Samantha Buglione : Consciência Negra

Em 1789, os franceses declararam os direitos universais do homem. Tínhamos, ali, um marco para a história do ocidente que acabaria por influenciar todo o mundo. A declaração dizia, em alto e bom tom, que todos nasciam iguais, que todos tinham os mesmos direitos, que todos estavam livres de crueldade. Mesmo assim, milhares de humanos e não-humanos seguiam explorados, violentados e submetidos a maus-tratos. Os negros cruzavam os mares como escravos em centenas, marcando o primeiro grande genocídio da história moderna.

por Samantha Buglione no A Notícia

A explicação fácil para a exploração era retórica e contraditória, mas serviu para aplacar a alma do violador, para quem os negros não faziam parte do humano dos direitos humanos. O esforço, desde sempre, foi o de ampliar a comunidade moral e o próprio sentido de sujeito de direitos e ampliá-lo de forma que diferentes singularidades – dos sujeitos vivos que vivem suas vidas – fossem abarcadas.

Ainda hoje os negros e os não-brancos recebem salários menores, trabalham mais informalmente e são mais pobres, além de serem a minoria nas universidades e sofrerem discriminação e violência por conta do tom de pele. Em regra, não são as ações dos negros, tampouco o seu caráter, que passam pelo crivo do julgamento público, mas sua melanina. Quando surgem políticas de promoção da igualdade não é a política que é questionada, mas o mérito dos negros e o fato de eles estarem, audaciosamente, em lugares que, segundo os preconceituosos, não lhes compete, como as universidades. Cotas, distribuição de renda e igualdade salarial não ofendem pela proposta, mas por promoverem o sustento de um estado democrático que é o igual reconhecimento de interesses. Algo que não se faz em discurso, mas em ações, e que tira muitos da zona de conforto.

Enquanto não encontrarmos – em igual porcentagem – negros e negras doutores em meteorologia, química, física, matemática, filosofia, medicina, as cotas seguirão como uma política necessária. Os racistas aceitam negro doutor em antropologia que estuda quilombos, mas se incomoda com o negro doutor do Supremo Tribunal Federal.

A história se faz por meio da capacidade de resistência e de mobilização. As grandes revoluções foram silenciosas. Foi assim na Índia, com Gandhi, e foi assim nos EUA quando os negros pararam de usar os ônibus públicos – e andavam quilômetros a pé – para protestar contra o apartheid. No dia 20 de novembro, se comemora o Dia da Consciência Negra, que é um chamado à reflexão sobre a sociedade como um todo. É um dia que comemora a resistência do negro à escravidão e à violência. Algo que começou com o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro, em 1594.

Humanos têm um talento especial para discriminar e criar zonas de conforto e, principalmente, de encontrar argumentos que justifiquem suas escolhas. Foi e é assim com o racismo, com o sexismo (o machismo), com a discriminação de classe e com o especismo. Por isso, pensar a democracia e a Justiça a partir da condição dos negros é pensar nossa própria humanidade. Os não-brancos, no Brasil, são praticamente a metade da população brasileira. As mulheres, mais da metade. Ignorar a qualidade de vida desses humanos e seus interesses é fazer a manutenção de um conceito de humano que só privilegie alguns “bem-aventurados”.


 

*Professora de direito, bioética e do mestrado em gestão de políticas públicas da Univali. Doutora em ciências humanas

+ sobre o tema

Revelação do pop, Mahmundi produz o próprio disco e quer ser hit nas rádios

Marcela Vale ainda trabalhava em uma loja da rede...

Nota de repúdio contra resolução do Incra que viola direitos quilombolas

Ao reduzir o território por ato administrativo, sem consulta...

Bahia: Trabalho e Sociabilidade

Fonte: Raizes Africanas - Por Cecília C. Moreira Soares*...

Adele quebra principal troféu do Grammy para dividir com Beyoncé e leva colega as lágrimas

A cantora Adele quebrou propositalmente o principal troféu do...

para lembrar

Homenagens a Paulo Moura

    Eduardo Nunomura Um instituto, um acervo...

Apresentador Komla Dumor da BBC morre aos 41 anos

    Komla Dumor, prestigioso apresentador da BBC World News, morreu...

Projeto de lei autoriza criação de feriados em dias de jogos da Copa

A presidente Dilma Rousseff assinou o projeto da Lei...

Pesquisa iniciada por universitário assassinado em PE ganha prêmio

Aluno de biomedicina da UFPE foi morto em fevereiro.Estudo...
spot_imgspot_img

MinC vai lançar plataforma de streaming voltada ao audiovisual nacional

O Ministério da Cultura está se preparando para lançar, ainda no segundo semestre deste ano, uma plataforma de streaming dedicada à produção audiovisual brasileira. Idealizado pela Secretaria do Audiovisual...

6 brasileiros que lutaram pelo fim da escravidão no Brasil

O fim da escravidão no Brasil completa 136 anos em 13 de maio deste ano. Em 1888, a princesa Isabel, filha do imperador do Brasil Pedro 2º,...

Leci Brandão – Na Palma da Mão em curta temporada no Imperator

Com direção de Luiz Antonio Pilar e texto de Leonardo Bruno, musical que celebra vida e obra da artista se apresenta no Imperator Vencedor do Prêmio Shell de Teatro na categoria "Direção" Nome incontornável da música brasileira, compositora e intérprete de...
-+=