sábado, novembro 27, 2021
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No dia da consciência negra, precisamos falar sobre eleições municipais

Nós, mulheres negras, ainda somos minoria na política. Este quadro reflete a desigualdade e o racismo que nos coloca em uma maioria de pessoas sem acesso a direitos. No Rio de Janeiro, elegemos duas mulheres negras de esquerda, Tainá de Paula (PT), a mais votada neste campo político, e Thais Ferreira (Psol). Homens brancos seguem confirmando e protegendo os seus privilégios também no processo eleitoral.

Em âmbito nacional, o perfil médio do eleito é homem, branco, casado, com ensino médio completo e média de idade de 44 anos, segundo levantamento do portal G1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dentre os mais de 58 mil eleitos para as Câmaras municipais, 84% são homens e 16% mulheres.

Um resultado vergonhoso em termos de paridade que deveria preocupar seriamente os partidos políticos comprometidos com a democracia para além da retórica. Esses dados não informam outros padrões que sabemos que existem, como a cisgeneridade e a heterossexualidade. São as organizações e coletivas do movimento LGBTI que têm trabalhado para a produção deste levantamento.

Já em relação a financiamento, de acordo com os dados informados pelas legendas e pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), compilados pela plataforma 72 horas, 62,7% de todo o R$1,33 bilhão distribuído foi para candidatos brancos, sem contabilizar o montante altíssimo de doações também destinado a este grupo. Nenhum homem negro de esquerda foi eleito.

Apenas um quinto dos vereadores eleitos no Rio de Janeiro são negras e negros.
Sendo que 46% da população da cidade é negra, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Neste sentido, a dificuldade de acesso a recursos e visibilidade de homens negros é mais parecida com a realidade das mulheres do que com os homens brancos. Isto é algo fundamental para pensarmos sobre as alianças feministas a serem construídas com os homens negros pela luta em defesa da vida, pelos direitos da população negra e contra o genocídio.

Um levantamento do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDIM) apontou que apenas 127 mulheres foram eleitas em todo o estado do Rio de Janeiro e que em 28 municípios, nenhuma mulher foi eleita. Marielle Franco, vereadora brutalmente assassinada, iniciou em 2017 um movimento importante, o “Mulheres na Política”, colocando num mesmo palco várias mulheres de esquerda, afirmando uma política de alianças feminista, anticapitalista e antirracista.

Em Belo Horizonte, a iniciativa “MUITAS” atua de forma coletiva para a ampliação da participação política de mulheres, da população negra, periférica, favelada e LGBTIs com resultados importantíssimos como a Gabinetona, de aliança entre parlamentares eleitas.

Na cidade do Rio de Janeiro, o resultado das eleições municipais aponta um atraso neste sentido em relação a outras capitais do Brasil.
Mas por quê? Como fortalecer a esquerda na cidade sem reforçar as estruturas raciais e patriarcais da divisão de classes? Para que isso seja possível, o campo progressista precisa enfrentar o debate racial em suas instâncias, desde a composição das direções até a capilarização do partido e fortalecimento das lideranças negras.

O racismo nos expulsa da política, uma vez que desestabilizamos a política masculinista branca instaurada nas direções e ocupação dos espaços de poder. Nós temos outras linguagens, outras tecnologias. Nós somos forjadas na distribuição, e não na concentração. Nada vai mudar significativamente enquanto homens brancos seguirem descaradamente privilegiados, inclusive nos partidos de esquerda.

O coletivo Combahee River, organização de lésbicas negras feministas ativa em Boston de 1974 a 1980 nos alerta: “Em nossas práticas políticas, nós não acreditamos que o fim sempre justifica os meios. Para atingir objetivos políticos ‘corretos’, usam-se muitas ações reacionárias e destrutivas. Como feministas, não queremos comprometer pessoas em nome da política. Acreditamos no processo coletivo e na distribuição não hierárquica de poder dentro de nosso grupo, bem como em nossa visão de sociedade revolucionária”.

Com essa sabedoria, temos que avaliar nossa política de alianças e o quanto favorecem ou apagam as nossas pautas em curto, médio e longo prazo. Alianças neoliberais em frentes amplas pela democracia não nos interessam, assim como não nos interessa fortalecer sistemas que reproduzem desigualdades e hegemonias de poder.

Como diz a deputada estadual de São Paulo, Érica Malunguinho (Psol), a eleição de mulheres negras é uma denúncia. Uma denúncia do racismo, do sexismo e da LGBTIfobia. Nós, mulheres negras, ainda somos minoria na política, embora estejamos disputando a sociedade e fazendo política todos os dias, seja lutando por saneamento básico, mobilidade urbana, creches e comida. Por outro lado, quando ocupamos os espaços de poder sofremos ameaças de morte, fakes news e perseguições, como fazem com a deputada federal Talíria Petrone.

Uma bancada de esquerda com maioria de homens brancos não é uma vitória para nós, feministas negras.
Com coragem, precisamos fortalecer um corpo coletivo de dissidências e de revolta contra essa política cisheteromasculinista e branca. A nós, mulheres, população negra e LGBTI, cabe a tarefa de pressionar a direção dos partidos, construir nossas bases, fortalecer nosso corpo coletivo que tem outra forma de fazer política e também cobrar a ocupação dos cargos desses mandatos por pessoas negras, mulheres e LGBTIs de movimentos sociais.

Não acredito em nova ou velha política, acredito em política com ou sem comprometimento real com a justiça social e a democracia em seus sentidos mais amplos, o que necessariamente envolve as práticas e elaborações feministas, antirrascistas, socialistas e antiLGBTIfóbicas.

Sempre levo comigo uma frase do Coletivo Combahee River: “como feministas negras e lésbicas, sabemos que temos uma tarefa revolucionária bem definida e estamos prontas para uma vida de trabalho e luta”. A nossa única opção é mudar o mundo, e não faremos isso sozinhas ou mal acompanhadas.

*Camila Marins é jornalista.

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