O que pode uma língua

A triste verdade é que a língua portuguesa esmagou os idiomas indígenas do Brasil e está fazendo o mesmo em Angola

Por José Eduardo Agualusa, do O Globo 

Há dois anos acompanhei um pequeno grupo de pastores nômades do sul de Angola, que se deslocou ao Rio de Janeiro para participar na quinta edição do Festival Back2Black. Os angolanos, da nação herero, encontraram-se no Brasil com uma artista plástica sul-africana, Esther Mahlangu, uma velhinha tímida, que se veste de panos garridos e se enfeita com pulseiras e colares de miçangas. Esther pinta segundo a tradição do seu povo, os ndebele, famosos pelos padrões geométricos com que ornamentam as casas, roupas, adereços, e tudo o que lhes passa pelas mãos.

Hereros e ndebeles podem parecer próximos para um brasileiro comum, na medida em que partilham certas tradições culturais e a mesma paixão por miçangas. Na realidade, estão quase tão distantes, geográfica e culturalmente, quanto, por exemplo, um ianomâmi de um maia. Esther veio ao Rio na companhia de um neto, que lhe serve de tradutor, do ndebele para a língua inglesa. Os hereros, uma senhora muito bonita e dois sobas (autoridades tradicionais), faziam-se acompanhar de um outro tradutor, também angolano, fluente em português, mas incapaz de se comunicar em inglês. Em determinada altura, contudo, encontrei o tradutor angolano conversando com o neto de Esther. Aproximei-me, para saber de que língua se serviam. Descobri, espantado, que estavam falando em africâner, o idioma dos bôeres. O africâner começou a ser criado na Cidade do Cabo a partir do século XVII, tendo por base o holandês, ao qual os escravos muçulmanos trazidos da Indonésia juntaram vocábulos do malaio. Nos séculos seguintes o africâner foi agregando muitas palavras provenientes de idiomas africanos. Nos anos 40 do século passado os bôeres criaram o apartheid e o africâner transformou-se na língua oficial do regime.

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Fiquei a saber que o tradutor dos hereros aprendeu a falar africâner na Namíbia, país que faz fronteira com Angola, e que já foi colônia da África do Sul. Acho bonita esta história: um antigo instrumento de opressão e domínio funcionando agora como língua franca, capaz de unir povos diversos, incluindo os povos oprimidos de outrora.

Em visita ao Recife, há poucos dias, para participar na I Feira Nordestina do Livro (Fenelivro), numa mesa sujeita ao tema “Língua Portuguesa: Ponte ou Barreira”, voltei a recordar o episódio acima, isto porque a língua portuguesa, como o africâner, também se confrontou, e ainda confronta, com este desafio de se transformar de instrumento de sujeição em instrumento de aproximação — em ponte.

No Brasil, o português conviveu durante séculos com as línguas indígenas, em particular com o nheengatu, ou língua geral, que os colonizadores portugueses eram forçados a aprender se quisessem prosperar na sociedade colonial. Em 1758, o Marquês de Pombal proibiu o uso do nheengatu, que pouco a pouco foi perdendo falantes, embora continuasse a ser mais utilizado do que o português em algumas regiões, como no Amazonas e no Pará, quase até ao final do século XIX. O quimbundo, língua da região de Luanda, conseguiu resistir até às primeiras décadas do século XX, a par com o português. No século XIX chegou mesmo a imprimir-se um jornal em quimbundo. Hoje seria impensável publicar um jornal em quimbundo em Angola. Não teria leitores.

A triste verdade é que a língua portuguesa esmagou os idiomas indígenas do Brasil e está fazendo o mesmo em Angola. Mais triste ainda, esse processo de aniquilamento acentuou-se após as respectivas independências, conduzido pelas próprias elites políticas de ambos os países.

Muita gente acreditou que com o fim do apartheid o africâner entraria em declínio. Isso não aconteceu, muito pelo contrário. Após ser defenestrado do poder, o africâner volta a cumprir a vocação de ponte, que é a vocação de qualquer língua, ao mesmo tempo que se reafricaniza. Hoje já não é apenas a língua dos bôeres e dos mestiços. Há cada vez mais negros urbanizados (sem etnia) que têm nele a sua língua materna. Isto vem acontecendo de forma natural, sem violência, e sem prejuízo dos restantes idiomas africanos do país. A África do Sul é, aliás, um excelente exemplo de como construir um Estado multilíngue. Um exemplo que poderia servir a Angola e ao Brasil. Sim, ao Brasil também. Ainda não está tudo perdido. Em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, o nheengatu, o tukanu e o baniwa possuem o estatuto de língua oficial, ao lado do português. Em Tacuru, Mato Grosso do Sul, o guarani é também língua oficial. Estes, porém, são ainda exemplos isolados. Ao resgatar as línguas indígenas estamos também a resgatar a nossa. O que espero da língua portuguesa , afinal, é que possa servir de instrumento de pacificação e de aproximação —não de extermínio.

 

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