terça-feira, setembro 21, 2021
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Negros já não são os primeiros a morrer em filmes de terror

Dick Hallorann morreu ao levar uma machadada. Julius Gaw até tentou se salvar, mas foi decapitado. Já Ben escapou do ataque de zumbis, mas não sobreviveu a um grupo de patrulheiros e levou tiro na testa. Além do desfecho trágico, esses personagens de “O Iluminado”, “Sexta-Feira 13 – Parte 8” e “A Noite dos Mortos-Vivos” têm algo em comum: são negros em filmes de terror, nos quais grupos marginalizados não chegam vivos ao final.

O site americano “Black Horror Movies”, referência no assunto, analisou quase mil filmes do gênero e confirmou essa tendência. Cerca de um em cada dois negros morreu durante a história.

Esse enredo, porém, sofre uma reviravolta. Com o aumento da diversidade no audiovisual, personagens negros estão perdendo menos a vida e ganhando complexidade.

O exemplo mais famoso dessa renovação é “Corra!” (2017), primeiro longa do diretor americano Jordan Peele, protagonizado pelo britânico Daniel Kaluuya.

Com orçamento de US$ 4,5 milhões (R$ 23 milhões), minúsculo para os padrões de Hollywood, o filme foi uma das surpresas daquele ano. Atingiu bilheteria de US$ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão), 98% de críticas positivas no site especializado ‘‘Rotten Tomatoes’’ e ganhou o Oscar de melhor roteiro original.

É também o caso de maior sucesso de uma onda que ganha mais força: as produções de horror negro.

Autora de “Horror Noire: A representação negra nos filmes de terror” (Darkside, R$ 64,90), a americana Robin R. Means Coleman define o gênero como narrativas escritas ou dirigidas por cineastas negros, com protagonistas negros e que contam histórias de pessoas negras.

Nos últimos anos, várias tramas do tipo foram lançadas e ganharam visibilidade, como “Lovecraft Country”, de 2020. Escrita por Misha Green, a série acompanha a viagem do personagem Atticus Freeman na busca pelo pai, nos EUA segregacionista dos anos 1950. Uma das maiores apostas da HBO do ano passado, a produção foi cancelada na primeira temporada. Apesar disso, recebeu 18 indicações ao Emmy 2021, incluindo a de melhor série dramática.

O próprio Jordan Peele voltou aos holofotes em 2019 com o filme “Nós”, que está em primeiro lugar no ranking de filmes de horror do ‘‘Rotten Tomatoes’’. Além dele, “Them” (2021), “Black Box” (2020) e as produções brasileiras “M-8: Quando a morte socorre a vida” (2019) e “Egum” (2020) são destaques no horror negro.

Coleman diz que essa onda não é um renascimento do gênero, produzido desde 1890. Para ela, o diferencial está na notoriedade que as produções vêm alcançando. “O renascimento que eu espero após o sucesso de ‘Corra!’ é que o horror negro encontre maior apoio e investimento da indústria, com maior qualidade de histórias e valores de produção”, afirma.

Já Noel dos Santos Carvalho, professor do departamento de multimeios, mídia e comunicação da Unicamp, diz que a linguagem do cinema clássico americano foi moldada pelo filme “O Nascimento de uma Nação”, lançado em 1915.

O longa é considerado um dos responsáveis por reviver a Ku Klux Klan, grupo supremacista branco que torturava e assassinava negros americanos. No filme, os membros da organização são retratados como heróis, enquanto negros (interpretados por atores brancos com a pele pintada) representam os vilões.

A produção trouxe técnicas e estruturas narrativas que foram sendo replicadas pela indústria cinematográfica.

Para Carvalho, o horror negro não inova quanto à forma, já que reproduz regras consagradas em filmes de terror. O diferencial, diz, está na construção dos personagens. “A grande mudança é trazer negros para o primeiro plano. Personagens complexos são construídos e colocados nesses corpos.”

A profusão de personagens que fogem a estereótipos acontece em meio ao aumento da diversidade em Hollywood. Relatório da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, mostra que atores não brancos representam 39,7% dos protagonistas nos principais filmes lançados em 2020.

O percentual é o maior desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2011. Naquele ano, apenas 10,5% dos protagonistas pertenciam a alguma minoria étnico-racial.

O que acontece na frente das câmeras reflete um movimento observado nos bastidores. Embora ainda sub-representados, diretores não brancos estão assinando um número maior de obras. Em 2020, eles eram 25,4% contra 14,4% no ano anterior.

Se nos EUA a diversidade avança, por aqui, parece retroceder. Em 2020, o GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa) publicou boletim analisando 240 filmes lançados no Brasil entre 1995 e 2018. Homens negros são 2% dos diretores e 3% dos roteiristas. Em 23 anos, nenhum longa de grande público foi dirigido ou roteirizado por mulheres negras.

Marcia Rangel Candido, doutora em ciência política e pesquisadora do GEMAA, explica que houve poucas políticas para inclusão de pessoas negras no cinema nacional. As que foram criadas atingiram resultados insuficientes por limitações orçamentárias.

Os avanços tímidos na área, como a Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da Ancine (Agência Nacional do Cinema), estão sendo desfeitos sob o governo Bolsonaro. “A pouca chance de melhoria retrocedeu. Claro, existe um espaço conquistado por pessoas que trabalham com cinema negro, que não é possível ser retirado, mas falta investimento”, afirma a especialista.

Candido diz que o Brasil está na contramão do que acontece no exterior. Ela lembra que, nos EUA, a Netflix tem um comitê de diversidade para ampliar a participação de negros.

O cineasta brasileiro Jeferson De aponta que o futuro dos negros no cinema sempre foi desenhado por pessoas brancas. “Esse desenho ainda está para ser estabelecido pelos negros. Para que aconteça, precisamos de uma presença plena, não só nas telas, mas nos bastidores e no processo criativo das obras. Estamos engatinhando ainda.”

Para Clélia Prestes, psicóloga do Instituto AMMA – Psique e Negritude, a sub-representação de pessoas negras nas telas faz com que elas não se imaginem no futuro. “Isso influencia na baixa autoestima e na dificuldade de enxergar a própria beleza e a de pessoas parecidas com a gente”, diz.

Além de pouco presentes nos filmes, corpos negros surgem em contexto naturalizado de violência. “Essas imagens não só reproduzem o modo como pessoas negras são vistas, mas educam como elas devem ser vistas numa sociedade racista”, afirma a psicóloga.

Jeferson De afirma que a indústria deve criar oportunidades para executivos negros. “Toda empresa sabe que a diversidade é lucrativa. Mas precisa colocar isso em prática e ter pretos decidindo o jogo.”

Maria Angela de Jesus é uma dessas figuras habituadas a decidir. No ramo há mais de 20 anos, foi vice-presidente de produções originais da HBO e diretora de produções originais da Netflix. Hoje é diretora sênior de produção da VIS Américas, divisão brasileira da ViacomCBS, conglomerado que controla canais como MTV e Nickelodeon.

Para ela, a indústria audiovisual deve apostar na diversidade não apenas pelo lucro, mas pela responsabilidade social. “Somos a maioria da população. Não ser representado é o apagamento de uma faixa imensa do Brasil.”

A diversidade deve estar também na sala de roteiristas, diz a executiva. “Quando somos os autores da história, passamos a ocupar outro lugar nas produções.”

O roteirista Marton Olympio sabe bem a importância de narrativas feitas por pessoas negras. Autor da última temporada de “Cidade dos Homens” (2018), ele frisa que o mercado se habituou a retratar esse grupo em situações de violência, cenário que vem tentando mudar.

“O audiovisual cria o modo como a gente enxerga o outro. Penso no tipo de narrativa que a gente constrói para o futuro de uma nação com 54% de pessoas negras.”

Essa preocupação o levou a comandar na VIS Américas uma sala de roteiristas negros. Projetos desse tipo, diz Olympio, aquecem a indústria e estimulam o trabalho de profissionais negros.

“De objetos, estamos passando a sujeitos das narrativas. Não nos vemos como massa, mas como indivíduos. Podemos falar em primeira pessoa sobre nossas histórias.”

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