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O filme Pantera Negra e a questão da ancestralidade africana

Pela primeira vez um filme norte-americano coloca o tema da ancestralidade africana no contexto de discussão crítica ao colonialismo e de roubo e exploração das riquezas do solo africano. Dirigido por Ryan Coolger, um jovem negro formado pela Universidade da Califórnia, o filme Pantera Negra estreia no cinema brasileiro produzindo entusiasmo e contentamento entre ativistas negros(as) de diferentes matizes ideológicas, não apenas por apresentar referências positivas de identidade negra, mas também por colocar o continente africano fora da lógica da pobreza e do subdesenvolvimento estruturais. É importante destacar que Pantera negra também se coloca em uma perspectiva de resposta para uma indústria cinematográfica que tem sido contestada pelo seu racismo e machismo nas principais premiações, que ano após ano sequer indicavam negros aos prêmios.

por Erisvaldo Pereira dos Santos[1] enviado para o Portal Geledés

Ao vincular altíssimo desenvolvimento tecnológico com rituais e saberes tradicionais, evidenciando o poder das mulheres no reino fictício de Wakanda, o diretor coloca em discussão não apenas a relação entre magia e tecnologia, como substrato de subordinação e exploração do mundo capitalista, mas como expressão de afirmação de alteridade e poder que se desenvolvem de forma autônoma e solidária. Neste contexto, o protagonismo e o poder feminino trazem à tona as sociedades matriarcais africanas, revelando a capacidade, a força e autonomia na gestão da vida e também o compromisso com interesses do bem-estar coletivo. Com um exército totalmente composto por mulheres, Wakanda revela o lugar de estrategista, defesa, resistência e de lealdade ocupado por muitas mulheres em sociedades matrilineares e matriarcais africanas.

Enquanto o mundo capitalista, usurpador das riquezas minerais africanas continua olhando a África como um lugar de muita miséria, magia e superstição, o reino de Wakanda se desenvolve em termos de relações políticas, étnicas e produção de riqueza, a partir de sua base material e espiritual. Todo o desenvolvimento se dá em razão de uma busca inteligente e respeitosa das forças que emanam dos reinos minerais, animal e vegetal.

Em torno do vibranium, um mineral raro e fictício; da pantera negra, um animal que representa um clã ancestral; e da erva do coração, um vegetal que permite o acesso ao mundo ancestral; o reino de Wakanda recoloca novos e velhos sentidos e significados de ritual e ancestralidade para pesquisadores, ativistas e religiosos envolvidos com a África e suas diásporas.  Em razão de sua complexidade e dos interesses que estão em jogo e em disputa no mundo capitalista, aqui vou deixar de lado duas questões fundamentais colocadas no filme: 1- a discussão e a forma de exploração de metais raros e preciosos no subsolo africano; 2- o debate sobre a necessidade de transferência tecnológica para que os africanos se apropriem de suas riquezas. Seguindo uma linha de argumento possibilitada pelo trabalho do diretor, tomo a direção do diálogo com as forças do mundo ancestral, cuja mediação se dá por meio de ritual.

Embora a Pantera como representação de divindade ancestral seja praticamente desconhecida da maioria dos adeptos das religiões brasileiras de matrizes africanas, não se pode negar sua existência e seu culto no candomblé Jêje, através do vodun Kpòsú. O seu desconhecimento decorre tanto da predominância dos estudos e da difusão da tradição ioruba quanto da diminuição e dificuldade de expansão do candomblé Jêje. Na tradição do candomblé Jêje, Kpòsú é um vodun de luta, poder e força que funda o clã filhos da pantera. No filme, a pantera negra é a divindade ancestral que além de ter permitido o acesso e o conhecimento sobre os poderes do vibranium, utilizado inclusive para curar ferimentos mortais, também indicou a necessidade do cultivo da erva do coração, cujo preparo e administração por meio ritual permite o acesso a verdades existentes no mundo ancestral.

Do ponto de vista religioso, na perspectiva das religiões tradicionais, a erva do coração da Pantera Negra relativiza o poder do sacerdote e das sacerdotisas como responsáveis pela manutenção de uma tradição e coloca no sujeito do culto a responsabilidade de acessar, pelo coração, as verdades do mundo ancestral. Não há em Wakanda um sacerdote ou uma sacerdotisa responsável por um oráculo que determine o caminho a seguir. Esse tipo de determinação, por um lado, pertence ao campo da pesquisa científica e tecnológica e, por outro lado, ao conselho de anciãos, lideranças políticas e militares. O acesso ao mundo ancestral através de rituais tradicionais se faz necessário toda vez que um novo rei se torna responsável pela condução dos destinos do povo. Neste momento, entra em cena o trabalho de sacerdotes e sacerdotisas, como responsáveis em preparar e proporcionar a experiência.

O filme mostra que o ritual realizado com erva do coração, embora permita o acesso a verdades que estão guardadas no mundo ancestral, não tem poder de mudar escolhas e condutas dos sujeitos. Aliás, o acatamento e a vivência do ritual dependem do efetivo compromisso em preservar uma tradição em seu significado mais amplo, como lócus de autoconhecimento e cura de traumas e paranoias.  O acesso ao sagrado ancestral se dá pelo uso ritual da erva do coração. Isto não é uma metáfora cinematográfica, mas uma verdade religiosa que deveria fazer sentido para todas as pessoas que racionalizam a experiência religiosa individual, sobretudo para desqualificar e rejeitar a experiência do outro.  Essa perspectiva se inscreve no bojo da filosofia de Blaise Pascal(1623-1662) para quem  “É o coração que sente Deus, e não a razão.”

O filme apresenta experiências rituais de dois reis que assumem o trono de Wakanda. O primeiro conhece bem e valoriza o sentido do ritual, o segundo rei se submete ao ritual; porém, por não aceitar aquilo que acessa como verdade, manda destruir a sua base de realização. A tentativa de destruir o ritual e a plantação da erva do coração é protagonizada por um descendente direto da família real de Wakanda, um príncipe abandonado pelo tio que matou o próprio irmão. Trata-se Erik Killmonger, personagem vivida pelo ator Michael Bakari Jordan, que consegue chegar ao reino de Wakanda, após estudar muito e fazer parte do grupo de elite da espionagem norte-americana. Seu instinto de vingança por ter sido abandonado pela família e seu conhecimento das relações de opressão capitalista e dominação colonial fizeram dele não apenas um estrategista de guerra de destruição, mas também alguém obstinado por um projeto de poder que além de não transigir com saberes tradicionais, pretende assumir a mesma lógica do opressor.  Ao acessar a verdade de sua história através do ritual, Killmonger retorna indignado, porque descobre que o pai também sofre a experiência do abandono,  não se encontra em um lugar de honra no mundo dos ancestrais. Afinal ele traiu seu povo repassando o segredo e os poderes do metal precioso. Após ser informado que a tradição estabelece a obrigatoriedade de passagem por aquele ritual aos sucessores do trono de Wakanda, ele ordena a destruição da plantação da erva do coração.

Como o antagonista ao projeto político e humanitário de Wakanda, Killmonger nos apresenta como um corpo pode ser apropriado e totalmente desumanizado pelo racismo e pela violência do Estado. É o personagem que coloca o dilema da representação identitária negra atrelada ao desconhecimento absoluto da história ancestral. Que reflete o vazio que o povo negro carrega por tudo o que o ocidente tomou e todo o desenvolvimento social tecnológico que nunca lhe foi creditado

Para concluir, é importante ressaltar o tipo de tratamento dado pelo sistema escravista, a opressão colonial e capitalista aos saberes tradicionais dos africanos, como expressão de atraso cultural e político e de entrave ao desenvolvimento científico e econômico. Embora Killmonger releve em seu posicionamento uma crítica política ao colonialismo e também a dominação capitalista, a sua formação reflete as cisões produzidas pelo positivismo científico, que é o sustentáculo da razão instrumental.  Essa razão, além de ter contribuído para o desaparecimento de vários sistemas de crença e de saberes no solo africano, continua reverberando no campo educacional, impedindo a afirmação de referências positivas de identidades africanas. Diante disso, ativistas negros(as) têm muito a comemorar tanto do ponto de vista político-científico quanto do ponto de vista religioso: a ficção mostra um ancestral africano divinizado (kposu = Pantera homem) que legou ao seu povo força, coragem e sabedoria para erguer um reino com valores diferentes da ordem capitalista mundial. Wakanda enche os olhos e emociona, porque é a afirmação da unidade africana que não ficou restrita apenas à esfera da representação cultural! Wakanda forever!  


[1] Black Panter – 2018, 2h15,   Diretor: Ryan Coolger, Marvel Studios.

[2] Doutor em Educação pela UFMG, professor Associado da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e Babalorixá no Ilê Axé Ogunfunmilayo em Contagem-MG  Agradecimentos especiais para Elisa Belém e Iris Pacheco pelas contribuições dadas a este texto.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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