O vestido de uma professora. A avalanche de críticas. E o sexismo nas redes sociais

Uma professora de Atlanta, na Georgia, recebeu críticas online por usar roupas “sexy demais” no seu trabalho o que, mais uma vez, demostra a forma como os corpos de mulheres negras são constantemente controlados por razões ridículas.

Por  Zeba Blay, do  Huffington Post

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Uma cópia da foto original publicada na conta do Instagram de Brown, já deletada de sua conta.

Uma foto da professora da quarta série Patrice Brown viralizou no Twitter e no Instagram em setembro, acompanhado da hashtag #TeacherBae.

Na foto acima, Brown está usando um vestido longo ajustado ao corpo. No início as reações foram articuladas exclusivamente em como Brown era atraente na foto, mas uma outra reação surgiu rapidamente, com algumas pessoas do Twitter sugerindo que a professora estava vestida inapropriadamente para a sala de aula.

Um usuário cujo nome é @breeNaughtyy disse: “Essa professora fica bem assim, mas esse traje é inapropriado para ensinar crianças da 4ª série. Os garotinhos são pervertidos desde a 2ª série”.

O debate sobre se o vestido de Brown era apropriado ou não é lamentável, no mínimo, e sexista no pior dos casos. É uma coisa reconhecer que Brown tenha beleza e inteligência, mas o controle e excesso de ênfase em como ela se veste ao invés do que ela faz fala muito sobre nós.

As reações negativas são um exemplo perfeito de como as mulheres negras raramente têm controle sobre seus corpos serem desnecessariamente sexualizada demais em praticamente qualquer contexto.

Outro usuário do Twitter apontou que é assim que o vestido de Brown fica em ASOS:

As pessoas adoram reclamar RT @HOT97: Esse é o mesmo vestido! Você ainda vê algum problema com sua roupa? #TeacherBae

Não há nada inerentemente pouco profissional em seu vestido, ele se ajusta bem acima dos joelhos e cobre o peito completamente. Sendo assim, no final das contas, o que consideramos algo realmente pouco profissional não é o vestido, mas as curvas de Brown, o seu próprio corpo.

Por que Brown deveria ser criticada e envergonhada por algo que ela não tem nenhum controle?

Ainda bem que muitos usuários do Twitter começaram a defendê-la da crítica:

Engraçado como ninguém postou essa foto da #teacherbae. Essa que importa. Vocês estão focando apenas no negativo.

Se uma mulher negra tem um corpo com curvas ela é julgada e sexualizada imediatamente por algo que ela não tem nenhum controle #teacherbae

O pessoal foca no seu corpo e não no TIPO de professora que ela é? Se ela é uma boa professora que ajuda nossas crianças porque estão massacrando ela?#teacherbae

Aposto que vocês não teriam nada a dizer se ela fosse assim #teacherbae

Embora seja bem legal ver todo o apoio enviado, a reação inicial vivida por Brown teve ramificações no mundo real.

Um comunicado enviado pelo sistema da Escola Pública de Atlanta ao canal Fox 5 na terça dizia: “[Brown] recebeu orientação sobre o Código de Vestimenta dos Empregados do APS, o uso das redes sociais e o Código de Ética de Georgia para os educadores e ela tem cooperado bem em relação a sua presença nas redes sociais.”

Na quarta, parecia que Brown tinha deletado todas as fotos dela na sala de aula da sua conta no Instagram.

Será que realmente precisava ter acontecido isso? O profissionalismo da #MrStealYourGrandma e Jamel Fenner, um homem de Nova York que foi confundido como professor e que recentemente viralizou por ser bonitão e usar uma camiseta apertada e jeans na sala de aula (seu nome é “imwhygirlscheat” no Instagram) não foi tão criticado quanto Brown.

O corpo de Brown não é fora do normal. Embora não todas as mulheres negras tenha sua forma, muitas mulheres negras têm esse tipo de curvas que faz com que seja difícil vestir qualquer coisa sem que as pessoas assumam equivocadamente que você está tentando ser provocativa ou chamando a atenção.

Não é culpa sua. Se qualquer pessoa deve ser criticada, deveria ser aquela que não consegue olhar para as mulheres negras e verem quem são além de seus corpos.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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