Pesquisa da UFMT aprova o racismo Institucionalizado

Existe racismo institucional na Universidade Federal de Mato Grosso? Este é o tema da tese da Mestra em Educação Leydiane Vitória Sales. Ao mostrar o racismo institucional e suas facetas, evidencia as características e essências de um projeto de “Estado e Nação”.

Por Gilda Portella, do Mega Pop

Foto: João Almeida

Para ela, “A partir do momento em que há uma arquitetura social, política e social para a eliminação da identidade negra como o projeto de branqueamento com aval do governo brasileiro, é uma das formas de projeto de Estado-Nação. Assim como as diferenças salariais entre negros/as e brancos/as na sociedade brasileira”.

“Os anos que se levaram para que a população negra tivesse acesso ao ensino superior, que tivesse políticas públicas de fomento às ações afirmativas. São exemplos das operacionalidades do racismo institucional como um projeto de Estado e Nação”. (Esse é um termo do autor Marcelo Paixão 2014)

A pesquisa de mestrado de Leydiane Vitória Sales, sinaliza o racismo institucional na UFMT, uma das pesquisas vinculadas ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação – Nepre. Sua dissertação: “Nem a traça vai corroer o estudo: as trajetórias e as identidades de professoras negras e brancas da UFMT no contexto das relações raciais brasileiras”, trouxe vários apontamos e uma deles foi o racismo institucional.

A pesquisa percorreu a trajetória das professoras negras e brancas na UFMT: “Em linhas gerais ficou evidente na fala das professoras negras e brancas; a percepção de uma baixa quantidade de professores e professoras negras na UFMT e para, além disso, as pouquíssimas relações interpessoais das professoras brancas com as professoras negras e também as diferenças raciais no âmbito da universidade ”.

“Isso mostra as facetas do racismo institucional, porque não é apenas a ausência de negros/as nesses espaços, é a forma de tratamento, os olhares, as atitudes discriminatórias para com as pessoas negras, é a negação de um corpo docente majoritariamente branco desconsiderar como importante e pertinente a disciplina de “relações étnico-raciais” na maioria dos cursos de licenciatura e bacharelado, essa é uma das conseqüências do racismo institucional. ”

Para Leydiane Sales: “O governo atual fomenta escancaradamente o racismo institucional no momento que critica as ações afirmativas, desconsidera a cidadania dos quilombolas e reproduz ações e palavras das teorias raciais do século XIX. Inclusive o genocídio da população negra”.

Leydiane Sales conclui: Alguns autores/as como Jurema Werneck (2016), Almeida (2019), Bicudo (1995) e outros, apresentaram as facetas do racismo institucional e a violência do Estado. Então, o racismo institucional ou sistêmico em modos gerais segundo Werneck é um “mecanismo estrutural que garante a exclusão seletiva dos grupos racialmente subordinados…”. Assim, há um fomento nas desigualdades raciais brasileiras. O que podemos entender é que há uma hierarquia racial imposta e estruturada num projeto de Estado e Nação, seja ela em instituições privadas ou públicas.

Então, podemos observar que a operacionalidade do racismo institucional também está embutida nos livros didático, na negação e na invisibilidade de autores e autoras negras, cientistas, professores e professoras universitárias, advogados e médicos. Quando discuto com meus alunos/as sobre racismo, sempre pergunto: por quantos médicos negros/as você já foi atendido/a? Por quantos médicos brancos/as você foi atendido/a? Para mostrar a funcionalidade do racismo institucional”

No site da UFMT, na Pós-Graduação em Educação (PPGE) ao digitar quilombo(s), e selecionar o item títulos, o resultado são 23 títulos entre teses e dissertações de 2013 a 2019. São 527 trabalhos catalogados isso representa 4,36% dos títulos que tratam do tema Quilombo. Ao digitar negros, o sistema registra 07 títulos, entre 2013 e 2019 para dissertações e teses. Isso representa 1,32% do que é catalogado abordando a temática negra.

Ao digitar raciais, o sistema seleciona 06 títulos, também para 2013 á 2019 entre dissertações e teses. Em 527 teses e dissertações; os únicos seis trabalhos representam, exatamente 1,13% do que esta registrado no tema. Ao digitar racismo, na alternativa Titulo, o resultado é apenas 02 Títulos, entre 2013 a 2019, para as dissertações e teses. O que representa 0,37% do que é registrado.

O Programa de Pós em Educação contém cinco linhas de pesquisas: Culturas Escolares e Linguagens; Educação em Ciências e Educação Matemática; Organização Escolar, Formação e Práticas Pedagógicas; Cultura, Memória e Teorias em Educação; Movimentos Sociais, Política e Educação Popular. Nos 17 grupos de pesquisas catalogados, somente um trabalha com questões étnico-raciais, o Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Relações Raciais e Educação – Nepre. Neste cenário os dados são alarmantes, gritantes, pois ali é gerado 4,36% de produção de conhecimento com o titulo quilombo(s); ou 1,32% com o titulo Negro; 1,13% com a temática raciais e apenas 0,37% com o assunto racismo.

A academia reflete o que a sociedade pensa, ou considera digno de ser catalogado como temática cientifica para investigação do conhecimento.

Quando não se vê e ou se cala, desvaloriza a temática; quando se ignora, o conhecimento se congela; sem produção de ciências com pesquisas étnico raciais, os novos profissionais desconhecerão as informações para abordar essa temática; minando políticas publicas, pela desinformação, num ciclo de silenciamento, e invisibilização em larga escala criando um vazio no campo do conhecimento humano.

Observa-se a quase inexistência de trabalhos da UFMT, abordando questões raciais. Haveria aí um racismo institucionalizado, estruturante e estruturado? Uma grande engrenagem girando para manter a ignorância? O silenciamento?. Mas não seria a Universidade, a geradora do conhecimento?

Chegou o tempo de produzir ciências afro-centradas em temáticas afro-brasileiras. Uma ciência afrocêntrica, que produza nova perspectiva afro-brasileira, para os negros, com os negros e pelos negros; com maior visibilidade esse conhecimento fará circular, nova linguagem: coloquial e usual, factível, acessível em cumprimento à finalidade última de uma escola. Difundir o saber.

No site da UFMT, ao selecionar Resumo, com a palavra RACISMO, fica evidente uma diferença de 0,37% para 2,65%. Existem 14 trabalhos catalogados entre dissertações e teses com a palavra Racismo. E com a palavra Raciais são 22 trabalhos; isso muda de 1,13% pra 4,17%.

Há 16 trabalhos registrados usando a palavra Negro(s) no subitem resumo; isso dá um percentual de 3,03%; há uma mudança de 1,32% para 3,03%. O mesmo ocorre com a palavra Quilombo(s), com um pequeno acréscimo de 3,76% para 6,26%, quando escolhe o item resumo; ocorreu um aumento nos índices, mas minguada a produção cientifica com a temática étnico racial.

A pequena a produção cientifica, mantém o estruturante racismo funcionando e sua institucionalização operante; a força opressora das instituições garante o silencio e a ausência da temática afro fora do hall e do status de ciências. Como seriam esses dados nas áreas das exatas, das ciências medicas e nos demais departamentos?

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