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O sonho de união de Patrice Lumumba

Se estivesse vivo, o líder da independência da República Democrática do Congo completaria 89 anos em 2 de julho

O sonho de uma nação unida e do pan-africanismo foi interrompido de forma abrupta. Em 1960, uma guerra ideológica e de demonstração de poder dividia o mundo entre capitalistas e socialistas. No meio, dezenas de nações da África. Uma das vítimas do conflito, o recém-eleito primeiro-ministro da República Democrática do Congo (RDC), Patrice Émery Lumumba. Se ainda estivesse vivo, o congolês completaria 89 anos no dia 2 de julho.

Lumumba foi um dos principais líderes do movimento de libertação do então Congo Belga, nos anos 50. Alguns o classificam como o pai da independência nacional. Sua ascensão a chefe do governo da RDC não foi fácil.

De funcionário público a ativista político

Patrice Lumumba nasceu na cidade de Onalua em 1925, época em que a RDC era colônia da Bélgica. Filho de uma família católica e com quatro irmãos, ele frequentou uma escola de missionários católicos e, posteriormente, uma escola de protestante mantida por suecos. Na época, o sistema educacional na colônia era precário e visava à formação de operários em vez de mão de obra mais qualificada.

Excelente aluno e autodidata, Lumumba leu muito durante a juventude. Seu esforço rendeu-lhe um cargo administrativo no escritório de uma sociedade mineradora em 1945. Mais tarde, trabalhou como empregado dos Correios em Kishasa (então Léopoldville) e em Kisangani (antiga Stanleyville). Nessa época, chegou a trabalhar como jornalista, publicando reportagens e poemas em alguns jornais.

Em 1954, ele recebeu da administração belga a carta de ‘registrado’ – documento que quase equivalia a uma cidadania belga aos congoleses. A aproximação com a política deu-se em 1955, quando ele ingressou no Partido Liberal da Bélgica. No mesmo ano, Lumumba foi preso sob acusação de fraudar o sistema dos Correios. A sentença, de dois anos de detenção, foi convertida a pena de 12 meses. Depois de liberto, ele ajudou a fundar o Movimento Nacional Congolês (MNC).

Ouça a música Lumumba, na voz da sul-africana Miriam Makeba

O MNC pregava os ideais do pan-africanismo, da união entre as diferentes etnias que compõem a RDC e de libertação da colônia. O revolucionário voltou a ser preso em 1959, dessa vez acusado de incitação anticolonial.

Durante a conferência de Bruxelas em 1960, onde se debateu o futuro da RDC, as delegações presentes exigiram a libertação de Lumumba e sua participação nas discussões. Um sinal do que aconteceria depois. Após o encontro, em 30 de junho daquele ano, a República Democrática do Congo tornou-se independente.

Democraticamente eleito

Aos 34 anos, Patrice Lumumba venceu as eleições nacionais e tornou-se o primeiro premier da RDC e Joseph Kasa-Vubu o presidente da nação. Poucos dias após a conquista da independência, Lumumba enfrentou diversas rebeliões dentro do país e uma declaração de independência da então província de Katanga, apoiada por empresas de exploração de minas e pelo governo belga.

Os ideais de esquerda o fizeram aproximar-se da então União Soviética, que auxiliou o governo da RDC com armamentos, remédios, alimentos e planos para tentar retomar a província rebelde. Apesar do discurso de neutralidade, essa aproximação com os socialistas foi vista como uma ameaça pelas potências ocidentais, entre elas os Estados Unidos, Reino Unido e a Bélgica. “Nós não somos comunistas, católicos ou socialistas. Nós somos nacionalistas africanos”, defendeu Lumumba.

Trailer do filme ‘Lumumba’

Golpe de Estado

Três meses após assumir o poder, Lumumba teve seu governo dissolvido pelo presidente Kasa-Vubu, considerado mais moderado. A resposta do primeiro-ministro foi contestar a legalidade das ações presidenciais e, em retaliação, depôs o presidente e conquistou o voto de confiança do senado congolês.

A divisão dos dois grupos políticos reivindicando o poder abriu caminho para que o coronel Joseph Mobutu instaurasse um golpe de Estado, em setembro, incapacitando tanto o presidente e o primeiro-ministro. Lumumba foi colocado em prisão domiciliar e tropas das Nações Unidas (ONU) posicionaram-se em volta da casa para protegê-lo.

Lumumba foi capturado quando fugia da residência em direção a Stanleyville em dezembro de 1960. Apesar dos apelos para que as tropas locais da ONU salvassem-no e do pedido da União Soviética para que o premier fosse liberado, nenhuma medida foi adotada pelas forças de paz.

Um capítulo trágico

Em 17 de janeiro de 1961, Lumumba foi transferido à força para a cidade de Lubumbashi, em Katanga. As circunstâncias de sua morte são uma incógnita. De acordo com historiadores, o primeiro-ministro foi torturado e levado para uma área isolada onde enfrentou, ao lado de dois ex-ministros do governo, um pelotão de fuzilamento comandado pelo presidente da província rebelde, Moïse Tshombe, e por oficiais belgas.

A morte de Lumumba foi anunciada em uma rádio de Katanga depois de três semanas. De acordo com a versão oficial da época, o revolucionário teria fugido e fora assassinado por aldeões enfurecidos. O mistério em torno da sua morte envolve ainda atos cruéis e violentos. Tudo para evitar que ele tivesse um túmulo e fosse cultuado como um mártir da liberdade.

O sonho de união de Patrice Lumumba
O sonho de união de Patrice Lumumba

Em 2000, a Bélgica criou uma comissão parlamentar após a publicação do livro “O assassinato de Lumumba”, do sociólogo Ludo De Witte. Esse foi um dos diversos livros que abordaram a história da RDC durante os primeiros meses de independência. Em um relatório de dois volumes com mais de mil páginas, a comissão indicava que o governo belga teve “uma parcela de culpa e responsabilidade moral” nos eventos que desencadearam a morte do líder congolês. O governo belga pediu desculpas para a família de Lumumba e para o povo da RDC.

Documentos secretos da CIA, tornados públicos em 2007, revelam que a agência de inteligência americana também tinha planos para assassinar Lumumba sem a utilização de força física. Um dos planos era o envenenamento por meio de creme dental. Depois de 53 anos do assassinato, o governo norte-americano reconheceu que os Estados Unidos envolveram-se tanto na destituição como na morte do líder congolês.

O legado de Lumumba

Ainda em 1966, o general Mobutu consagrou Patrice Lumumba, junto com outros personagens da independência do RDC, herói nacional. Patrice era casado e tinha cinco filhos, mas não viveu para conhecer o último herdeiro, que nascera seis meses após o assassinato do pai. Antes de morrer, o líder conseguiu mandar sua família para o exílio no Egito.

Em 1992, o filho mais velho, François Lumumba, tornou-se líder do Movimento Nacional Congolense Lumumba (MNC-L) e opositor do general Mobutu. Em 2006, nas primeiras eleições multipartidárias após o regime ditatorial e de um período de transição, Lumumba foi relembrado pelos políticos congolenses. Diversos partidos políticos indicavam que eram motivados pelos ideais pregados pelo ícone da independência da RDC. Lumumba serviu também de inspiração para os candidatos das eleições, que tiveram o filho mais novo, Guy-Patrice, como um dos concorrentes independentes à presidência do país. Guy obteve menos de 10% dos votos.

Fonte: Brazil África

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