Pela primeira vez, negras são maioria como rainhas de bateria

Das 12 escolas postulantes ao título do Grupo Especial, sete têm negras como soberanas absolutas.

 

Por Rafael Galdo Do O  Globo

Pinah, a Cinderela Negra. Ou Marisa Marcelino de Almeida, a Nega Pelé. Não há dúvidas de que as escolas de samba sempre tiveram ícones que representaram a beleza e a ancestralidade da mulher negra no carnaval. Mas como rainhas de bateria, com toda a majestade do posto, elas foram minoria por muitos anos. Foram. Porque, agora, o jogo virou. Das 12 escolas postulantes ao título do Grupo Especial, sete têm negras como soberanas absolutas. Famosas ou oriundas da comunidade, elas consolidam um processo que vem mudando padrões nos últimos anos, com o sucesso do reinado de Raíssa de Oliveira, na Beija-Flor, ou de Evelyn Bastos, na Mangueira. E se juntam a uma dinastia na qual já figuraram a pioneira Adele Fátima, na Mocidade, Soninha Capeta, na azul e branco de Nilópolis, Tânia Bisteka, na verde e rosa, ou Patrícia Costa, na Viradouro.

Das sete, Raíssa tem o reinado mais duradouro, às vésperas de sua 15ª folia. A jovem de 26 anos, que virou rainha aos 12, acabou se tornando espelho para as duas estreantes do Grupo Especial: Bianca Monteiro, que assumiu em outubro o trono na Portela, e Carol Marins, que ano passado brilhou na Série A, na Paraíso do Tuiuti. Duas meninas que nasceram em berços simples e que alcançaram o estrelato com o mais puro samba no pé.

— Sonhava ser rainha de bateria há 16 anos, quando comecei a desfilar na Portela, como passista. Mas achava que era algo impossível para mim. Cresci vendo artistas à frente da bateria. Era, desde minha infância, um reinado de famosas, por isso achava que não aconteceria. Agora, sou exemplo para todas as meninas passistas que querem ser rainhas — diz Bianca, filha do portelense Paulo Monteiro, que integra a ala da harmonia da escola.

OFERTA DE R$ 300 MIL

A soberana é enfática: não é que as escolas não possam ter rainhas brancas. Mas, para ela, nada mais justo que as escolas de samba, que surgiram nas comunidades negras do início do século passado, terem negros em lugar de destaque.

— Ser rainha e negra significa que não lutamos à toa. Toda dedicação e noites sem dormir valeram a pena. Represento uma nação portelense e uma nação de mulheres negras. Infelizmente, o preconceito ainda é muito grande. Eu consegui ultrapassar essa barreira. Tenho muito o que mostrar à frente da bateria, por mim e por todas que lutaram por esse espaço — diz ela.

O mesmo sentimento tem Carol Marins. A menina, criada no Morro do Tuiuti, onde mora até hoje, viu o pai, Renato Thor, assumir várias funções na escola de samba até se tornar presidente. Antes do carnaval de 2016, então na Série A, ela foi surpreendida pelo anúncio de que seria a nova rainha.

Foi pé-quente. A escola venceu o grupo de acesso e ganhou o direito de desfilar entre as grandes este ano, o que não acontecia desde 2001. Majestade do Grupo Especial, ela continua ajudando no barracão. Mas a posição despertou a cobiça de quem queria os holofotes. Carol conta que ofereceram R$ 300 mil à azul e amarelo para destroná-la. A resposta de seu pai, o presidente da escola?

— Ele disse que minha felicidade não estava à venda. Eu acredito que uma rainha da comunidade dá o sangue pela escola, honra seu pavilhão — diz Carol. — Fico muito feliz porque hoje, nós, mulheres negras, somos maioria.

CONVITE SURPRESA

Uma delas, Camila Silva, da Mocidade Independente, foi surpreendida com a notícia de que seria rainha um mês atrás. A escola — que nos últimos dois anos teve a cantora baiana Claudia Leitte como soberana — teria, este ano, a primeira rainha africana do carnaval carioca, a angolana Carmen Mouro. Por problemas de saúde, no entanto, a ex-dona da coroa teve de desistir da ideia. A paulista Camila, que já tinha ocupado o cargo em 2013, foi a escolhida para substituí-la. Acabou aclamada pela comunidade da Zona Oeste.

Evelyn, Raíssa, Bianca, Carol e Camila vão brilhar ao lado de outras duas beldades negras, acostumadas com os flashes: as atrizes Cris Vianna, na Imperatriz, que se despede este ano do posto, e Juliana Alves, na Unidos da Tijuca. Motivo de elogios de Adele Fátima, que, em 1981, foi a primeira rainha de bateria do carnaval, na Mocidade.

Mulata do Sargentelli na época, ela conta que, ao pedir ao patrono da escola, Castor de Andrade, para sair à frente dos ritmistas, ela não podia supor que viraria um posto concorrido, e as titulares passariam a ser chamadas de rainha ou madrinha de bateria. Mais ou menos na mesma época, Valéria Bastos, mãe de Evelyn, brilharia na Mangueira. Em 1984, a modelo Monique Evans assumiu o posto na Mocidade. Daí em diante, viriam estrelas como Luma de Oliveira, Luiza Brunet, Juliana Paes, Viviane Araújo…

— O posto não é exclusivo de quem é negra. O importante é ter identidade com a escola. Mas o fato de, hoje, a maioria das rainhas serem negras, muitas da comunidade, mostra uma mudança em relação ao que aconteceu, principalmente, a partir dos anos 1990. Rainha não tem nota, não decide o resultado. Mas é muito bonito ver sambistas, que respeitam o carnaval, no posto — comemora Adele.

Lúcia Xavier, da ONG Criola, diz que não é pelo cargo em si, mas vê na virada da proporção entre negras e brancas rainhas uma valorização da mulher negra:

— Muitas vezes, elas eram preteridas. Foram sendo substituídas paulatinamente, como se não tivessem mérito. Não sabemos ainda se a mudança atual é por reconhecimento da ideia de raiz. Mas é uma construção positiva da imagem da mulher negra. Passa uma ideia de integração da escola com a comunidade.

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