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‘Política eleitoral, sozinha, não vai mudar as consequências do capitalismo racista globalizado’, diz Angela Davis

Filósofa americana exaltou o feminismo negro brasileiro e disse estar animada com o sucesso do discurso anticapitalista entre a juventude americana

por Ruan de Sousa Gabriel, do O Globo

Angela Davis é um dos principais nomes do feminismo negro no mundo Foto: Arte de Lari Arantes

A filósofa americana Angela Davis se recusa a escolher apenas um rótulo — feminista, antirracista, anticapitalista ou abolicionista — para definir seu ativismo.

– Não acredito que seja saudável escolher uma luta e dizer que é mais importante, mas reconhecer como as diferentes lutas se conectam — afirmou ela, em uma coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira no auditório do Parque Ibirapuera, em São Paulo. — Eu não posso ser uma militante antirracista sem falar da dimensão heteropatriarcal do racismo. Não posso ser feminista sem reconhecer o papel que o capitalismo e o racismo tiveram em moldar o patriarcado.

Sobre o assunto, Angela citou, inclusive, a feminista negra brasileira Lélia González, morta em 1994:

— Hoje chamamos isso de “interseccionalidade”, mas antes mesmo desse termo ser introduzido, Lélia González já pensava o racismo junto com os impactos da colonização nos povos indígenas, levando em conta que a maioria da população é formada por mulheres.

Angela Davis está no Brasil para lançar sua “Autobiografia” a convite da editora Boitempo, que publica seus livros por aqui, e da Fundação Rosa Luxemburgo. No livro, ela recorda as lutas sociais que sacudiram os Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970, quando ela militava no Partido dos Panteras Negras, organização revolucionária do movimento negro americano fundada em 1966 e atuante até 1982.

Por conta de suas relações com os Panteras Negras, Angela chegou a ser presa e enfrentou um julgamento acompanhado ansiosamente pelo mundo todo em 1970, aos 28 anos.

Em sua oitava visita ao Brasil, Angela preferiu não dar entrevistas individuais a jornalistas, mas uma coletiva de imprensa e conferências públicas e gratuitas. Ela prestou solidariedade às lutas dos indígenas e sem-teto brasileiros, dos curdos, dos palestinos e diz que os EUA têm muito o que aprender com o feminismo negro brasileiro.

— Estou extremamente impressionada a profundidade do trabalho realizado no Brasil. Para muitos de nós, o Brasil era um raio de luz, de esperança, até que vieram as eleições, e nós prometemos não pronunciar o nome de quem foi eleito, porque na tradição africana nomear é atribuir poder — destacou. — Mas continuo me impressionando e sentido esperança sempre que venho ao Brasil. Sinto um impulso coletivo aqui, principalmente entre os jovens, entre as jovens mulheres negras.

Angela confessou estar animada com a popularidade de políticos socialistas nos EUA, como o senador e pré-candidato à Presidência Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, ambos do Partido Democrata.

— É muito empolgante ver um número tão grande de jovens indo em direção ao anticapitalismo. Depois do Occupy Wall Street, assistimos à ascensão de um discurso anticapitalista que não víamos desde os anos 1930, quando houve grandes lutas sindicais e o Partido Comunista tinha centenas de milhares de membros — disse ela, que concorreu à vice-presidente dos EUA pelo Partido Comunista em 1980 e em 1984. — Hoje falamos do 1%. Todos sabem que é obsceno que uns poucos homens concentrem mais riqueza do que metade da humanidade. Qualquer um que tem algum sentimento pela humanidade precisa reagir.

No entanto, Angela alertou que não se deve depositar todas as esperanças nas eleições.

— Muitos jovens sabem que só a política eleitoral não vai mudar as consequências do capitalismo racista globalizado. Precisamos fazer mais do que eleger um presidente. Queremos tirar Donald Trump, mas isso não vai resolver os problemas mais profundos — disse. — As conversas sobre racismo e violência de gênero atingiram níveis sem precedentes nos EUA. Temos que continuar nessa direção, mas isso só vai acontecer se tivermos movimentos sociais radicais.

Angela terminou dizendo que só agora estamos lidando mais seriamente com a herança de séculos de escravidão e que, apesar da demora, está esperançosa.

— O racismo nunca permanece o mesmo, mas suas estruturas permitem que o racismo do passado tenha ressonância ainda hoje. Nós proclamamos a abolição da escravidão pensando que os impactos econômicos, culturais e sociais da escravidão fossem desaparecer automaticamente — disse. — O título de uma antologia feminista recente é “All the women are white, all the blacks are men, but some of us are brave” (em português, “Todas as mulheres são brancas, todos os negros são homens, mas alguns de nós são corajosos”) , e nós, os corajosos, vamos lutar contra o capitalismo, o racismo e o patriarcado. Vamos começar agora o que deveria ter sido feito um século e meio atrás. É só o começo. É muito empolgante, e não podemos parar.

Na noite desta segunda-feira, às 19h, Angela apresenta uma conferência pública e gratuita na plateia externa do Auditório Ibirapuera Oscar Niemeyer.

Na quarta-feira, dia 23, ela abre o “Encontro de cinema negro Zózimo Bulbul: Brasil, África e outras diásporas”, no Cine Odeon, no Rio.

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