Não se pergunta a um escravo se ele quer ser livre

Enviado por / FontePor Sílvia Alvarez

Um dos fundadores da UNAC (União Nacional de Camponeses) e militante ativo na construção da Moçambique pós-independência, Ismael Ossumane (foto) dá uma aula sobre a história do país que foi sede da 5ª Conferência Internacional da Via Campesina, que aconteceu entre os dias 16 e 23 de outubro, em Maputo.

Ossumane conta que quando das negociações e conversas entre a Frelimo (Frente de Libertação Moçambicana) e os colonos portugueses, estes sugeriram que fosse feito um referendo para perguntar à população moçambicana se queriam permanecer ou não uma colônia de Portugal. A proposta foi imediatamente recusada por Samora Michel, então líder da organização. “Não se pergunta a um escravo se ele quer ser livre”, foi a resposta que Ossumane imagina ter sido dada por Michel, que seguiu com a luta armada até a independência do país, em 1975.

Hoje, a Frelimo é ainda o partido que está no poder em Moçambique, mas com novas características. “Eles dizem que a Frelimo é a mesma. Mas nós temos olhos para ver e corpo pra sentir o que se passa”, disse. Ossumane militou no partido como secretário provincial de políticas econômicas. Mais tarde foi transferido para o Comitê Central para assumir o programa de socialização do campo. Quando percebeu que o projeto revolucionário já não existia no partido, pediu demissão, foi para o campo e ajudou a construir a UNAC. Atualmente, ocupa o cargo de presidente da mesa da Assembléia Geral da entidade.

Quem foi Samora Michel e qual o legado deixado por ele?

Eu não participei da luta armada, mas sei que Samora Machel deu um grande impulso à guerrilha. Ele era um jovem moçambicano nacionalista que aderiu ao movimento de libertação de Moçambique e fez parte do primeiro grupo que recebeu treinamento na Argélia. Por sua grande capacidade de liderança, logo se tornou um comandante muito importante para a concretização da independência do país. Penso que, naquela altura, a liderança tinha que estar com um homem muito ligado às forças populares de libertação. Seria difícil um intelectual, mesmo revolucionário, liderar a luta armada. Ele transformou a luta armada em uma luta popular. E depois da independência, foi um bom comandante, mesmo sem ter uma grande formação acadêmica.

Qual foi a participação e importância da Frelimo na luta pela independência de Moçambique?

A Frelimo passou por transformações ao longo deste processo. Em um determinado momento, existiam duas posições dentro da organização: a revolucionária e uma outra que se chamou de reacionária. A certa altura começaram a acontecer as zonas libertárias, onde a administração portuguesa não entrava. Foi preciso então formar uma administração da Frelimo nesses lugares. Os cargos da Frelimo eram misturados com pessoas dessas duas correntes, até que ficou claro a posição da organização como revolucionária, principalmente quando Samora Michel torna-se um dos líderes da Frelimo.

Os reacionários formariam depois a Renamo ((Resistência Nacional Moçambicana). Que hoje tornou-se o principal partido de oposição.

E como se deu o processo da independência?

Em 74, o exército colonial português recuou. Não quiseram mais a guerrilha. Eles dizem que foi por causa das negociações, mas para nós, os militares perceberam que estavam derrotados no campo de batalha, que os filhos dos portugueses estavam morrendo. Então, começam as negociações. Um pouco difíceis, porque as novas autoridades portuguesas queriam um referendo para perguntar ao povo moçambicano se queriam a independência. Mas Samora Michel bateu o pé. A nossa luta continuou e em setembro de 1974 firmaram-se os acordos. Nesse mesmo dia, aqui em Maputo, teve um levantamento da comunidade portuguesa reacionária, eles até tomaram uma rádio, mas durou pouco tempo. O novo governo português não deu apoio (o governo depois do Estado Novo) e as populações aqui no subúrbio começaram a se organizar. Três dias depois, os portugueses saíram em debandada. Então dá-se a independência e seguimos uma linha socialista.

Quais foram os benefícios do socialismo para a população Moçambicana?

Imediatamente começaram grandes programas de massa. Na educação aconteceram grandes campanhas, sobretudo na questão da alfabetização, porque tínhamos mais de 90% da população sem saber ler e escrever. Nacionalizou-se a saúde que passou a estar a serviço do povo. Aconteceram campanhas também de vacinação para as crianças.

Nacionalizaram também os prédios de rendimento. Os moçambicanos não precisavam mais pagar aluguel, e isso levou a população negra a entrar na cidade de Maputo. Antes era uma cidade colonial só de brancos, enquanto os negros viviam nas periferias. A nacionalização transformou Maputo em uma cidade africana.

Mas porque a revolução fracassou?

Quando Ian Smith apoderou-se do governo da Rodésia (atual Zimbabwe) ilegalmente, a ONU não reconheceu o novo governo e mandou aplicar sanções. No entanto, ninguém as aplicava. Mas quando Moçambique fica independente resolve cortar relações diplomáticas e econômicas com a Rodésia. Mas isso custou muito à Moçambique porque tínhamos ligações econômicas com eles. A ONU também havia prometido um apoio para quem aplicasse as sanções que nunca deu. Então a Rodésia, com o apoio da Renamo, da África do Sul, e por dissidentes da Frelimo resolve entrar em guerra com Moçambique. E eles tinham um aparato militar muito grande.

Qual foi o principal erro cometido pelo partido depois da independência?

Nós cometemos alguns erros dentro da revolução. Aconteceu aquilo que podemos chamar de esquerdismo. Primeiro, começamos a hostilizar a religião. Não só as que vieram de fora, mas também as próprias tradições da população, as crenças. A poligamia, que era tradicional, também foi condenada. Depois hostilizamos também os líderes tradicionais, aqueles que eram agentes do colonialismo, mas tinham poder e legitimidade com o povo. Utilizamos a estratégia errada, transformamos o povo em inimigo da revolução. Acabamos por empurrar o povo para ser base da burguesia. Ela então se apropriou das falhas de Frelimo, falava em “liberdade religiosa, liberdade das tradições”, quando o objetivo deles não era essa liberdade de religião…

Então a situação era: estávamos numa crise econômica, a falência da União Soviétca, a queda do muro de Berlim, o povo estava morrendo. Então em 86 aderimos à abertura do mercado, pegamos receitas do FMI e do Banco Mundial. A princípio isso era uma estratégia. Dar um passo atrás para avançar depois. No entanto, começamos a perceber que aqueles que eram militantes da revolução estavam se transformando em agentes do capitalismo. Muitos enriqueceram da noite para o dia. Esse foi o pior golpe que sofremos.

E hoje, qual é a situação política e econômica de Moçambique?

Temos hoje uma economia política neoliberal que em nada favorece o povo. Recebemos muito dinheiro internacional que supostamente é para apoiar as comunidades, assim como os programas governamentais. Mas é para apoiar, numa perspectiva capitalista, principalmente no campo, como forma de ganhar a base. O sistema capitalista precisa ter alguns na base que defendam o modelo. É uma estratégia. Os portugueses fizeram isso com os líderes tradicionais, como te falei. Estes líderes recebiam alguns benefícios e eram os primeiros a defender o regime colonial. Alem disso, só dar o dinheiro não resolve. Temos que capacitar. Mas o governo não capacita e aí diz “nós já fizemos tudo por essas comunidades. Já demos dinheiro. Eles é que não tem capacidade, não são empreendedores”.

Depois dos acordos de paz ou mesmo durante a guerra, muitas ONG´s deram apoio humanitário, como roupas, comida. O que verificamos nisso é que grande parte, dos projetos das ONG´s é uma repetição da implementação das políticas a que me referia. São desenhadas de uma forma que, na minha análise, em vez de terem um impacto no desenvolvimento das comunidades, têm maior impacto na maneira das pessoas pensarem. Elas ficam cada vez mais dependentes de projetos. Acaba um projeto e já pedem outro. Sem perceber, estão tornando o país vulnerável para que as grandes empresas dos países que doam esse dinheiro possam entrar aqui em Moçambique. A população não percebe que há um preço que pagamos. O país fica nas mãos das grandes empresas estrangeiras, com a cumplicidade das elites nacionais.

Perante esta situação, como a UNAC se organiza? Como combatem esse modelo?

A UNAC tem feito debates, reuniões, ligações com movimentos internacionais, como a Via Campesina, para tentar encontrar soluções perante a realidade da pobreza Moçambicana. Estamos fazendo cursos de formação, inclusive com a ajuda de movimentos sociais brasileiros, tentando conscientizar as pessoas, para que fique claro quando estes projetos estão nos ajudando ou nos cooptando.

Então a UNAC tem um grande trabalho de, nesse contexto, nessa realidade, conseguir levar um desenvolvimento sustentável. Também pressionamos as autoridades para determinado tipo de política. Aqui em Moçambique não temos tanto problema de sem-terras como no Brasil. Mas a reforma agrária não pede ser vista só como distribuição da terra. O que adiante ter terra, mas não ter crédito, e outras condições? Vai te tirar a terra depois. Dirão que os camponeses não estão aproveitando da melhor maneira a terra e a entregarão às multinacionais.

Como a crise mundial e a alta do preço dos alimentos tem afetado os trabalhadores de Moçambique?

O nosso campo não depende muito do mercado para ter alimentação. A população produz a sua alimentação. O problema é que ela produz com muita dificuldade. E não lhe resta dinheiro para comprar outras coisas como caderno para os filhos, remédios, etc. O camponês é pobre. Nas zonas urbanas, onde um trabalhador ganha um salário mínimo de menos de 50 dólares, a vida também é muito difícil. Muitas vezes ele se mantém porque a família que está no campo lhe manda algum alimento.

Agora, com o mercado livre e o desenvolvimento da África do Sul, a produção do interior de Moçambique não chega à cidade de Maputo. Os custos do transporte aumentam muito o preço do alimento que se vai vender. Os produtos da África do Sul chegam a um preço baixo, e com uma embalagem bonita. Então é difícil você aumentar a produção quando não tens mercado. Isso ajuda as empresas a encontrarem espaço para incentivar a monocultura como o algodão e o tabaco, porque essas empresas garantem essa comercialização.

O senhor disse que grandes líderes tornaram-se agentes do capital. A Frelimo seria também um agente do capitalismo hoje?

Dizer que no partido só há agentes do capitalismo pode ser injusto. Mas quando temos dentro do partido pessoas influentes, de peso, que são grandes capitalistas, podemos ter uma idéia do que é o projeto do partido. Mas não podemos pegar um partido com milhares de membros e dizer que todos são agentes. Muita gente ainda acredita em uma transformação.

Por exemplo, essa escola onde estamos (Escola do partido Frelimo) foi construída logo após a independência e era onde se dava a consciência do proletariado, do camponês. Eu mesmo fiz curso aqui. Mas se tu me perguntas o que acontece aqui hoje em dia, eu não sei. Esta sendo útil agora porque conseguimos esse espaço para fazer a Conferência, mas tirando isso, eu não sei.

Além disso, a Frelimo que era um partido de operários e camponeses, com aliança com intelectuais, hoje se diz que é de operários, camponeses, burgueses, agentes econômicos.. tudo! Não sei se historicamente somos capazes de misturar esses tipos de pessoas com interesses completamente diferentes.

E existe uma esquerda intelectual hoje em Moçambique?

As pessoas estão traumatizadas, desanimadas. Quando entramos com um discurso como o da UNAC e o da Via Campesina, ainda te toleram, mas dizem “bom, essa gente não deve andar muito bem da cabeça” ou dizem que somos românticos, algo assim. O capitalismo usa um discurso de que está provado que os regimes socialistas são fracassados. A universidade também está influenciada pelo modelo capitalista. Então o jovem que sai da universidade sai esquematizado dentro do modelo. Há alguns intelectuais que nos apóiam, mas que às vezes acham nosso discurso muito radical.

Então, quais são as perspectivas para o futuro de Moçambique?

A perspectiva é má. Mas também é verdade que durante esses anos que entramos no capitalismo – que não são muitos – já começam a haver algumas frustrações, como jovens desempregados, por exemplo. Começam a verificar que o capitalismo não é tudo isso que a propaganda diz. Em fevereiro desse ano, houve uma mobilização popular por conta do aumento do preço dos combustíveis, que pegou as autoridades de surpresa. Então há uma base inconformada. A dinâmica do insucesso do capitalismo, da exploração dessas elites, pode desencadear, gradualmente, uma consciência que pode engrossar nossa luta. Mas temos que saber que ainda somos uma minoria.

Matéria original: Não se pergunta a um escravo se ele quer ser livre

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