quinta-feira, outubro 28, 2021
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O cacto é exemplar de integração, perseverança e adaptabilidade

As festas de fim de ano lembram-me muito minha avó materna, Maria Andrelina, e sua mala de “cortes de tecidos”. Além de previdente, era uma sábia de nascença e com certeza jamais entupiria um shopping atrás de presentes no Natal.

Por Fátima Oliveira, do O Tempo

Quando eu era criança, as “roupas de carregação” eram roupas baratas, compradas feitas. Diante de uma roupa mal-ajambrada, vovó não se calava: “Isso é roupa de carregação”, que hoje são as “sulancas” – baratas, feitas de aproveitamento de sobras de tecidos, inicialmente de helanca (vinda do Sul) na década de 60, em Santa Cruz do Capibaribe, no agreste de Pernambuco.

Vovó mantinha uma mala especial para guardar cortes de tecidos – da chita à seda pura e “outras sedinhas”, passando pelas musselines e pelos “chiffons”, de seda e de algodão, tafetá, brocado, organza e “pele de ovo”. Eu era fascinada por aquela mala trancada à chave! Era nela que vovó encontrava que presente dar a alguém e também era o celeiro para fazer uma roupa às pressas.

Talvez imitando vovó, durante anos mantive uma mala de livros escolhidos a dedo, a que recorria quando queria presentear alguém. Até hoje sou compradora quase compulsiva de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine Saint-Exupèry – uma alegoria em prosa-poema sobre a amizade e a transcendência dela; sobre a sofrença e o encanto do amor e seu entorno filosófico; e que nos ensina o valor da ética da responsabilidade e das coisas que não estão à vista, mas no horizonte: “O que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”… (“Do tempo em que ler ‘O Pequeno Príncipe’ era obrigação”, O TEMPO, 8.2.2011).

Quando dou um presente, estou dando também um pedaço de mim. Há algum tempo, seja para criança ou adulto, só presenteio com cacto e/ou até um pequeno jardim de minicactos, cultivados por mim. Não conheço quem não se derreta diante do encanto de um minicacto, objeto de decoração que dá uma personalidade especial a qualquer ambiente.

De acordo com a sabedoria feng shui – “ciência e arte chinesas, de origem filosófica taoista, que têm por objetivo organizar os espaços com o fim de atrair influências benéficas da natureza” –, cactos são guardiões da casa e purificadores do ambiente – alguns cientistas dizem que formam uma barreira contra as ondas emitidas por aparelhos eletrônicos. Para o feng shui, “o nosso ambiente conta uma história. Então, se mudarmos os elementos desse ambiente de forma correta, poderemos mudar a nossa história de forma positiva” (Portal Feng Shui).

Especula-se que o poder da energia dos cactos muda ambientes positivamente. Ademais, um cacto, para mim puro sertão, é companhia de fácil cuidado e quase não exige nada: pouquíssima água – basta regar uma vez por semana no verão e uma por mês no inverno; gosta de quietude, pois é bastante sensível, portanto evite manusear muito ou até mesmo balançá-lo para não prejudicar o seu ciclo vital. Boa luminosidade é essencial para a sobrevivência de um cacto, então, se dentro de casa, é necessário colocá-lo perto de janelas.

A terra ideal para plantar um cacto é quase inóspita – uma camada de um terço de pedrisco, incluindo pedacinhos de telhas ou tijolos e carvão vegetal triturado, mais mistura para cactos (proporção de duas partes de areia grossa para uma parte de terra adubada). Recomenda-se a cada um ano e meio trocar a terra do vaso, com bastante cuidado para preservar as raízes.

Quando damos um ser vivo a alguém, estamos dando uma companhia. No caso dos cactos, nativos de regiões áridas, estamos presenteando com exemplares de perseverança, adaptabilidade e integração.

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