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‘Racismo mata todos os dias’, diz diretora que disputa vaga no Oscar

Confira entrevista com a cineasta Camila de Moraes, gaúcha radicada em Salvador; indicados serão divulgados nesta terça (11)

Por Laura Fernandes Do Correio24horas

Foto: Reprodução/correio24horas

Cotada para representar o Brasil no Oscar com o documentário O Caso do Homem Errado, a cineasta gaúcha radicada em Salvador Camila de Moraes, 31 anos, explica por que decidiu, 30 anos depois do fato real que inspirou o filme, contar a história de um operário negro executado por engano. “Por não aguentar mais saber de notícias de pessoas negras sendo executadas no Brasil e no mundo, achamos no audiovisual uma maneira de nos manifestar sobre o racismo que nos mata todos os dias”, afirma, em entrevista ao CORREIO.

No bate-papo que pode ser lido na íntegra, logo abaixo, Camila fala sobre a indicação à premiação – cujo resultado será divulgado nesta terça-feira (11) – e conta que o interesse pelo cinema foi plantado na infância. Afinal, foi criada perto de pessoas que trabalhavam em cineclubes e começou a frequentar o Festival de Gramado cedo, com o pai. Ainda criança, corria atrás de autógrafos e fotos das estrelas da noite, até virar jornalista e passar a se relacionar com o principal festival de cinema do país como assessora de imprensa. “Amava muito aquele ambiente”, lembra Camila.

Ganhar dois Galgos de Ouro no Festival Universitário de Gramado, com o documentário ‘Mãe de Gay’, foi só mais um passo em direção à vida de cineasta que acaba de ser reconhecida nacionalmente com o elogiado O Caso do Homem Errado, que disputa uma vaga no Oscar com outros 21 filmes brasileiros. Premiado em Punta Del Este, o documentário é baseado na história real do operário Júlio César de Melo Pinto, seu tio de criação que foi executado pela Polícia Militar, em Porto Alegre, em 1987.

Para contar a história de Júlio, Camila reúne depoimentos da família e de Ronaldo Bernardi, fotógrafo que registrou ele sendo colocado com vida na viatura. Júlio chegou morto a tiros no hospital, 37 minutos depois. O racismo denunciado no filme, ressalta a diretora, vai além da tela e dificulta a própria produção feminina no cinema. “Ele vem aliado ao machismo e impacta das maneiras mais cruéis possíveis”, denuncia. Confira a entrevista completa.

Júlio César foi fotografado com vida ao entrar na viatura e chegou morto com um tiro, no hospital, 37 minutos depois (Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS)

Como surgiu seu interesse de trabalhar com o cinema?

Tive referências dentro de casa. Minha mãe é atriz, Vera Lopes, e já fez alguns filmes. Meu pai, Paulo Ricardo de Moraes, é jornalista, poeta e roteirista, já fez alguns filmes também. Eu e meus irmãos vivíamos neste meio artístico desde crianças, perto de pessoas que trabalhavam com cineclubes e arte em geral. Eu sou gaúcha e desde criança sempre fui com meu pai para o Festival de Cinema de Gramado e amava muito aquele ambiente. No início corria atrás dos artistas para pegar autógrafos, depois era época de fazer o registro fotográfico, até que comecei a estudar jornalismo e passei a frequentar o Festival de Cinema de Gramado como assessora de imprensa. Ainda na época da faculdade, com alguns colegas, produzi o documentário ‘Mãe de Gay’ e ganhamos dois Galgos de Ouro no Festival Universitário de Gramado que ocorria na mesma época do Festival de Cinema de Gramado.

Foi muito bom participar deste evento deste outro lado, com uma produção que ainda foi premiada. Então, o interesse de trabalhar com essa linguagem surge da família e do mundo onde atuo, enquanto mulher negra, com questões sociais, acreditando na mudança e na melhoria de uma sociedade. Acredito que podemos apresentar a nossa realidade e provocar reflexões sobre como agimos e sobre se é possível agir de outras formas. E o audiovisual tem o poder de chegar em muitas pessoas com uma rapidez e um diálogo acessível, o que hoje é extremamente urgente para nós.

Por que decidiu filmar O Caso do Homem Errado?

Nosso documentário aborda um caso específico que ocorreu em 14 de maio de 1987 com o operário negro Julio Cesar de Melo Pinto e que ficou muito conhecido, principalmente no Rio Grande do Sul, como “O Caso do Homem Errado” que dá título ao nosso filme. Por se passarem mais de 30 anos do caso e ainda no Brasil, em 2018, continuam assassinado pessoas negras por conta da sua cor de pele, se fez necessário recontar essa história que é tão atual e infelizmente tão parecida com outras milhares de histórias de famílias negras de norte ao sul do país.

Por essa razão, por não aguentar mais saber de notícias de pessoas negras sendo executadas no Brasil e no mundo, achamos no audiovisual uma maneira de nos manifestar sobre o racismo que nos mata todos os dias.

O roteiro do filme é assinado por mim, pela produtora executiva Mariani Ferreira e pelo diretor de fotografia Maurício Borges de Medeiros, cada um foi essencial na construção dessa narrativa fílmica.

Como avalia a indicação do seu filme para a disputa do Oscar?

Bom, nosso filme ainda não foi indicado para ser o representante do Brasil, mas chegamos numa etapa muito importante que é estar entre os 22 filmes que podem representar o país nesta disputa pelo Oscar.

Para chegar nesta etapa, o longa-metragem tem que ter feito circuito comercial no país. A nossa produção independente e a distribuição do filme também de forma independente nos mostram que o caminho é muito difícil e que existem muitas barreiras estruturais que fazem com que as produções negras cheguem cada vez menos nestes espaços.

A gente precisa avaliar nossa conjuntura política, como é o audiovisual brasileiro e quais são os processos para chegar nessas áreas de comando, como direção, de disputar espaço, como uma distribuidora, de solicitar as melhores salas de cinema e os horários adequados para exibição de seu filme.

Então, há vários obstáculos, mas que não são impossíveis de serem ultrapassados e com a nossa produção estamos mostrando isto, estamos dizendo para as nossas companheiras e companheiros de cor, que sim, eles podem fazer longas-metragens, sim, podem disputar salas de cinemas grandes das diversas capitais do pais, que sim podem estar na lista de filmes para representar o Brasil no Oscar.

Quem sabe, muito em breve, uma produção nossa poderá ser o representante oficial brasileiro, porque se não for dessa vez, pode ter certeza que agora que aprendemos o caminho. Ano após ano, estaremos lá na disputa por ocupar estes lugares que também são nossos.

Além do documentário, quais são os planos do presente e do futuro?

Eu sou jornalista e trabalho com assessoria de imprensa e produção cultural, porém desde o início deste ano me dedico somente ao documentário e à sua trajetória dentro do cinema brasileiro. Quero muito poder viver profissionalmente atuando nesta área do audiovisual. Temos dois projetos avançados, um documentário e uma ficção, porém, para poder tirar da gaveta e desenvolver eles, é necessário ter recursos financeiros e eu assinei um contrato comigo mesmo que não farei mais nada sem verba, pois é extremamente difícil e nós precisamos remunerar a equipe de profissionais que estão se dedicando à produção de um material de qualidade. Então, não é justo que esses trabalhadores não recebam por seus serviços prestados.

(Foto: Reprodução/correio24horas)

Na sua opinião, que papel as cineastas desempenham hoje no Brasil e no mundo?

As mulheres chegam com a determinação de apresentar uma história a partir do seu ponto de vista. Um ponto de vista que até então não era apresentado, porém que quando começar a surgir nas telas muitos olhares se identificam e gostam de poder ver essas outras possibilidades e maneiras de narrar histórias. Nós, cineastas, temos o papel de contar uma boa história a partir de uma perspectiva feminina e poder dialogar com um número maior de telespectadores, seja por qual veículo for.

Acredito que a arte precisa ser feita para tocar e transformar sentimentos e essas produções potentes, com a devida visibilidade que merecem ter, podem causar essas transformações.

Para você, como o racismo impacta na produção feminina?

Neste caso, ele vem aliado ao machismo e impacta das maneiras mais cruéis possíveis, desde deslegitimar a sua produção até colocar obstáculos muito maiores do que você poderia imaginar. Porque quando você pensa que conseguiu ultrapassar um, aparece outro maior ainda que lhe tira a força, a coragem. Para poder enfrentar essa crueldade brasileira, é necessário ter aliados nesta luta constante, porque sozinha a gente não dá conta e o que sempre acontece é que acabamos enlouquecendo e morrendo na miséria, sem conseguir produzir mais nada. E a gente precisa ter consciência que essas ações não são apenas coisas da nossa cabeça, mas sim que essa sociedade doente em que vivemos nos impede de pensar e evoluir, que o progresso de uma pessoa beneficia um todo e todas as pessoas evoluem juntas.

O racismo vem aliado ao machismo e impacta das maneiras mais cruéis possíveis, desde deslegitimar a sua produção até colocar obstáculos muito maiores do que você poderia imaginar

Independente da indicação ao Oscar, quais são os planos para O Caso do Homem Errado?

Iremos, a princípio até o final do ano de 2018, permanecer no circuito comercial com o filme em diversos estados brasileiros, além de continuar participando de Festivais e Mostras de Cinema. Para o próximo ano, queremos disponibilizar o filme em comunidades, escolas, cineclubes, universidades e poder fazer bate-papo nessas ações. Também queremos disponibilizar o filme em algum canal de TV e nas plataformas digitais.

O documentário O Caso do Homem Errado ainda tem uma trajetória longa pela frente e nós desejamos vida longa para essa produção, pois as nossas vidas negras importam e as nossas vozes precisam ser escutadas.

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