Oito alunos foram expulsos, nesta sexta-feira (4), de um colégio de Valinhos (SP) após um estudante negro de 15 anos denunciar mensagens racistas, machistas, gordofóbicas e xenofóbicas em um grupo de WhatsApp. Em nota, o Colégio Visconde de Porto Seguro informou que desligou os jovens após uma apuração interna do caso.
O grupo de WhatsApp reuniu mensagens com referências a ditadores, como o nazista Adolf Hitler e o fascista italiano Benito Mussolini. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil. Relembre aqui.
Nesta quinta-feira (3), a Federação Israelita do Estado de São Paulo divulgou uma nota para cobrar do colégio “atitude enérgica” contra a situação.
De acordo com o Colégio Visconde de Porto Seguro, foi feita uma apuração das manifestações de alunos nas redes sociais. “Reiteramos nossa consternação e indignação com o conteúdo de caráter racista, antissemita e misógino de algumas dessas mensagens”, comunicou a unidade.
“Reforçamos nosso repúdio veemente a toda e qualquer forma de discriminação e preconceito, os quais afetam diretamente nossos valores fundamentais. Nesse sentido, o Colégio aplicou aos alunos envolvidos as sanções disciplinares cabíveis nos termos do Regimento Escolar, inclusive a penalidade máxima prevista, que implica seu desligamento imediato desta instituição”, comunicou o colégio.
O Porto Seguro informou, ainda, que reforçará as práticas antirracistas, de conscientização e respeito à diversidade, em todos os campi “para procurar evitar a reincidência de uma situação gravíssima e inadmissível como essa”. Leia a nota completa ao fim da reportagem.

Agora, os pais dos jovens expulsos devem procurar outros colégios para os alunos se matricularem.
O advogado dos adolescentes desligados afirmou que a decisão da instituição foi precipitada e que não “houve o direcionamento de ofensa racial a qualquer aluno da escola”. Veja a posição mais abaixo.

Investigação da Polícia Civil
O caso é investigado pela Polícia Civil. Diretor do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 2 (Deinter-2), José Henrique Ventura afirmou que os responsáveis estão sendo identificados e que pelo menos um crime foi cometido, mas outros podem ser verificados durante a investigação.
“Pode ser até apologia a alguma outra coisa, mas a injúria racial está caracterizada. Esse expediente será encaminhado provavelmente ainda hoje [terça] para o Juizado da Infância e Juventude. Lá o Ministério Público vai se manifestar”, disse Ventura.
“O juiz da Infância e Juventude vai instruir e aplicar a penalidade que ele achar aplicável ao caso que não seja medida restritiva de liberdade porque são adolescentes”, afirmou o diretor do Deinter-2.
O caso
O grupo de WhatsApp foi criado, segundo a advogada e o filho dela, por estudantes do colégio no domingo (30) e denominado de Fundação Antipetismo. Segundo a mãe do estudante, depois que o jovem foi adicionado e questionou as imagens, foi excluído.
“Quero que esses nordestinos morram de sede”, escreveu um dos membros do grupo. Outra mensagem tinha figurinhas de suásticas, símbolo do nazismo. Outra mensagem dizia: “A Fundação dos Pro Reescravização do Nordeste”.
Após ser excluído, o estudante encontrou mensagens no Instagram de um integrante do mesmo grupo se referindo a Hitler e à morte de judeus. Ele denunciou e foi novamente alvo de ofensas. Relembre na reportagem abaixo.
Protesto do jovem
Na manhã de terça, o estudante fez uma manifestação na escola. Em cima de uma mesa e com megafone na mão, ele disse que ninguém vai aceitar preconceito.
“Pra todos esses alunos que fizeram esses comentários, é expulsão neles. Eles não podem ficar nesta mesma escola”, disse durante o ato acompanhado de amigos.
Em entrevista à EPTV, o jovem afirmou que criou coragem para protestar por não se sentir confortável em estudar no mesmo colégio que pessoas que fazem referência a nazistas.
“A gente não se sente confortável na mesma escola de racistas, de nazistas. A gente fez esse protesto para exigir que isso aconteça mesmo e para não abafar o caso.”
“Para não deixar as pessoas esquecerem. As pessoas têm que lembrar”, completou.

Advogado dos alunos
O advogado dos alunos apontados como supostos autores dos ataques, Ralph Tórtima Stettinger Filho, afirmou que se surpreendeu com a decisão do colégio e descreveu o desligamento como uma “precipitação”.
“Primeiramente, porque os fatos alardeados ocorreram no domingo, imediatamente após o resultado das eleições, portanto fora do contexto escolar. Também, porque jamais houve o direcionamento de ofensa racial a qualquer aluno da escola”, argumentou o advogado.
“O que houve, sim, foi a evidente distorção dos fatos por quem os denunciou. Não tenho dúvida de que a desinformação colaborou para essa equivocada decisão. É algo que facilmente será demonstrado e merece correção. Esses pré-adolescentes sequer tiveram a oportunidade de serem ouvidos, quando então esclareceriam o ocorrido. Vejo que o aspecto comercial preponderou na decisão do Colégio em relação ao humano, contrariando o que se espera de educadores”, completou Tórtima.

Nota completa do colégio
“O Colégio Visconde de Porto Seguro preceitua a todos os seus alunos, há mais de 140 anos, valores éticos e de respeito ao próximo, praticados e reforçados continuamente, da Educação Infantil ao Ensino Médio e Abitur, de forma a fortalecer o reconhecimento e valorização da diversidade.
Prosseguindo com a apuração das manifestações de alunos de nosso Colégio em redes sociais no início desta semana, reiteramos nossa consternação e indignação com o conteúdo de caráter racista, antissemita e misógino de algumas dessas mensagens.
Reforçamos nosso repúdio veemente a toda e qualquer forma de discriminação e preconceito, os quais afetam diretamente nossos valores fundamentais. Nesse sentido, o Colégio aplicou aos alunos envolvidos as sanções disciplinares cabíveis nos termos do Regimento Escolar, inclusive a penalidade máxima prevista, que implica seu desligamento imediato desta instituição.
Considerando o atual contexto de intolerância e violência verificado em nossa sociedade, o qual se reflete nas famílias e grupos de amigos, em vista dos fatos recentes, o Colégio reforçará suas práticas antirracistas, de conscientização e respeito à diversidade, em todos os câmpus, abordando o assunto de forma ainda mais contundente em suas pautas cotidianas, com iniciativas envolvendo a comunidade escolar, inclusive com apoio de consultoria especializada, para procurar evitar a reincidência de uma situação gravíssima e inadmissível como essa.
Reiteramos nossa solidariedade e apreço a todos que foram ofendidos e continuaremos prestando o devido acolhimento aos alunos e famílias.
Seguiremos cumprindo a nossa missão de promover a educação e a cidadania, auxiliando nossos alunos no desenvolvimento da empatia e respeito ao outro, para a promoção de uma cultura de paz e tolerância mútua.
Contamos com o apoio muito próximo das famílias e dos alunos nessa caminhada, inclusive com o uso consciente das mídias sociais.”