeta negativamente.

Afeta minha memória, saber que a região onde o museu foi construído é um território macabro. Ponto de chegada do maior contingente de negros escravos e negras escravas da história da humanidade. Comercializados como mercadoria, foram vendidos, ou viraram lixo humano, ou morreram. A região do Valongo, onde o Museu do Amanhã está de pé, enterra a maioria dos corpos negros que já colocaram os pés no continente americano. Sim, você não sabia? Mais de meio milhão dos escravos e escravas que por aqui passaram, adentraram pelo Valongo, onde está o Museu do Amanhã. Seus corpos estão ali embaixo (sob a terra, ou lançados ao mar). O comércio da venda de corpos de negros e negras foi para ali transferido, para que a região central da cidade, hoje a Praça XV, não fosse tumultuada pela presença daquela gente feia e suja, para que o cheiro deles não atrapalhasse o ambiente e a estética da cidade que tinha pretensões de ser comparada urbanisticamente a Paris.

Afeta minha história, e minha consciência histórica, saber que um passado negro é deliberadamente ignorado e destruído, para que um futuro branco classemediano seja erigido no lugar, com festa e pompa. Alguém aqui imagina a construção de um Museu do Amanhã no território dos campos de concentração em Auschwitz? Nunca. Ao contrário, na Alemanha, todo estudante alemão deve (eu disse “deve”, é obrigatório) visitar ao menos dois campos de concentração ao longo de sua vida escolar. Essa marca é importante. Eles não devem esquecer, nunca, que ali pessoas foram tratadas como nada. Mas no Rio, a construção do Museu do Amanhã é a afirmação de que se o passado é de negros, “então não nos interessa”. Não há o que preservar. Deixem esses corpos esquecidos, como lixo que se decompõe em aterro sanitário. Dêem, em memória deles, algumas placas, exposição de penduricalhos e festas.

E assim nasce o Museu do Amanhã. Bonito de verdade. Impressionante de verdade. E que eu até visitaria. Não fosse essa dor e essa indignação, esse grito ensurdecedor do silêncio dos que morreram sem nada.

*Ronilso Pacheco é interlocutor social na ONG Viva Rio; graduando em Teologia na PUC-Rio; membro do Coletivo Nuvem Negra – coletivo de negros e negras estudantes da PUC-Rio, e presta assessoria para movimentos sociais e organizações de direitos humanos.

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