Retratos do sofrimento, num estado em que o crime pode tudo

Mães chorando a morte de filhos. Jovens velando a memória de pais. Mulheres lamentando a ausência de seus companheiros. Em comum, eles têm a esperança de ver solucionados os crimes que vitimaram seus parentes.

Emocionados, muitos deles aproveitaram a reunião extraordinária do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) realizada em Goiânia nesta quarta (19.9), para relatar a luta que travam para obter informações sobre desaparecidos após abordagem policial e manifestar a esperança de que os responsáveis pelas execuções sejam punidos.

O CDDPH, na pessoa da sua presidente, a ministra e secretária dos direitos humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, esteve na capital goiana para debater a violência no Estado. Denúncias sobre a participação de PMs em execuções sumárias, desaparecimentos e arbitrariedades – apresentadas no relatório Insegurança Pública em Goiás: Anacronismo e Caos, produzido pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Goiás – levaram o órgão a marcar a reunião em Goiânia.

Os relatos de crimes praticados por policiais em Goiás retomam alguns temas que dizem respeito a um Brasil que nos remetem aos piores anos da ditadura militar, em que as polícias tinham o direito sobre a vida das pessoas e decretavam a morte de quem bem entendessem. Só que são os temas da ditadura atualizados.

Agora, esses temas estão ligados ao crime organizado e às políticas de (in)segurança pública dos tucanos e democratas. Lá estão os grupos de extermínio que vicejam dentro da polícia – e que a Operação Sexto Mandamento, da Polícia Federal, no ano passado, começou a desbaratar –, a cumplicidade das autoridades, o silêncio da mídia sobre o fato do crime organizado controlar grande parte do aparelho do Estado, em um Estado governado pelos tucanos e democratas, via Carlos Cachoeira e Demóstenes Torres.
E ainda um complemento importante: novamente a pressão da mídia para que a CPMI do Congresso Nacional não investigue o crime organizado e suas ramificações no governo do Estado.

Caso emblemático

Entre os casos relatados nesta quinta Um dos casos mais emblemáticos documentado no relatório é o de Murilo Soares Rodrigues. Murilo tinha 12 anos quando desapareceu, em abril de 2005. Segundo sua mãe, Maria das Graças Soares, a Graça, o garoto tinha visitado o pai, em Goiânia, e voltava para casa de carona com um conhecido quando o carro em que estavam foi abordado por policiais da ROTAM (…).

O jovem que levava Murilo era Paulo Sérgio Pereira Rodrigues, 21 anos, e, de acordo com Graça, era conhecido da polícia por ter antecedentes criminais. “Como meu ex-marido ia viajar, pediu para o Paulo levar o Murilo de volta para casa. No meio do caminho os policiais pararam o carro. Depois disso, eu nunca mais vi meu filho”, contou ela.

Segundo esta mãe, Murilo estava no lugar errado, na hora errada e com a pessoa errada. Paulo Rodrigues também está desaparecido desde então.

“Vinte e oito pessoas testemunharam os policiais revistando o Paulo enquanto o Murilo permanecia encostado no carro, com as mãos no bolso. O carro foi encontrado no dia seguinte, carbonizado, sem a aparelhagem de som e sem as rodas, mas os corpos nunca foram encontrados.”

Seis PMs foram indiciados pelo desaparecimento de Murilo e de Paulo. Chegaram a ser detidos, mas logo foram absolvidos por falta de provas. Passados mais de sete anos, o caso ainda está inconcluso, aguardando que os recursos sejam apreciados.

Fonte: Correio do Brasil

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