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Como combater discursos de ódio que sustentam atos racistas?

Nos dias 4 e 5 de novembro, evento na USP reúne pesquisadores e público para analisar e propor maneiras de intervir em discursos que circulam nas mídias sociais

Por Pedro Ezequiel, do Jornal da USP

Recorte de manchetes de sites de notícias destacam aumento de atos antissemitas no mundo – Fotomontagem/ USP Imagens

O compartilhamento de uma notícia falsa. Um riso de uma piada ou imagem “engraçada”, mostrando alguém. São brechas para o preconceito às minorias. Com uma dose de ignorância, atitudes corriqueiras podem se transformar em caminhos para discursos contaminados de hostilidade e racismo.

Essas portas abertas para a disseminação de ódio serão tema de um colóquio na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em São Paulo, entre os dias 4 e 5 de novembro. A proposta é debater a situação no Brasil e no mundo e pensar em maneiras de intervir contra esses discursos.

Com pesquisadores da USP e de outras instituições internacionais, o encontro terá apresentação da peça de teatro Mergulho, com direção de Leslie Marko. “Uma maneira de interferir, uma estratégia para combater essas falas de ódio é o teatro. Também os debates sobre filmes e as produções de livros para circulação”, conta a professora do Departamento de História da FFLCH Maria Luiza Tucci Carneiro, organizadora do colóquio.

A proposta é buscar discursos que circulam hoje através de matrizes do passado. “Essas mentiras, mitos, são adaptados ao tempo e convergem para o mesmo objetivo: excluir da sociedade ‘grupos indesejáveis’ para eles”, destaca Maria Luiza, também coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da USP.

Segundo a professora, no Brasil existe uma ideia de racismo secular. Seria um fenômeno que atinge a Europa e os Estados Unidos e que chegou ao território nacional através dos mitos propagados, como imagens que deturpam um determinado grupo social e que reforçam, no imaginário das pessoas, um determinado preconceito.

“Essa matriz do preconceito se inspira nas figuras políticas. Também através de charges, do humor, o que acaba ‘legitimando’ essas atitudes”, explica Maria Luiza. Por isso, no evento, haverá debates sobre o papel do humor como uma fissura para a passagem do ódio e o seu uso para o contrário.

Um destaque também será dado às redes sociais e seu potencial para esses discursos. “Há uma multiplicação de mentiras através dos séculos. Temos uma porta aberta da circulação de discursos que aparecem mascarados, mas que são carregados de preconceito”, comenta a pesquisadora.

O evento busca também afirmar a necessidade da academia se juntar à sociedade para propor soluções aos problemas, como os preconceitos, que são prejudiciais ao funcionamento da democracia. “Na primeira mesa, por exemplo, faremos um diagnóstico, um mapeamento. Depois pensaremos: como interferir? É uma ação intervencionista, que analisa, debate e propõe.”

O Colóquio Internacional Discursos de Ódio – Racismo Reciclado no Século 21 será realizado no Auditório Nicolau Sevcenko, na Av. Prof. Lineu Prestes, 338, campus Cidade Universitária da USP, bairro Butantã, São Paulo.

Gratuito, com inscrições através de e-mail e disponibilização de certificados, os assuntos serão divididos em cinco mesas: O antissemitismo na Europa e na América Latina; O humor usado para a propagação do ódio; As heranças do passado para os discursos contra os judeus, negros, ciganos e a comunidade LGBTQI+; A relação desses discursos com as mídias sociais; e Ações intervencionistas com foco na justiça social. A programação completa pode ser conferida aqui.

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