Privilégio branco, monogamia e a esposa troféu

Quem eu era quase aos vinte anos de idade: Uma jovem branca, de experiência periférica. Lida e tratada como acima do peso, sem qualquer experiência afetiva ou sexual. Com um nível de letramento matemático bastante rudimentar. Sem histórico de atuação política, sem ensino médio. Com medo do inferno. Escondendo/jogando fora os meus escritos. Sem amigos.

Por Deborah Sá Do Cabine Privativa

Quem eu sou quase aos trinta anos de idade: Uma jovem branca, de vivência central. Lida e tratada como atraente[1], porém, “complicada demais pra lidar”, de experiência afetiva e sexual considerável. De um letramento matemático mais elaborado. Com histórico de atuação política, quase concluindo uma graduação em faculdade pública (e certo reconhecimento de que faz isso bem). Sem medo de ir pro inferno. Publicando escritos (e sendo lida por centenas e até mesmo milhares de pessoas – às vezes em um só dia). Com amigos com quem se abre.

E em que momento entra a monogamia nessa história? Ela entra no meio, bem no meio. A última parte construí suando muito e na maioria das vezes, custo a acreditar nela. No entanto, quem acaba de me conhecer não vê o começo, não vê a estruturação, apenas enxerga a fachada bonita e compra ela, aí está meu privilégio. Começando pelo fato de eu ser branca, recentemente, universitária e lida como bonita. Não sei da solidão da mulher negra, e é bem verdade que nos rolês libertários, a paisagem é sim, de gente branca, o máximo que faço é comentar “Hummm, quanta gente branca, né? Que zoado”. Vamos supor que eu tivesse vergonha da minha origem e resolvesse pagar de viajada no mundo, comunista de berço, até que seria possível. Se fosse negra com a mesma trajetória, custariam mais a aceitar. Fico horrorizada de ouvir amigas negras contando que abriram a porta de casa e alguém já supôs que era a empregada, comigo (por privilégio), é justamente o contrário. É claro que pela minha idade e modos, se eu abrir a porta de uma empresa não vão achar que sou a dona, possivelmente serei a secretária, a mocinha, aliás, eu até já fui secretária.

Uma vez, dando uma aula para uma turma de EJA e me apresentando, os alunos, por brincadeira chamaram de Professora Helena, outros, carinhosamente, me apelidaram de “Professorinha”. E é assim que me leem, uma certa candura, uma certa timidez de boa moça. Encaixa bastante na definição da esposa troféu, não acham? Bonitinha, universitária, educadinha, branca, cortês. Isso até eu começar a soltar realmente as coisas que penso, ser “geniosa e teimosa”, “política demais”, “liberal[2] demais”. Ou seja, ótima para apresentar para sua família se for a fofa sorridente de boquinha calada (o que definitivamente não sou). Para algumas pessoas a monogamia é um modo de se sentirem amadas, reconhecidas, cuidadas, principalmente se não encontravam essas experiências no passado nem tampouco, são acessíveis no presente. Se são colocadas de lado, se não são padrão, se são negras, gordas, trans. Não é meu caso, tenho o privilégio de hoje (e alguns sentidos, no passado também tive, por ser branca) de possuir o matrimônio e monogamia quase que garantidos.

Eu era a boa moça, filha de pastor, casar era conseqüência. Eu sou a “boa moça” (pelo menos pra circular em público, sem ouvirem o que eu estou falando), com quem se pode construir uma vida de cumplicidade. Encontrar um companheiro fixo não seria tão impossível assim, mas abro mão, pois, a imposição que me foi dada não foi a solidão da mulher negra, foi a de me conformar – e ser grata – em ser a esposa troféu, a bonitinha, para se colocar no porta-retrato e mostrar orgulhoso aos colegas de trabalho.

É evidente que a não-monogamia é dada como opção mais confortável dentro de um escopo muito específico de pessoas, as seguras de si, as que serão escolhidas por mais de uma pessoa, as que despertam interesse, as que condensam uma série de atributos que a nossa sociedade considera bons: branquitude, jovialidade, domínio discursivo oral/escrito. Os incentivos e elogios que recebi ao longo da vida (meiga, bonita, inteligente), foram os ganchos que permitiram agir e fortalecer o lado que nem todo mundo está disposto a lidar (incisiva, contestadora, não mono-centrada). Aproveitei uma(s) brecha(s) e pulei nela(s) para sambar dentro, só que nem todo mundo vai ter mesmas a(s) brecha(s). Assim, interpreto a monogamia tal e qual a espiritualidade e o conceito de Deus: Posso até não ir mais com a cara dele com base no que já experimentei de relacionamentos anteriores, mas, está te fazendo feliz? Está te trazendo conforto? Amor-próprio? Das suas decisões eu é que não tenho que achar nada, da minha alçada resta apenas dizer que não me arrependo de assinar a apostasia.

[1] Fico me perguntando se é uma ponte possível, considerar que assim como mulheres negras são “embranquecidas” aos olhos alheios conforme acendem socialmente (economicamente, academicamente), talvez, mulheres gordas ganhem status de não gordas (“virem” gostosas, interessantes, etc) em condições similares.

[2]  No senso comum, liberal é ser sexualmente “solto” (estou falando desse sentido). No viés econômico é ser conservador. Na interpretação de algumas feministas é gostar de cultura de massa.

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