domingo, setembro 19, 2021
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Quando o racismo no Brasil vai dar em cadeia e não campanhas tipo “somos todos fulana”? Por Marcos Sacramento

A história é familiar: uma negra famosa recebe insultos racistas no Facebook e a solidariedade vem na forma de uma hashtag. Desta vez a vítima foi atriz Taís Araújo, ofendida por um bando de racistas, a maioria escondida em perfis fakes.

Por   Marcos Sacramento, do DCM

Resta saber se tudo vai acabar como outros casos semelhantes, onde ninguém recebeu uma punição exemplar por cometer crime de racismo ou injúria racial nas redes sociais.

No post em que comenta as agressões, a atriz não quis saber de mandar beijinho no ombro e disse que vai enviar tudo à polícia. Dependendo da análise das autoridades policiais, os comentários podem ser enquadrados como injúria racial, com pena de até três anos de reclusão, ou crime de racismo. Neste caso a pena é maior e pode chegar a cinco anos.

No caso das agressões sofridas pela jornalista Maria Júlia Coutinho, do Jornal Nacional, não demorou para um dos suspeitos ser identificado. Era um adolescente de 15 anos e de acordo com as últimas matérias sobre o assunto, ele foi ouvido na delegacia e iria responder por ato infracional, com possibilidade de cumprir alguma medida socioeducativa na Fundação Casa.

Em outras ocorrências parecidas, pelo menos aparentemente ninguém recebeu uma pena que possa ser considerada proporcional à ofensa. A funqueira Ludmilla, a apresentadora do SBT Joyce Ribeiro, o ator mirim Kaik Pereira, a jornalista Glória Maria foram algumas das vítimas famosas de racismo nas redes sociais.

E a lista cresce. Um dia depois da Taís Araújo, foi a vez do jogador Michel Bastos, do São Paulo, ser insultado no Instagram. “Macaco negro safado respeita a torcida, otário vagabundo faz por merecer o dinheiro que recebe”, berrou a internauta nanda_cominni. Bastos, da mesma forma que Taís, vai prestar queixa de crimes raciais.

Agora, é mais fácil um camelo passar pelo buraco da fechadura do que os racistas serem punidos com os rigores previstos na lei.

Para concluir isso basta lembrar da polêmica envolvendo o goleiro Aranha, uma das mais emblemáticas dos últimos anos. Embora o time do Grêmio tenha sido penalizado com a eliminação da Copa do Brasil daquele ano de 2014, os quatro torcedores que chamaram o jogador de “macaco” não chegaram a ser julgados pelo crime de injúria racial.

Em vez disso, foram obrigados a comparecer durante dez meses uma delegacia nos dias dos jogos do Grêmio, onde deveriam ficar durante o horário do jogo. Se descumprissem o acordo, o processo seria reaberto. A pena terminou em 25 de agosto deste ano.

“Falta consciência negra para o poder Judiciário no Brasil”, disse à BBC Brasil a advogada Carmem Dora, da Comissão da Igualdade Racial da OAB de São Paulo, na época em que saiu a sentença.

Como as punições raramente vêm, e quando vêm são brandas, resta a esperança de que surja uma nova hashtag para o próximo caso de racismo envolvendo alguém famoso, porque essa de “Somos Todos Fulano de Tal” já encheu e não tem serventia alguma.

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Sobre o Autor

Marcos Sacramento, capixaba de Vitória, é jornalista. Goleiro mediano no tempo da faculdade, só piorou desde então. Orgulha-se de não saber bater pandeiro nem palmas para programas de TV ruins.

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