terça-feira, dezembro 6, 2022
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‘Não existem dois Brasis’; leia íntegra comentada do discurso de Lula após a vitória

Petista diz que trabalhará pela conciliação do país dividido sob governo Jair Bolsonaro (PL)

No primeiro discurso após ser eleito presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, 77, líder do Partido dos Trabalhadores, disse na noite deste domingo (30) que “não existem dois Brasis” e que trabalhará pela conciliação do país dividido após a derrota de Jair Bolsonaro (PL), que concorria à reeleição.

Sem se referir ao atual mandatário, o eleito defendeu ainda o retorno à normalidade democrática e a volta de políticas de combate à desigualdade social, colocando o combate à fome como sua prioridade, assim como fez ao conquistar seu primeiro mandato, em 2002.

Lula leu o discurso e fez algumas intervenções de improviso. No início, ele cumprimentou os aliados que o acompanhavam no palanque, em um hotel na região central da capital paulista, e ignorou seu vice, o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSB), ex-adversário que ele atraiu para a chapa no intuito de sinalizar a imagem de “imenso movimento democrático” em que converteu sua campanha. O agradecimento ao ex-tucano veio na parte final do pronunciamento.

No encerramento, também fugindo do roteiro, ele agradeceu a Deus e à imprensa. No primeiro caso, a menção se tornou mais frequente em discursos do petista ao longo de uma campanha contra um rival que misturou religião e política, embalado pelo slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, repetido desde 2018. No segundo caso, trata-se de uma inflexão no discurso de Lula, um crítico da imprensa principalmente pela cobertura sobre seu governo e a Operação Lava Jato, que o levou à prisão por 580 dias.

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Primeiro eu quero cumprimentar cada companheiro, cada companheira que está aqui atrás e tiveram um papel importante nessa campanha, sobretudo as pessoas que vieram no segundo turno, como a companheira Simone, que foi candidata pelo MDB. A nossa companheira Eliziane, nossa querida senadora pelo estado do Maranhão, que nos ajudou muito. Os outros aqui são todos marinheiros da primeira viagem.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS), que fez 4% dos votos válidos no primeiro turno da eleição presidencial, foi a primeira pessoa a ser mencionada nominalmente na fala. Ela virou símbolo do arco de apoio obtido no segundo turno do eleito. A emedebista, de histórico distante do PT, fez um giro pelo país em comícios pró-Lula e sugeriu que o partido usasse roupas brancas em vez de vermelhas como forma de enfatizar a união. O petista também agradeceu à senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), que ajudou a fazer pontes dele com o eleitorado evangélico.

Eu quero começar essa pequena fala, que vai ser lida, com agradecimento a Deus. Porque eu, a vida inteira, sempre achei que Deus sempre foi muito generoso comigo para permitir que eu saísse de onde eu saí para chegar onde cheguei. E nesse momento em que nós não enfrentamos um adversário. Nós não enfrentamos um candidato. Nós enfrentamos a máquina do Estado brasileiro colocada a serviço do candidato da situação para tentar evitar que nós ganhássemos as eleições.

Bolsonaro, em desvantagem nas pesquisas desde o ano passado, apostou nos efeitos sobre sua popularidade de um conjunto de medidas econômicas articuladas às portas da campanha, como pagamento de benefícios sociais. Na crítica, Lula não chamou o adversário pelo nome ou de presidente, mas de “candidato da situação”. A declaração sobre o uso do aparato do governo faz crítica indireta também ao episódio das operações da PRF (Polícia Rodoviária Federal) neste domingo, questionadas por dificultarem a votação principalmente no Nordeste.

E graças ao povo brasileiro, a quem eu quero agradecer de coração. O povo que votou em mim, o povo que votou no adversário. Quem foi para a urna. Quem se dignou a cumprir com seu compromisso civilizatório de cidadania. Eu quero dar os parabéns. E sobretudo quero dar os parabéns para as pessoas que votaram em mim.

Porque eu me considero um cidadão que teve um processo de ressurreição na política brasileira, porque tentaram me enterrar vivo e eu estou aqui para governar esse país numa situação muito difícil, mas eu tenho fé em Deus que, com a ajuda do povo, nós vamos encontrar uma saída para que esse país volte viver democraticamente, harmonicamente. E a gente possa inclusive estabelecer a paz entre as famílias, entre os divergentes. Para que a gente possa construir o mundo que nós precisamos, e o Brasil.

A expressão “ressurreição” é uma referência à sua prisão em decorrência de condenação na Operação Lava Jato, em 2018. O petista foi impedido pela Lei da Ficha Limpa de concorrer à Presidência no pleito anterior e foi substituído na chapa por Fernando Haddad, que perdeu no segundo turno para o atual presidente. Lula teve suas sentenças anuladas em março de 2021 pelo STF, que considerou que o então juiz Sergio Moro agiu com parcialidade para punir o líder petista, e que as causas não deveriam ter tramitado no Paraná. Com isso, o ex-presidente voltou com favoritismo à arena eleitoral.

Quero agradecer meu companheiro Fernando Haddad, meu grande parceiro, que fez uma campanha extraordinária. A Ana Estela, sua esposa. Agora chega nossa companheira Marina Silva. Bem, então, para ficar parecendo intelectual, eu vou colocar meu óculos [sic]. E a Janja vai retirando as páginas aqui.

Lula se dirigiu ao ex-prefeito da capital paulista sem mencionar sua derrota para o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) no segundo turno da eleição para o Governo de São Paulo. Haddad é cotado para posição de destaque no ministério do novo governo. A partir desse momento, o presidente eleito passou a ler o discurso com a ajuda da esposa, a socióloga Rosângela da Silva, a Janja. A menção a Marina reflete um dos símbolos de reconciliação obtida por Lula ainda no primeiro turno. A ex-presidenciável da Rede estava rompida com o PT desde a época em que ele ainda era presidente.

Chegamos ao final de uma das mais importantes eleições da nossa história. Uma eleição que colocou frente a frente dois projetos opostos de país e que hoje tem um único e grande vencedor: o povo brasileiro. Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha. É a vitória de um imenso movimento democrático que se formou, acima dos partidos políticos, dos interesses pessoais e das ideologias, para que a democracia saísse vencedora.

A ausência de menção a Bolsonaro na parte inicial da fala contrasta com o discurso de Lula quando foi eleito pela primeira vez, em 2002. Na época, ele disse que já tinha conversado por telefone com o então adversário, José Serra (PSDB), e externou agradecimentos ao então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pela disposição de fazer “a mais sensata e a mais democrática transição já vista no nosso país”.

Neste 30 de outubro histórico, a maioria do povo brasileiro deixou bem claro que deseja mais e não menos democracia. Deseja mais e não menos inclusão social e oportunidades para todos. Deseja mais e não menos respeito e entendimento entre os brasileiros. Em suma, deseja mais e não menos liberdade, igualdade e fraternidade em nosso país.

O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que exercer o direito sagrado de escolher quem vai governar a sua vida. Ele quer participar ativamente das decisões do governo. O povo brasileiro mostrou hoje que deseja mais do que o direito de apenas protestar que está com fome, que não há emprego, que o seu salário é insuficiente para viver com dignidade, que não tem acesso a saúde e educação, que lhe falta um teto para viver e criar seus filhos em segurança, que não há nenhuma perspectiva de futuro.

Ao reforçar temas ligados ao cotidiano da população, sobretudo a parcela mais pobre, Lula retomou pilares de sua campanha neste ano, que foi baseada em críticas à economia sob Bolsonaro e na promessa de retomada do crescimento econômico e da distribuição de renda, apostando na nostalgia de um tempo em que, segundo ele, as pessoas tomavam cerveja e comiam picanha.

O povo brasileiro quer viver bem, comer bem, morar bem. Quer um bom emprego, um salário reajustado sempre acima da inflação, quer ter saúde, educação e políticas públicas de qualidade.

O reajuste do salário mínimo virou um dos principais temas da reta final da campanha. A partir de reportagem da Folha sobre plano do ministro Paulo Guedes que poderia desvincular reajuste da inflação, o PT intensificou críticas à política econômica e social do governo Bolsonaro. O assunto foi recorrente no debate derradeiro na Globo.

Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, ter acesso a todos os bens culturais, porque a cultura alimenta nossa alma. O povo brasileiro quer ter de volta a esperança.

Em mais de um momento do discurso, houve crítica à política de incentivar o armamento da população implantada na gestão Bolsonaro, como em decretos que flexibilizaram a posse de armas.

É assim que eu entendo a democracia. Não apenas como uma palavra bonita inscrita na lei, mas como algo palpável, que sentimos na pele e que podemos construir no dia a dia. Foi essa democracia, no sentido mais amplo do termo, que o povo brasileiro escolheu hoje nas urnas. Foi com essa democracia, real, concreta, que nós assumimos o compromisso ao longo de toda a nossa campanha.

E é essa democracia que nós vamos buscar construir a cada dia do nosso governo. Com crescimento econômico repartido entre toda a população, porque é assim que a economia deve funcionar: como instrumento para melhorar a vida de todos, e não para perpetuar desigualdades.

Lula modifica o tom saudosista de seus discursos de campanha sobre a questão econômica e tenta projetar perspectivas sobre o crescimento. O ex-presidente sofreu críticas por ter sido superficial sobre seu plano para a economia, como se pedisse um cheque em branco para governar.

A roda da economia vai voltar a girar, com geração de empregos, valorização dos salários e renegociação das dívidas das famílias que perderam seu poder de compra. A roda da economia vai voltar a girar com os pobres fazendo parte do orçamento. Com apoio aos pequenos e médios produtores rurais, responsáveis por 70% dos alimentos que chegam às nossas mesas. Com todos os incentivos possíveis aos micros e pequenos empreendedores, para que eles possam colocar seu extraordinário potencial criativo a serviço do desenvolvimento do país.

A mensagem de inclusão dos pobres no Orçamento foi usada por Lula para ascender ao poder 20 anos atrás e reeditada na campanha deste ano. A menção ao agronegócio tem como pano de fundo atritos com o setor ao longo da campanha, como declaração de que esse ramo da economia inclui empresários fascistas.

É preciso ir além. Fortalecer as políticas de combate à violência contra as mulheres e garantir que elas ganhem o mesmo salário que os homens ganham no exercício de igual função.

A paridade de salários era tema da candidatura de Simone Tebet e também acena ao eleitorado feminino, que se mostrou mais refratário a Bolsonaro ao longo da campanha.

Enfrentar sem tréguas o racismo, o preconceito e a discriminação, para que brancos, negros e indígenas tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Só assim seremos capazes de construir um país de todos. Um Brasil igualitário, cuja prioridade sejam as pessoas que mais precisam. Um Brasil com paz, democracia e oportunidades.

Ao se manifestar pela valorização da diversidade e pelo respeito entre os diferentes, o petista sinaliza recuar no discurso de “nós contra eles” que caracterizou a chegada anterior à Presidência. Neste ano, em entrevista ao Jornal Nacional, ele chegou a dizer que a polarização política “é saudável”. “É estimulante, ela faz a militância ir para a rua, ela faz a militância carregar bandeira.”

Meus amigos e minhas amigas, a partir de 1º de janeiro de 2023 vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras. Não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação.

Não interessa a ninguém viver numa família onde reina a discórdia. É hora de reunir de novo as famílias, refazer os laços de amizade rompidos pela propagação criminosa do ódio. A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra. Este país precisa de paz e de união. Este povo não quer mais brigar. Este povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído. É hora de baixar as armas, que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida.

Ele indica a disposição de buscar algum tipo de pacificação com a metade do eleitorado que votou em seu adversário. Indiretamente, ele relaciona o lado oposto à violência, baseado nas normas de Bolsonaro que relaxaram o acesso a armas. A campanha foi marcada por episódios de agressão e hostilidade, em um nível de rivalidade inédito.

Ao falar em valorização da vida, Lula fez uma crítica indireta à atuação de Bolsonaro na pandemia de Covid-19, tema explorado na campanha para associar o mandatário ao negacionismo científico e responsabilizá-lo pela demora na compra de vacinas, diretamente ligada às mais de 688 mil mortes provocadas pelo vírus no Brasil. Não houve declaração direta sobre a crise sanitária.

O desafio é imenso. É preciso reconstruir este país em todas as suas dimensões. Na política, na economia, na gestão pública, na harmonia institucional, nas relações internacionais e, sobretudo, no cuidado com os mais necessitados.

É preciso reconstruir a própria alma deste país. Recuperar a generosidade, a solidariedade, o respeito às diferenças e o amor ao próximo. Trazer de volta a alegria de sermos brasileiros e o orgulho que sempre tivemos do verde e amarelo e da bandeira do nosso país. Esse verde e amarelo e essa bandeira que não pertencem a ninguém, a não ser ao povo brasileiro.

Em nova estocada em Bolsonaro, Lula se refere à apropriação dos símbolos pátrios, do verde e amarelo e da bandeira nacional pelo bolsonarismo. A ideia de retomar os elementos como bem coletivo foi explorada ao longo da campanha, com o vermelho, cor do PT, sendo atenuado para incluir outros tons.

Nosso compromisso mais urgente é acabar com a fome outra vez. Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer ou que consumam menos calorias e proteínas do que o necessário. Se somos o terceiro maior produtor mundial de alimentos e o primeiro de proteína animal, se temos tecnologia e uma imensidão de terras agricultáveis, se somos capazes de exportar para o mundo inteiro, temos o dever de garantir que todo brasileiro possa tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias. Este será, novamente, o compromisso número 1 do nosso governo.

A promessa resgata a tônica do primeiro governo do petista, que implementou políticas para combater a miséria e tirou o país do mapa da fome mundial. Sob Bolsonaro, o Brasil voltou a ver os índices de insegurança alimentar crescerem. Na posse, em janeiro de 2003, o petista defendeu que o combate à fome precisava virar uma “grande causa nacional, como foram no passado a criação da Petrobras e a memorável luta pela redemocratização”. O tema foi recorrente na eleição deste ano.

Não podemos aceitar como normal que famílias inteiras sejam obrigadas a dormir nas ruas, expostas ao frio, à chuva e à violência. Por isso, vamos retomar o Minha Casa, Minha Vida, com prioridade para as famílias de baixa renda, e trazer de volta os programas de inclusão que tiraram 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza.

A menção aos programas sociais petistas omitiu o papel da ex-presidente Dilma Rousseff, que compareceu ao pronunciamento, mas não foi citada nesta declaração. Posteriormente, na avenida Paulista, ela foi elogiada pelo eleito.

O programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, instituído em 2009, foi uma das bandeiras dos governos Lula e Dilma. Na gestão Bolsonaro, já em decadência, foi rebatizado de Casa Verde e Amarela.

O Brasil não pode mais conviver com esse imenso fosso sem fundo, esse muro de concreto e desigualdade que separa o Brasil em partes desiguais que não se reconhecem. Este país precisa se reconhecer. Precisa se reencontrar consigo mesmo.

Para além de combater a extrema pobreza e a fome, vamos restabelecer o diálogo neste país. É preciso retomar o diálogo com o Legislativo e o Judiciário. Sem tentativas de exorbitar, intervir, controlar, cooptar, mas buscando reconstruir a convivência harmoniosa e republicana entre os três Poderes.

A normalidade democrática está consagrada na Constituição. É ela que estabelece os direitos e obrigações de cada Poder, de cada instituição, das Forças Armadas e de cada um de nós. A Constituição rege a nossa existência coletiva, e ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la.

A fala embute recados a Bolsonaro e à desordem institucional promovida pelo presidente, com embates com outros Poderes, principalmente o Judiciário, na figura do STF (Supremo Tribunal Federal). A relação com o Congresso também se deteriorou no atual governo, a partir da ascensão das emendas de relator, que culminaram no chamado orçamento secreto —ampliando o poder do Legislativo sobre as decisões orçamentárias, com mecanismos pouco transparentes e descolados de políticas públicas. O presidente também nomeou militares para cargos civis, algo que Lula prometeu reduzir.

Também é mais do que urgente retomar o diálogo entre o povo e o governo. Por isso vamos trazer de volta as conferências nacionais. Para que os interessados elejam suas prioridades e apresentem ao governo sugestões de políticas públicas para cada área: educação, saúde, segurança, direitos da mulher, igualdade racial, juventude, habitação, cultura e tantas outras.

Vamos retomar o diálogo com os governadores e os prefeitos, para definirmos juntos as obras prioritárias para cada população. Não interessa o partido ao qual pertençam o governador e o prefeito. Nosso compromisso será sempre com melhoria de vida da população de cada estado, de cada município deste país.

Prometida na campanha, a relação republicana com governadores independentemente de partidos é um dos desafios do novo governo. Lula terá governadores aliados em 11 estados a partir de 2023, mas terá de lidar com nomes da oposição em 14 governos estaduais —incluindo os maiores colégios eleitorais, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Dois governadores eleitos ficaram neutros.

No mandato do atual presidente, foram frequentes rusgas com governadores não alinhados, como João Doria, em São Paulo, principalmente no auge da pandemia.

Vamos também reestabelecer o diálogo entre governo, empresários, trabalhadores e sociedade civil organizada, com a volta do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Ou seja, as grandes decisões políticas que impactem as vidas de 215 milhões de brasileiros não serão tomadas em sigilo, na calada da noite, mas após um amplo diálogo com a sociedade.

O Conselho de Desenvolvimento, apelidado de Conselhão, foi uma das novidades do primeiro governo Lula, a partir de 2003. Reunia diferentes setores, como empresários e sindicalistas, e foi inicialmente comandado por Tarso Genro, que tinha status de ministro.

Acredito que os principais problemas do Brasil, do mundo, do ser humano, possam ser resolvidos com diálogo, não com força bruta. Que ninguém duvide da força da palavra, quando se trata de buscar o entendimento e o bem comum.

Meus amigos e minhas amigas, nas minhas viagens internacionais, e nos contatos que tenho mantido com líderes de diversos países, o que mais escuto é que o mundo sente saudade do Brasil. Saudade daquele Brasil soberano, que falava de igual para igual com os países mais ricos e poderosos. E que ao mesmo tempo contribuía para o desenvolvimento dos países mais pobres. O Brasil que apoiou o desenvolvimento dos países africanos, por meio de cooperação, investimento e transferência de tecnologia. Que trabalhou pela integração da América do Sul, da América Latina e do Caribe, que fortaleceu o Mercosul, e ajudou a criar o G-20, a Unasul, a Celac e os Brics.

Hoje nós estamos dizendo ao mundo que o Brasil está de volta. Que o Brasil é grande demais para ser relegado a esse triste papel de pária do mundo.

A crítica ao isolamento internacional sob Bolsonaro reproduz frase dita pelo próprio ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo (2019-2021). Em outubro de 2020, durante uma cerimônia de formatura do Instituto Rio Branco, a escola de formação dos diplomatas, ele disse: “Se isso [a atuação do Brasil na política externa] faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”.

Vamos reconquistar a credibilidade, a previsibilidade e a estabilidade do país, para que os investidores nacionais e estrangeiros retomem a confiança no Brasil. Para que deixem de enxergar nosso país como fonte de lucro imediato e predatório, e passem a ser nossos parceiros na retomada do crescimento econômico com inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Visto com reservas pelos mercados, Lula sinaliza com a estabilidade política como maneira de atrair mais recursos para o país.

Queremos um comércio internacional mais justo. Retomar nossas parcerias com os Estados Unidos e a União Europeia em novas bases. Não nos interessam acordos comerciais que condenem nosso país ao eterno papel de exportador de commodities e matéria-prima.

Vamos reindustrializar o Brasil, investir na economia verde e digital, apoiar a criatividade dos nossos empresários e empreendedores. Queremos exportar também inteligência e conhecimento.

Vamos lutar novamente por uma nova governança global, com a inclusão de mais países no Conselho de Segurança da ONU e com o fim do direito a veto, que prejudica o equilíbrio entre as nações.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU é uma demanda de Lula desde sua primeira passagem pela Presidência, com a reivindicação de que o Brasil e outros países de relevância global tenham direito a assento permanente. Os membros fixos —EUA, China, Rússia, Reino Unido e França— podem vetar qualquer medida que desagrade a esses países.

Estamos prontos para nos engajar outra vez no combate à fome e à desigualdade no mundo e nos esforços para a promoção da paz entre os povos.

O Brasil está pronto para retomar o seu protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos biomas, sobretudo a floresta amazônica. Em nosso governo, fomos capazes de reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia, diminuindo de forma considerável a emissão de gases que provocam o aquecimento global. Agora, vamos lutar pelo desmatamento zero da Amazônia. O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva. Uma árvore em pé vale mais do que toneladas de madeira extraídas ilegalmente por aqueles que pensam apenas no lucro fácil, às custas da deterioração da vida na Terra. Um rio de águas límpidas vale muito mais do que todo o ouro extraído às custas do mercúrio que mata a fauna e coloca em risco a vida humana.

Quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente, uma parte da humanidade morre junto com ela. Por isso, vamos retomar o monitoramento e a vigilância da Amazônia e combater toda e qualquer atividade ilegal —seja garimpo, mineração, extração de madeira ou ocupação agropecuária indevida.

Ao mesmo tempo, vamos promover o desenvolvimento sustentável das comunidades que vivem na região amazônica. Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem destruir o meio ambiente. Estamos abertos à cooperação internacional para preservar a Amazônia, seja em forma de investimento ou pesquisa científica. Mas sempre sob a liderança do Brasil, sem jamais renunciarmos à nossa soberania.

Temos compromisso com os povos indígenas, com os demais povos da floresta e com a biodiversidade. Queremos a pacificação ambiental. Não nos interessa uma guerra pelo meio ambiente, mas estamos prontos para defendê-lo de qualquer ameaça.

Na comunidade internacional, a Amazônia virou um dos principais motivos de críticas ao governo Bolsonaro já em seu primeiro ano do mandato, em 2019, quando houve uma alta das queimadas e o presidente insinuou armação elaborada por ONGs estrangeiras.

Os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips expuseram o descontrole do Estado sobre a região amazônica, com atuação de madeireiros, garimpeiros, pescadores ilegais e traficantes de animais silvestres, drogas e armas.

Meus amigos e minhas amigas, o novo Brasil que iremos construir a partir de 1º de janeiro não interessa apenas ao povo brasileiro, mas a todas as pessoas que trabalham pela paz, a solidariedade e a fraternidade, em qualquer parte do mundo.

Na última quarta-feira, o papa Francisco enviou uma importante mensagem ao Brasil, orando para que o povo brasileiro fique livre do ódio, da intolerância e da violência. Quero dizer que desejamos o mesmo, e vamos trabalhar sem descanso por um Brasil onde o amor prevaleça sobre o ódio, a verdade vença a mentira, e a esperança seja maior que o medo.

O eleito faz construção parecida com o lema de sua vitória no pleito de 2002. À época, ele disse que “a esperança venceu o medo”, em referência aos que temiam sua vitória sob argumentos como o risco de o Brasil adotar um regime comunista.

Todos os dias da minha vida eu me lembro do maior ensinamento de Jesus Cristo, que é o amor ao próximo. Por isso, acredito que a mais importante virtude de um bom governante será sempre o amor pelo seu país e pelo seu povo. No que depender de nós, não faltará amor neste país. Vamos cuidar com muito carinho do Brasil e do povo brasileiro. Viveremos um novo tempo. De paz, de amor e de esperança.

Um tempo em que o povo brasileiro tenha de novo o direito de sonhar. E as oportunidades para realizar aquilo que sonha.

Para isso, convido a cada brasileiro e cada brasileira, independentemente em que candidato votou nessa eleição. Mais do que nunca, vamos juntos pelo Brasil, olhando mais para aquilo que nos une, do que para nossas diferenças.

Sei a magnitude da missão que a história me reservou e sei que não poderei cumpri-la sozinho. Vou precisar de todos: partidos políticos, trabalhadores, empresários, parlamentares, governadores, prefeitos, gente de todas as religiões. Brasileiros e brasileiras que sonham com um Brasil mais desenvolvido, mais justo e mais fraterno.

Volto a dizer aquilo que disse durante toda a campanha. Aquilo que nunca foi uma simples promessa de candidato, mas sim uma profissão de fé, um compromisso de vida. O Brasil tem jeito. Todos juntos seremos capazes de consertar este país e construir um Brasil do tamanho dos nossos sonhos, com oportunidades para transformá-los em realidade.

A exaltação à união de forças, presente desde o início da campanha, revela também a preocupação de Lula de conseguir governar sob um ambiente mais tenso e fraturado do que o encontrado por ele em seu primeiro mandato, em 2003. Com um arco de alianças que incluiu dez partidos no primeiro turno e mais apoios de outros siglas e líderes partidários no segundo turno, o petista terá o desafio de acomodar quadros na estrutura federal e abrir canais de diálogo com um Congresso Nacional em boa medida alinhado a Bolsonaro.

Mais uma vez, renovo minha eterna gratidão ao povo brasileiro.

Quero agradecer ao companheiro Alckmin, o meu vice-presidente, que deu uma contribuição extraordinária, aos governadores que foram eleitos e àqueles que não conseguiram se eleger. A nossa luta não começa e não termina com a eleição. A nossa luta pela conquista de um país justo, um país em que todos os brasileiros possam comer, trabalhar, estudar, ter acesso à cultura e ao lazer, será uma luta até o fim das nossas vidas.

Eu canso de dizer, não é a quantidade de anos que a pessoa tem que envelhece a pessoa. O que envelhece a pessoa é a falta de causa, é a falta de motivação para a luta. E por isso eu me determinei: o Brasil é a minha causa, o povo é a minha causa. E combater a miséria é a razão pela qual eu vou viver até o fim da minha vida.

Falando de improviso sobre ter o combate à pobreza como missão, Lula se mostrou emocionado.

Um grande abraço e que Deus abençoe a nossa jornada a partir de 1º de janeiro. Obrigado ao povo, obrigado a Deus e obrigado à imprensa pelo tratamento que deu a esse processo eleitoral.

Um abraço, de coração, companheiros.

Após anos de críticas à cobertura da mídia a seu governo e ao andamento de seus processos judiciais, o petista encerrou sua fala destacando de modo positivo o trabalho jornalístico ao longo do pleito, também em gesto na direção oposta à do presidente Bolsonaro.

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