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Poderá Obama convencer o mundo?

Durante a campanha presidencial dos EUA, Barack Obama falou com eloquência sobre a democracia no país e no exterior e, antes de assumir o cargo, afirmou que a promoção da democracia “deve ser parte central de nossa política externa”.

Por James Traub, da Folha de S. Paulo 

Obama é realista ao tratar com governos menos democráticos, mas ainda tenta instigar as esperanças e aspirações dos cidadãos. Em março, uma mensagem em vídeo para os iranianos foi vista em Manama, Bahrein ( Foto: Shawn Baldwin para o New York Times)

Mas ele evitou o tipo de retórica missionária que George W. Bush muitas vezes empregou em sua própria campanha para disseminar a democracia.

Sobre essa questão -e outras-, Obama se recusou a escolher um lado exclusivo, isto ou aquilo. Como presidente, misturou a linguagem dos realistas, que geralmente abordam o comportamento dos regimes, com a dos idealistas, que, pelo menos desde a época de Woodrow Wilson (1913-21), buscaram falar diretamente às aspirações dos cidadãos comuns.

Obama tentou reatar laços partidos abrindo novas linhas de comunicação com Cuba e Irã, não confrontando diretamente as questões de direitos humanos na China, mantendo-se respeitoso em relação à Rússia apesar de algumas provocações.

Na quinta-feira, ele fez no Cairo um discurso recheado de citações ao Corão diante da população egípcia, que, assim como os cidadãos de quase todos os países árabes, vive em um estado autoritário e se inquieta conforme o ditador Hosni Mubarak apaga as tênues esperanças de mudanças.

Antes Obama já entusiasmara ouvintes no exterior com a linguagem da esperança. Em um discurso em Praga, em abril, ele invocou a Primavera de Praga de 1968, quando “a simples e consciente busca de liberdade e de oportunidades envergonhou os que contavam com o poder dos tanques e das armas para reprimir a vontade de um povo”.

Essa dualidade tem muito a ver com a realidade geopolítica, assim como com o próprio temperamento de Obama. Em um discurso recente, o erudito ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, David Miliband, observou que, diante das “ameaças de mudança climática, terrorismo, pandemia e crise financeira”, a segurança global só pode ser garantida pela “mais ampla coalizão possível de estados e movimentos políticos”, incluindo os não democráticos. Ao mesmo tempo, ele acrescentou, “precisamos do consentimento dos cidadãos”. Ambos os objetivos eram realistas, no sentido de que promovem os interesses nacionais comuns. Mas estavam inevitavelmente em tensão um com o outro, reconheceu Miliband.

Essa tensão é muito mais aguda para Obama do que poderia ser para outro estadista. Os EUA tiveram um papel central na criação e na condução dos organismos globais, desde a Liga das Nações às instituições de Bretton Woods, que definiram a política monetária internacional durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas Bush preferiu as “coalizões dos dispostos” casuais às instituições existentes e, de todo modo, não concordou com muitos aliados sobre a substância das ameaças. O regime de não proliferação nuclear está portanto em frangalhos; a política sobre mudança climática é uma confusão.

Obama, que acredita que as instituições globais reforçam e não restringem o poder dos EUA, tem pela frente um vasto e urgente trabalho de reconstrução. E, como observou Miliband, ele não pode limitar esse esforço aos aliados democráticos. Sem a China, não há solução para a mudança climática; sem a Rússia, a não proliferação é uma questão morta.

Talvez seja o imperativo de construir uma ordem global para o século 21 que explique o molde notadamente realista da condução das relações exteriores pelo governo Obama. Tanto o presidente como seus principais assessores têm evitado falar em democracia. Na China, em março, a chanceler Hillary Clinton disse que a preocupação dos EUA sobre os direitos humanos “não pode interferir” com o avanço sobre economia global, mudança climática e outros temas.

Há algumas semanas, Obama tentou colher os frutos da realpolitik reunindo uma frente de Estados, incluindo China e Rússia, contra o teste nuclear da Coreia do Norte.

O Egito ocupa lugar importante na estratégia de Obama, que visa estabelecer as bases para a paz no Oriente Médio apoiando países “moderados” enquanto tenta atrair o Irã e a Síria.

O Egito foi o alvo central da Agenda da Liberdade de Bush, sua campanha para disseminar a democracia mundialmente. Mubarak inicialmente reagiu permitindo um grau inédito de liberdade política. Mas, quando um partido islâmico de oposição se saiu bem nas urnas, o aparelho de segurança do Egito atacou. O governo Bush, temendo pressionar demais um aliado chave, reagiu timidamente. E isso talvez tenha marcado o fim da Agenda da Liberdade.

Em seu modo “realista”, Obama acomodou Mubarak eliminando as verbas americanas para organizações da sociedade civil que o Estado se recusa a reconhecer e declarando publicamente que nem verbas militares nem civis serão condicionadas a reformas. Isso provocou o alarme de liberais, acadêmicos especialistas e ativistas da região.

Obama tem um dom para evitar contradições. Mas a busca de consenso tem seus limites. É possível demonstrar um profundo respeito pelo Estado e sua população em uma democracia como a República Tcheca -mas não em um lugar como o Egito, cuja população se sente esmagada pelo Estado. Aí é preciso fazer uma escolha.

O problema é especialmente agudo para Obama, visto em todo o mundo como a encarnação da democracia americana e que compreende o poder dos EUA de inspirar tanto esperança quanto ressentimento. Ele quer ser visto como arquiteto de uma política que dá apoio inquestionável a um ditador em troca de cooperação estratégica? Essa seria sequer uma opção “realista”?

Em um simpósio no início de maio patrocinado pelos Projetos para a Democracia no Oriente Médio, Tom Malinowski, diretor da Human Rights Watch em Washington, disse achar que o governo Obama estava lutando com a questão da promoção da democracia e ainda não tinha encontrado uma resposta com que se sentisse à vontade.

“Minha impressão é que Obama quer ser forçado a travar essa luta pessoalmente”, ele disse.

Matéria original: Poderá Obama convencer o mundo?

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