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Sobre Capital racial e abordagem policial

Dia 05 de agosto de 2018, aqui estamos mais um dia sobre os olhares sanguinários dos vigias. Você sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK . Mesmo sem saber o que é uma HK, a população negra no Brasil conhece muito bem o significado empregado pelo Racionais MC’s na musica “diário de um detento”, de 1998. É estar sob a iminência de ter sua identidade aviltada ou seu corpo exterminado a qualquer momento.

por Jair da Costa Junior via Guest Post

Palestra sobre a formação do Estado brasileiro na faculdade de medicina da UFMG, para o Grupo de Estudos Negritude e Interseccionalidade – GENI

A polícia brasileira, como representação do código de comportamento de uma sociedade, e expressão do racismo nas instituições de Estado, tem enfrentado sérios constrangimentos em seguir no projeto genocida e confinamento da população negra. Ao passo que as pessoas negras tem se posicionado contra as arbitrariedades cometidas pelas polícias e questionado as práticas de filtragem racial, o gradiente de violência aumenta. Avolumando, consequentemente, o número de execuções sumárias e flagrantes forjados, que alimentam respectivamente os índices de homicídios e encarceramento.

No referido domingo, dia 05 de agosto, estava em minha casa acompanhado de minha namorada quando decidimos pegar algumas cervejas, saboreá-las e conversar ao ar livre, na praça do bairro onde moro atualmente. Sagrada Família (Belo Horizonte/ Minas Gerais), um bairro considerado de classe média que faz divisa com bairros tradicionais como o Santa Tereza, o Floresta, e também o Cidade nova. Após algum tempo de boa conversa, músicas e cerveja com minha namorada, chegaram na praça dois policiais em motocicletas. Dirigiram-se a um jovem branco que estava sozinho. Do ponto de onde surgiram os policiais, não se identificava a cor da sua pele do jovem, que se posicionava em ponto com pouca iluminação. Eu e minha namorada estávamos exatamente atrás desse jovem, que observava a pelada que acontecia na quadra logo abaixo. Os policiais se aproximaram do jovem conversando, não encostaram as mãos nele, tampouco solicitaram que colocasse as mãos na cabeça ou abrisse as pernas, e sequer solicitaram sua documentação. O jovem permaneceu na mesma posição que se encontrava, e durante toda a abordagem, que não levou mais que dez segundos, permaneceu com as mãos no bolso e sem ser tocado.

Os policiais então foram para o espaço contíguo a esse onde se encontravam cerca de oito adolescentes. Eram seis rapazes, dois brancos e quatro negros, e duas moças, uma branca e uma negra. Conversavam há algum tempo na praça enquanto brincavam nos equipamentos da academia da cidade, antes da chegada dos policiais. Repentinamente escutei alguns gritos (vozes de homens) que me chamaram atenção então levantei para observar. Percebi um dos policiais com o cassetete apontado para a altura do rosto de um dos rapazes e ouviam-se os xingamentos como: filho da puta, desgraçado, direcionados a eles. Chamei minha namorada para aproximarmos e ficamos observando a cena mais de perto. Os policiais seguiram com os xingamentos e a abordagem diferenciada em relação à primeira. Todos os adolescentes, com exceção das moças e um rapaz branco, estavam com as mãos da cabeça, as pernas abertas ao limite e os policiais os interrogavam e consultavam seus documentos. Os adolescentes eram ameaçados a cada pergunta dos policiais, que diziam: “vou perguntar só mais uma vez, seu desgraçado”; “vou perguntar só mais uma vez seu filho da puta”.

Finalizando a sessão de aviltamento publico e sem justificativa junto aos adolescentes, os policiais perceberam nossa presença. O soldado do PM nos encarou de longe durante alguns segundos e veio se aproximando. Chegando bem de frente a mim, falou em tom de voz agressivo e expressão facial nada amistosa: “O senhor viu algo de errado em nossa abordagem”? hesitei em responder mas a próxima pergunta veio muito rapidamente: “Você viu algum abuso em nossa abordagem?” como quem quer algo pronto que alivie seu incomodo diante das agressões ali cometidas, acredito que esperava ouvir um coagido e intimidado: não, senhor! A resposta, no entanto, foi proferida em tom de perguntas que o agente deveria lhe fazer: “você acha que cumpriu com os procedimentos corretos para este tipo de ação? “Você está tranquilo com o trabalho que fez?” Não satisfeito com a resposta, o soldado perguntou meu nome, que lhe foi prontamente informado e perguntou se eu tinha “passagem”.

“Tem passagem?”, perguntou o soldado. “Eu moro aqui ao lado, para que eu gastaria passagem?”, respondi sua pergunta. Isso dito, depois das perguntas sobre a execução de seu trabalho, para ele pode ter soado como uma afronta, entendida no exato momento em que ele pede o cassetete ao Cabo da PM que o acompanhava, como continuidade das estratégias de coação: “Me dê aqui esse cassetete, deixa eu mostrar uma coisa pra ele”. Supostamente para corrigir minha linguagem que não se resumiu ao sim senhor, não senhor, que requerem como denotativo da imposição da suposta autoridade. Afinal, todos sabem o significado do termo “ter passagem” no jargão policial ou somente as/os jovens e pessoas negras tem a obrigação de saber? Não se tratava de corrigir uma linguagem inadequada tampouco mal compreendida, tratava-se, exatamente, do racismo que condiciona não somente o policial, mas a sociedade brasileira de forma geral, em atribuir e seguir acreditando no lugar subalternizado dessa parcela da população, o que ficou nítido nos desdobramentos dessa abordagem.

O policial pediu meus documentos, perguntou meu nome e o que eu fazia. Como estava sem documentos o informei os dados e minha atividade profissional: “sou servidor público e pesquisador”. Ao não conseguir a total submissão de um homem negro frente a suposta imponência da autoridade policial, o mesmo começou a me acusando de arrogância e petulância. Apenas não compreende a relação do próprio trabalho com uma noção de direito, igualdade e cidadania, e sua função pública. Não posso dizer que se trata de mera ausência de compreensão por parte dos policiais, pois entendo como uma ação automática e inconsciente do corpo frente a um signo e uma situação que o requisita determinada ação. Um corpo negro, sem vocação para ceder a humilhações (como meus ancestrais), fora de uma condição considerada subalterna referente a status social, e, acima de tudo, superior à ele, como o próprio identificou tomando este ponto como mote da abordagem. Essa perspectiva pode ser refletida a partir da noção de capital racial.

Capital racial

As estratégias de dominação colonialistas não se pautaram ou se sustentaram pela violência física. Somente por esta via a dominação não se efetivaria tampouco se perenizaria ao longo dos séculos. Como nos explica Nêgo Bispo, “O processo de escravização no Brasil tentou destituir os povos afro-pindorâmicos de suas principais bases de valores socioculturais, atacando suas identidades individuais e coletivas” (SANTOS, 2015, p. 37). Raça é filha do racismo, e não o contrário (COATS, 2015). A violência simbólica com a finalidade de destituir as bases de sustentação de outras culturas específicas e a simultânea degradação do patrimônio cultural, religioso e social desses povos foi a empreitada exitosa. Assevera Quijano que, os colonizadores reprimiram tanto como puderam, ou seja, em variáveis medidas de acordo com os casos, as formas de produção de conhecimento dos colonizados, seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade […] tecnológica, como da subjetiva, especialmente religiosa. É este o caso da religiosidade judaico-cristã. Todo esse acidentado processo implicou no longo prazo uma colonização das perspectivas cognitivas, dos modos de produzir ou outorgar sentido aos resultados da experiência material ou intersubjetiva, do imaginário, do universo de relações intersubjetivas do mundo; em suma, da cultura (QUIJANO, 2005, p. 121).

O resultado prático de um processo de inculcação nos corpos e nas mentes de um sentido de superioridade em relação ao seu diametralmente oposto inferior, pode ser observado a partir das posições socioprofissionais. A colonialidade do poder redefiniu as identidades dos povos envolvidos na colonização conforme sua posição na estrutura, atribuindo um denotativo de valor a cada uma das representações (QUIJANO, 2005). A categoria trabalho é central, uma vez que, conforme ressalta Arendt (1989, p. 527), “num mundo cujos principais valores são ditados pelo trabalho, isto é, onde todas as atividades humanas se resumem a trabalhar”, a divisão racial do trabalho ordena uma concepção de valoração – capital humano, moral e ética – na ordem social.

As diferenças culturais são produtos de uma dialética histórica de construção de distinções cumulativamente incorporadas e socialmente reproduzidas. Quando analisamos criticamente a história da colonização da América do Sul, que tem no Brasil o caso mais espetacular e assombroso percebemos que as diferenciações foram criadas com a finalidade de justificar as violências, e de modo especial, a exploração do povo negro. Contudo, tais diferenciações seguiram sendo reproduzidas, atualizadas e, consequentemente, mantendo a população negra no status de subalternos, tendo no advento do sistema escolar, supostamente público, a mudança das práticas que garantem a permanência das formas de acesso aos privilégios. Há uma relação de contiguidade entre os privilégios auferidos na colônia pelos senhores e seus filhos com a implantação de um sistema escolar público, ao qual negras/os não tiveram acesso, ou acessaram de modo limitado por um longo período, e os significados que os diplomas terão a partir desse momento histórico.

Portanto, trabalho e subjetividade são categorias centrais para compreensão do surgimento, manipulação e conversão de diferenças consideradas raciais em capital simbólico, o que dá origem ao que se define como capital racial. Conforme nos ensina Bourdieu (1989), capital simbólico também pode ser definido como distinção social. Pode ser o nome utilizado para designar, qualquer que seja sua espécie, propriedades que, percebidos por agentes incorporados de categorias de percepção resultantes da vivência em uma sociedade, portanto, de um habitus incorporado da estrutura de distribuição, se faz reconhecido como algo óbvio (BOURDIEU, 1989, 1996). Trata-se de “uma propriedade qualquer (de qualquer tipo de capital, físico, econômico, cultural, social) percebida pelos agentes sociais cujas categorias de percepção são tais que eles podem entendê-las (percebê-las) e reconhecê-las, atribuindo-lhes valor” (BOURDIEU, 1996, p. 107).
As distinções, enquanto transfigurações simbólicas das diferenças socialmente construídas que dão sentido às hierarquias e classificações sociais, são produtos da aplicação dos esquemas de construção do mundo social e seu reconhecimento, bem como sua legitimidade se traduz na apreensão do mundo como algo evidente e natural, de forma a fazer crer que haja uma essência que condiciona à determinada situação, coincidindo com as evidências que se observam na dinâmica social objetiva e das estruturas incorporadas.

Assim, capital racial se converte em valor à medida que se constitui como uma espécie de capital das relações mundanas que pode servir de moeda de troca.

Capital racial implica na evidencia prática de atribuição valorativa, que encontra ressonâncias nas formas de “inclusão-exclusão” (AGAMBEN, 2010) que se materializam na valoração política e econômica atribuída, especialmente quando postas em relação uma à outra, entre pessoas brancas e negras. Essas evidências práticas podem ser constatadas a partir da manutenção histórica de um quadro de desigualdade social similar ao do contexto colonial. Capital racial é uma propriedade essencialmente relacional, assim como qualquer outra propriedade do capital simbólico. Por se situar na categoria de capital simbólico, o capital racial, enquanto propriedade intrínseca das relações sociais compreende as classificações e hierarquizações que se observam nas distinções imputadas à população negra, que, por sua vez, expressam um conjunto de valorações morais e competências sociais, parte da luta de classes que determina ou condiciona o valor no mercado (das trocas simbólicas e econômicas). Conforme ressalta Bourdieu (1996), o mercado das trocas simbólicas e o mercado das trocas econômicas funcionam como entidades intimamente interligadas e intrainfluentes, condicionadas pelos mesmos princípios de atribuição de valores socialmente praticados a partir de acordos tácitos. Assim, o valor (“o preço”) das coisas característica própria da economia das trocas econômicas, por oposição à economia de bens simbólicos, funciona como uma expressão simbólica do consenso sobre a taxa de troca envolvida em troca econômica. Esse consenso sobre a taxa de troca está presente também em uma economia das trocas simbólicas, mas os termos e as condições aí são implícitos (BOURDIEU, 1996, p. 162).

A construção social que faz com que a cor da pele atue como um signo na sociedade brasileira, estabelecendo assimetrias a partir desse critério, o situa na fronteira entre o simbólico e o material, e determina a produção de mais valor à medida em que tem sua condição regulada ou oficializada pelo Estado. A exploração da população negra nas Américas tem como principal produto da colonização, que hoje rende mais lucros que naquela época, uma expressiva exploração das representações sociais que inferiorizam e imobilizam essa parcela da população. Dessa forma, o capital racial pode ser o marcador que define acessos (pessoas brancas) ou limitações (pessoas negras). Nessa linha de pensamento, raça, que se insere na intimidade da classe, define privilégios de um lado e exclusões de outro. No transcurso histórico da sociedade brasileira houve uma construção em torno da ideia de raça, definida por características fenotípicas, que se opera no plano das relações sociais que a transformou no principal capital simbólico produtor de valores no âmbito das relações sociais e econômicas.

Abordagem policial : um mecanismo de controle e depreciação da identidade

A polícia brasileira, muito antes de sua instituição formal, já tinha nos capitães-do-mato um formato de procedimentos para atuação no controle social. Lembrando que havia um perfil específico de pessoas sobre o qual deveria agir os dispositivos de controle. Como as práticas desse campo, que originou a segurança pública, já se encontravam plenamente legitimadas pela sociedade, elas transitam para o Estado Democrático de Direito com todas as suas peculiaridades. O saber-fazer de seus precursores vem sendo o principal veículo de treinamento dos profissionais que adentram esse campo (SINHORETTO, 2013), da colônia à contemporaneidade.

O Estado brasileiro (organização burocrática) foi criado por uma elite branca e escravocrata, sua configuração é a fonte de manutenção do poder e a instância de legitimação e imposição do capital cultural de um grupo. O Estado se torna o principal mecanismo de reprodução e manutenção da ordem social, considerando que a própria construção do Estado é acompanhada de um transcendental histórico comum, imanente comum a todas/os (BOURDIEU, 2014). Dessa forma, é o principal responsável pela inculcação de formas e categorias de percepção e do pensamento comum, através de “golpes de Estado ” mobilizados a partir dos quadros sociais da percepção que animam as estruturas cognitivas que ordenam e classificam o mundo social. “Deste modo, o Estado cria as condições de uma orquestração imediata do habitus que é ela própria o fundamento de um consenso sobre esse conjunto de evidências partilhadas que são constitutivas do sentido comum” (BOURDEIU, 1998, p. 155). É através da imposição de um capital simbólico que um grupo assegura privilégios em uma sociedade. A garantia desses privilégios está associada aos significados em torno de cada grupo que está representado por uma construção identitária histórica e publicamente afirmada. Segundo Elias (1997), o monopólio da força física é uma invenção social não-planejada que “surgiu gradualmente no transcurso de centenas de anos como parte de um processo social a longo prazo, até que atingiu o nível de hoje” (ELIAS, 1994, p. 162). Para Davis (2018), o enraizamento de ideologias que sustentam a violência de Estado não é abordado com seriedade, uma vez que tem origem na colonização e escravidão.

Ao se deparar com meu currículo, uma vez que perguntou quem eu era, o soldado da PM apresenta indícios de um desequilíbrio emocional após ter escutado: “Sou servidor público assim como você, graduado em Serviço Social pela Puc minas, Especialista em segurança pública e estudos de criminalidade pela UFMG e Mestre em Ciências Sociais pela Puc Minas”. Numa atitude automática e irrefletida, o policial responde: “Muito prazer, sou Fábio Pereira Silva , filho de Noemi, sou formado em direito pela UFMG”. Não contente em levar para o lado pessoal e nos equiparar, o soldado da PM inicia uma série de pretensas ofensas na tentativa de desqualificar minha posição social: “tudo que você falou para mim aqui é uma bosta…ah, então é por isso a sua arrogância, porque você passou num concursozinho da prefeitura de Belo Horizonte e acha que é alguém?!” segue o soldado da PM: “Ele é desaforado por causa disso, ele é empregado público”. O soldado da PM cria uma categoria para seguir em suas tentativas de desqualificação: “Você sabe a diferença de empregado e servidor público?” Novamente o policial pergunta sobre minha formação acadêmica e segue em sua empreitada: “coisa de maconheiro mesmo né!?” Ele ainda tenta pedir desculpas à minha namorada: “desculpa viu senhora, se eu estou faltando com o respeito com ele viu”, e continua: “coisa de maconheiro mesmo né rapaz, ciências sociais”. Após a sessão de depreciação desferida pelo soldado, simultânea ao procedimento de busca realizado pelo Cabo, este toma a frente e seguem com as estratégias de coação e ameaças.

Quando comparamos as abordagens, percebemos um gradiente de violência exponencialmente superior. Ao tentar justificar a ação, os policiais dizem que alguém os informou que eu estava fumando maconha ali no local. O interessante foi que após abordar o jovem branco, o grupo de adolescentes, majoritariamente negros, e a mim, que estava acompanhado de minha namorada, ambos negros, um grupo de jovens brancos (aproximadamente oito) que estava na praça não foi abordado. Mesmo os policiais não tendo encontrado nada ou sequer identificado indícios da prática até ali, os jovens brancos não foram incomodados pelos policiais. O real é relacional, e o racismo se torna mais nítido nessa perspectiva.

A abordagem policial é um mecanismo de controle social, de desarticulação simbólica e subjetiva. A violência psicológica extrema e extenuante que compõe suas estratégias se traduz em um mecanismo de dissuasão, coação e humilhação de grande impacto na vida de uma pessoa. Isso acrescido às violências físicas, sejam as sutis, como os apertões nas mãos e dedos entrelaçados, os toques rudes pelo corpo, os chutes nos tornozelos, compõem a orquestra que prenuncia algo mais drástico. Esses ataques anunciam a destruição do corpo negro que pode estar em vias de acontecer.

A mudança nas denominações das categorias profissionais, e depreciação da formação acadêmica, para categorias consideradas pejorativas e desmoralizantes, na visão dos policiais, cumpre a dupla função de desarticulação simbólica e subjetiva, ao depreciar a identidade e produzir legitimação para as violências, atribuindo o caráter de oficial por ser perpetrada por agentes de Estado. Segundo Bourdieu (2014), o professor tem o poder de criar realidades sociais por ser um agente mandatado pelo Estado. Igualmente devemos considerar o policial.

A diferença constata nas abordagens realizadas evidencia como o capital racial atua condicionando as mentes e fazendo o corpo agir de acordo com a percepção que se tem de cada representação. A discricionariedade policial se encontra rigidamente comprometida com o código de comportamento do brasileiro. O policial, enquanto um operador dos mecanismos do Estado e mandatário do monopólio legítimo da violência, não pode ser entendido como uma “força da natureza” (COATS, 2015), mas sim como o detentor do poder de naturalização das construções sociais e da força dos anseios de uma sociedade.

Quando o policial aborda, sistemática e exclusivamente jovens negras/os nos espaços públicos, está criando e oficializando uma realidade social através da citacionalidade (BUTLER, 2000), que fixa nesses corpos a representação social do suposto perigo urbano. A citacionalidade sistemática posta nas identidades desses jovens produz o efeito do “é assim” (BOURDIEU, 2014) por se tratar de uma teatralização realizada publicamente pelo representante do Estado e designado para a função que supostamente visa garantir a segurança dos cidadãos.

A relação de ataques direcionados à identidade negra fica mais evidente quando pensamos na ausência de atuação da polícia direcionada às/aos jovens brancas/os de classe média ou alta. Se por um lado a citacionalidade sistemática marca e oficializa a identidade negra em uma representação negativa, por outro, o obsequim (BOURDIEU, 2014) cumpre o sentido oposto. Portanto, obsequium, pode ser compreendido como respeito puro pela ordem simbólica diante da ordem estabelecida a partir das construções sociais […] respeitando-as, presta-se uma homenagem não à pessoa que na aparência se respeita, mas à ordem social que torna essa pessoa respeitável. A exigência tácita mais fundamental da ordem social é isso (BOURDIEU, 2014, p. 69).

A plena mobilização do capital racial, a partir do qual, cor da pele assume o status social de signo, o obsequim se traduz no reverenciamento cordial padrão esperado, e representa o equivalente ao respeito à ordem social que torna tal signo (cor da pele branca) impermeável à “sujeição criminal” (MISSE, 2014). O policial não admite minha posição social, talvez “a geografia [do meu] corpo não indica isso” (MUNANGA, 2012), e volta a se indagar: “então sua arrogância e petulância vem do fato de você ser servidor público?” Perguntei então o que estava categorizando como arrogância e petulância, o soldado responde: “tom de voz, sentir-se superior”, e volta a me ameaçar: “toma cuidado com essa arrogância sua viu”. Como resposta, apenas o informei que, o que alegava ser arrogância, petulância e senso de superioridade, se dava pelo simples fato de eu ser um cidadão e ter ciência dos meus direitos, e compreendia as funções do policial enquanto um servidor público. Após ouvir isto o policial retoma sua retórica: “eu acho incrível a capacidade que pessoas como você (leia-se, negras), com a sua escolaridade, têm de se vitimizar. Eu acho isso incrível, cara. Eu acho isso incrível”.

Diante do fato de não conseguirem motivos para me levar preso, como literalmente dito pelo cabo a PM: “Nós procuramos um motivo para te conduzir, mas não encontramos”, a alternativa foi ameaçar. Síndrome de capitão-do-mato (FLAUZINA, 2006). Numa atitude impositiva, invasiva e extremamente violenta, o soldado da PM apertou meu ombro direito e disse: “Não se esqueça que sabemos onde você mora”. Acho desnecessário refletir sobre estas palavras diante do ocorrido. Finalizando a abordagem, o cabo faz um discurso sobre o fazer policial, e que esta seria a forma de alcançar seus resultados. Enfatizam que tiram a intimidade das pessoas como foi conosco. Contudo, a abordagem policial não se resume em tirar a intimidade das pessoas. Talvez este seja o procedimento realizado com pessoas brancas, como foi o caso do jovem branco abordado, diferente de mim e das/os adolescentes negras/os, e extremamente diferente do grupo de aproximadamente oito jovens brancos que bebiam e conversavam em outra mesa, que os policiais não abordaram. Segundo os policiais havia uma suposta denuncia de uso de drogas no local. Nada foi identificado ou encontrado com as pessoas abordadas, porque os jovens brancos não foram então abordados igualmente? obsequim!

Precisamos compreender o sentido dessas ações, supostamente individualizadas, e seus impactos na coletividade da população negra para traçarmos estratégias práticas e efetivas de combate ao racismo e à violência de Estado. Toda violência tem uma finalidade que não reside no próprio ato de violência.

A imagem da pessoa negra, com baixa escolaridade, inserida em atividade laboral considerada de status inferior ainda permeia o imaginário social brasileiro, que não tem lidado bem com a mudança em curso. As tentativas de aviltamento e desqualificação por parte do soldado não cessaram em nenhum momento da abordagem e desvelam as bases da estrutura social, do código de comportamento brasileiro.

A função que cumpre o genocídio da juventude negra é de oficialização da presunção de culpa da/o jovem negra/o, ao passo que legitima, com a capa obscurantista da legalidade, as execuções sumárias comentidas pelos agentes do Estado. “Essa é a filosofia dos descorporificados […], que são destinadas a temer […] a polícia que age soberana acima delas com toda autoridade moral de uma gangue de proteção” (COATS, 2015, p. 88). Há uma condição de suspeição que é levada às ultimas circunstâncias pela polícia que não se encerra no ato de abordar, e pelos próprios motivos inferidos ao ato o torna violento.

Se erradicar o racismo de nossas mentes e práticas é ainda algo pouco provável, mesmo sendo a segurança pública uma política pública, urge pesarmos em formas de fazê-la funcionar como tal e em mecanismos de controle das práticas de seus agentes, que investidos de um suposto poder conferido pelo Estado, e uma autorização para matar, se colocam como entidades acima do bem e do mal, uma espécie de seres intangíveis pela dimensão material e normativa do Estado Democrático de Direito.

A Liberdade é uma luta constante! (DAVIS, 2018)

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção: homo sacer, II, I. São Paulo: Boitempo, 2004.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: companhia das letras, 1989.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Betrand, 1989.

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. 4ª ed. São Paulo: Papirus, 1996.

BOURDIEU, Pierre. Sobre o Estado. 1ª edição. São Paulo: companhia das letras, 2014.

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, Guacira Louro. O corpo educado. Pedagogias da sexualidade. 2ª Edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

COATES, Ta-nehisi. Entre eu e o mundo. 1ª ed. Rio de Janeiro: objetiva, 2015.

COSTA, Jair da. Genocídio: o apagamento de uma identidade. 2018. 473 f. Dissertação (Mestrado) Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, 2018. Disponível em: <http://www.sistemas.pucminas.br/BDP/SilverStream/Pages/pg_ConsItem.html>. Acesso em 06 Ag. 2018.

DAVIS, Ângela. A Liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018.

ELIAS, Norbert. A Sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

ELIAS, Norbert. Os Alemães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

MISSE, Michel. Sujeição Criminal. In: LIMA, Renato Sérgio; RATTON, José Luiz; AZEVEDO, Rodrigo Chiringhelli (Org). Crime, Polícia e Justiça no Brasil. São Paulo: Contexto, p. 204-226, 2014.

MUNANGA, Kabengele. Nosso racismo é o crime perfeito. [S.l]: Revista Fórum, 2012.

QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Clacso. 2005.

SANTOS, Antonio Bispo dos. Colonização, quilombismo: modos e significações. Brasília, 2015.

SINHORETTO, Jacqueline et al. A filtragem racial na seleção policial de suspeitos: segurança pública e relações raciais. Relatório final de pesquisa. Ministério da Justiça-SENASP/UFSCar, 2013. 347p.

Notas
Considero como uma metáfora da iminência da destruição do corpo do jovem negra/o e das/os negras/os de forma geral, ampliando o contexto da canção dos Racionais MC’s.

A região foi ocupada por famílias majoritariamente negras em busca de trabalho e atuavam na linha férrea. Hoje resistem aos processos de imposição do capital (gentrificação/embranquecimento) pela apropriação dos melhores espaços da cidade.

O conceito de capital racial foi desenvolvido por Costa (2018), fruto de sua dissertação de mestrado.
Partes da abordagem foi filmada e os encaminhamentos de registro da denuncia contra os policiais estão sendo providenciados.

Todo ato perpetrado por agente constituída/o de função pública no âmbito de uma instituição que tende a oficializar representações oriundas das relações sociais. Ver Bourdieu (2014).

Nome fictício.

Entendida como um espaço de liberdade não demarcado pela lei, ou mesmo que seja demarcado, porém, uma margem de liberdade conferida ao agente público, no caso o policial, para que cumpra seu trabalho.

Trata-se de um poder de escolha em agir ou não, que lhe compete a decisão sobre os direcionamentos a serem aplicados em determinadas situações sem que extrapole a legalidade.


Foto: Palestra sobre a formação do Estado brasileiro na faculdade de medicina da UFMG, para o Grupo de Estudos Negritude e Interseccionalidade – GENI


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