quarta-feira, agosto 10, 2022
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Pelo direto a desaguar: uma carta para as meninas-mulheres negras

Queridas irmãs,

Como vocês, aprendi, ainda menina, que a fragilidade não era algo reservado às mulheres negras. Como vocês, entendi que o adjetivo “frágil”, que a sociedade racista e patriarcal atribuiu às mulheres, nunca nos representou.

Sojouner Thuth, nossa ancestral, em seu discurso mais conhecido “E eu não sou mulher?” (1851) questionou:

“[…] Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? […]”[1]

Também nossa mais velha, Sueli Carneiro, em seu artigo “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”, reforçou:

“[…] Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.[…]”[2]

Desse modo, ainda criança, compreendemos que precisamos ser fortes!

Quando digo forte, não é só sobre equilíbrio emocional, mas também, refiro-me à força física. Sim, há no imaginário histórico-social brasileiro que nós, meninas-mulheres negras, possuímos uma estrutura corporal mais rígida, capaz de suportar mais peso, acostumada ao esforço e mais resistente à dor. Assim, esvaziadas de nossa humanidade, nossos corpos, desde muito cedo, foram colocados, sem nenhum constrangimento, no lugar de servidão e, nosso psicológico, estilhaçado.

O colo de minha mãe, foi-me tirado antes dos 45 dias de vida, pois, ela precisava trabalhar, assim como várias outras mães negras brasileiras. Na escola, as dores que sentia em decorrência de falas e ações racistas, foram ignoradas. Foram tratadas como “mimimi”. Em casa, foi-me ensinado que a vida era mais difícil para as mulheres negras e que se eu quisesse chegar a algum lugar, precisaria estar “sempre atenta e forte”. Assim, cresci acreditando que o cansaço, o choro, o desaguar, não era um direito reservado a mim. Não tinha tempo para isso. Precisava estar sempre em luta, “sempre atenta e forte”

Até que um dia, encontrei-me com os versos da querida Ryane Leão e entendi que “desabar” não significava “desistir”:

não confunda desabar com desistir[3]
te vejo distraindo tuas dores
e o que te falta de verdade
é deitar no chão de casa
e sentir e chorar e apertar os olhos

se esvazie de suas agonias
para que novos rios
corram dentro de você.

Desabar significa parar um pouco, permitir que as emoções e sentimentos nos atravessem, cuidar-se, fortalecer-se para poder retornar inteira. Cada palavra poética expressa naquele papel foi um misto de “puxão de orelha” e bálsamo, pois dizem sobre a importância do autocuidado, algo tão negligenciado por nós! Eu, que passei a vida inteira reivindicando nossos direitos, esqueci de lutar por um, que deveria ser considerado primordial: o direito à fragilidade.

O poema de Ryane Leão abriu-me os olhos. Percebi que assumir minhas fragilidades e requerer meu direito ao cuidado não eram sinais de fraqueza, mas sim, subversão, já que o grande projeto dessa sociedade é justamente nos tirar esses direitos. Diante disso, tomemos posse deles!

Compreendi que reconhecer-me frágil era uma estratégia de sobrevivência bem mais eficaz que a de negar-me, pois, permitia-me escoar todas as angústias, traumas e dores guardadas e, assim, poderia contribuir, de fato, com as nossas lutas, pois estaria bem, saudável, fortalecida. E, acreditem, não há algo mais transgressor que uma mulher negra feliz, viva!

Entendi que o desaguar era processo necessário para o equilíbrio emocional de qualquer pessoa e, eu era uma pessoa.

Eu sou uma pessoa. Não sou uma máquina programada para estar sempre forte. Não sou uma guerreira, como insistem em dizer.

E veja bem, não estou aqui para demonizar termos. Não estou dizendo que ser guerreira é algo ruim. O que pretendo com essa carta é chamar a atenção para a romantização de uma realidade, que não reflete uma escolha e sim, a única opção. Não somos guerreiras porque queremos, mas porque as estruturas sociais nos impõem essa condição como o único meio de sobrevivência e existência: o embate.

Diante disso, convido a cada uma a reler o poema de Ryane. Copiem  palavras de Ryane. Absorvam os versos de Ryane. Convido a cada uma a parar de distrair dores, deitar no chão da sala e desarmar, derramar. Convido a cada uma a reivindicar o direito ao colo porque é adoecedor ter que estar sempre alerta e, acreditem, eu sei disso. Convido cada uma, a reivindicar o direito a desaguar pois significa reivindicar o direto a existir.

Poesia também é quilombo, irmãs! Quilombo também é autocuidado, minhas queridas! Cuidemos -nos, então!

Com afeto,

Amanda.

Foto de katemangostar

[1] Disponível em: <https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/>

[2] Disponível em: https://www.geledes.org.br/enegrecer-o-feminismo-situacao-da-mulher-negra-na-america-latina-partir-de-uma-perspectiva-de-genero/

[3] Ryane Leão, em Tudo nela brilha e queima: poemas de luta e amor. São Paulo: Planeta, 2017.

Amanda Crispim Ferreira Valerio é londrinense, graduada em Letras pela UEL, mestre em Estudos Literários pela UFMG e doutora em Letras pela UEL. É fascinada pela literatura, principalmente pelas escrevivências de mulheres negras, linhagem da qual faz parte!
Fonte: Por Amanda Crispim Ferreira Valerio, do Londrinando
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