sábado, agosto 13, 2022
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Pobreza tem cor no Brasil, por Sueli Carneiro

Pobreza tem cor no Brasil. E, existem dois Brasis.

Por Sueli Carneiro

Essa é a conclusão que se extrai do estudo “Desenvolvimento humano e desigualdades étnicas no Brasil: um retrato de final de século” apresentado pelo economista Marcelo Paixão, no II Foro Global sobre Desenvolvimento Humano, ocorrido nessa semana no Rio de Janeiro, conforme noticiado com destaque no dia 10 passado pelo Jornal O Globo em matérias de Flávia Oliveira e Mirian Leitão e já comentado anteriormente nessa coluna.

Para Flávia Oliveira, “A desigualdade racial no Brasil é tão intensa que, se o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país levasse em conta apenas os dados da população branca, o país ocuparia a 48ª posição, a mesma da Costa Rica, no ranking de 174 países elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Isso significa que, se brancos e negros tivessem as mesmas condições de vida, o país subiria 26 degraus na lista da ONU – hoje, está em 74º lugar. Em contrapartida, analisando-se apenas informações sobre renda, educação e esperança de vida ao nascer dos negros e mestiços, o IDH nacional despencaria para a 108ª posição, igualando o Brasil à Argélia no relatório anual da ONU.”

A conclusão de Mirian Leitão diante dos dados revelados pelo estudo é que o “… Brasil pode continuar dizendo que aqui não há preconceito racial, mas apenas diferenças sociais. Esta sempre foi a grande desculpa da elite. Mas os números do professor Paixão, os dados da Síntese dos Indicadores Sociais, os estudos recentes do Ipea e do IBGE conspiram contra esta certeza. A velha desculpa não explica por que há tantos negros entre os pobres e tão poucos entre os ricos.”

Nenhuma informação produzida até agora sobre as desigualdades raciais apresentam com tanta contundência, o grau de apartação social existente no Brasil que chega a configurar a existência de dois países como coloca Mirian Leitão em seu artigo.

A crescente compreensão sobre a identidade entre raça e pobreza no Brasil e na América Latina vem sendo objeto de atenção das agências internacionais de cooperação. Em junho desse ano, o Banco Mundial (BIRD), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Diálogo Inter-Americano organizaram em Washington a mesa redonda “Raça e Pobreza”, uma consulta internacional sobre a situação dos afro-latino americanos.

Esse encontro contou com a participação dos representantes da redes de organizações negras da América Latina e América Central que, pela primeira vez, puderam coletivamente discutir com essas agências multilaterais, a situação dos povos negros da Região e a necessidade do desenvolvimento de políticas de desenvolvimento específicas para esses segmentos dos países latino-americanos que possam lhes propiciar alavancar processos de desenvolvimento comunitário e uma maior inclusão social.

Fizeram-se presentes nesse encontro, Brasil, Colômbia, Honduras, Nicarágua, Peru, Uruguai, Venezuela. Tendo por eixo fundamental: a raça e a pobreza na América Latina, esse seminário produziu uma ampla reflexão sobre os impactos da globalização e das políticas de ajuste econômico sobre as populações negras da Região e sobre as experiências exemplares para a reversão desse quadro que vem sendo desenvolvidas pelas organizações negras latino-americanas no sentido de minimizar esse impacto.

Em setembro desse ano, o Escritório Nacional Zumbi dos Palmares e a Comunidade Baha’i do Brasil, promoveram o seminário “Mecanismos de Promoção de Igualdade. Um desafio para o desenvolvimento do Brasil”, cujos resultados podem ser sintetizados pela afirmação do Dr. Roberto Martins, presidente do IPEA, para quem, os dados sobre a população negra no Brasil, não permitem chegar a outra conclusão senão a da necessidade de toma-la como agentes prioritários de políticas públicas visando o desenvolvimento e a inclusão social mais eqüitativos no país.

Na próxima semana acontecerá em Brasília, o Fórum sobre Desenvolvimento promovido pelo Banco Mundial, para discutir o combate á miséria e a inclusão social. Curiosamente, em nenhuma das mesas previstas 18 de está em discussão a situação específica de vulnerabilidade em que se encontram os afro-brasileiros, a despeito da constatação perversa do estudo de Marcelo Paixão.

Considerando-se os antecedentes da consulta de Washington, e a dramaticidade do estudo de Marcelo Paixão, esperava-se que o Forum de Desenvolvimento que se inicia na próxima segunda feira significasse um passo adiante no reconhecimento da gravidade do problema racial e uma oportunidade para o Banco Mundial recolher mais subsídios para estabelecer uma diretriz política clara com metas de curto, médio e longo prazo para o equacionamento das desigualdades raciais geradas pelo racismo e discriminação racial. Uma estratégia global que levasse em conta, as dimensões políticas, econômicas e culturais do problema com vistas a alterar efetivamente as condições de vida das populações afro brasileiros e integrá-los ao processo de desenvolvimento já que, como não é mais possível negar, raça e pobreza são sinônimos no Brasil.

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