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Star Wars despertou a força, mas ainda precisa despertar para uma imagem mais justa e equilibrada do negro

Depois da polêmica envolta no filme Star Wars, logo que se começou a discutir nas redes sociais sobre as novidades que o mesmo traria (dois protagonistas que reverteriam a ordem das coisas para os fãs desta saga cinematográfica), fui consumido pela curiosidade.

Enviado por Felizardo Tchiengo Bartolomeu Costa via Guest Post para o Portal Geledés 

Então, no fim de semana, aproveitando a estréia, decidi ir ao cinema assisti-lo. De qualquer modo, pelo menos teria como participar das conversas, da semana, pois ao que tudo indica, este já é o trendtopic do momento.

Devo dizer que foi um momento muito bem aproveitado. O filme não deixou a desejar. Os efeitos, o roteiro, tudo pareceu bastante comedido e genialmente produzido. Contudo, eu estava curioso para ver além dos efeitos.

Queria saber, porque tanto reboliço em volta destes personagens. Se houve uma grave transformação de papéis, que ao menos justificasse os ataques racistas que o filme recebeu quando ainda só o trailer havia sido apresentado. Tive o deleite de vê-lo e cheguei às seguintes conclusões, considerando principalmente como os dois personagens (a mulher e o negro) foram retratados, pois este era meu maior motivo de curiosidade.

Quanto à Daisy Ridley, (a Rey), acho que foi possível construir um personagem que realmente fugisse dos estereótipos. Era o inverso da fragilidade, muito determinada, altamente criativa e inteligente, não cedia à pressão nos momentos mais tensos, pelo contrário, sempre se podia contar com a sua pragmaticidade, ou seja, uma mulher nada parecida àquelas caricaturas que poluem as telas de grande parte dos filmes comerciais.

Já quanto ao Finn (John Boyega), não fiquei nada surpreendido pelos motivos que colocarei a seguir. Contudo, acho importante começar dizendo, que achei fantástica a existência deste personagem, a produção do filme fez realmente um serviço interessante, afinal, em poucos lugares se consegue uma visibilidade tão grande quanto numa produção hollywoodiana e garantir isso para um ator negro é no mínimo louvável.

Como dizia, fiquei um pouco triste em observar que apesar de tudo, o papel de Fin não fugiu tanto quanto esperava dos estereótipos do negro, trazendo de forma marcadamente forte vários elementos negativos:

1. A identificação com uma história de subjugação total: Fin foi criado para ser um escravo da 1ª ordem, tratado como gado, educado/domesticado para servir, sem direito à reconhecimento de algum lugar que fosse diferente da servidão. Aqui alguns podem achar que eu estou julgando injustamente, pois vários dos stormtroopers poderiam ser brancos, porém, em minha opinião, o fato de apenas o negro ter sido identificado, ter o rosto revelado é deverás significativo;

2. Se reforçam outros exemplos degradantes, como, o fato de o mesmo estar constantemente em fuga, lembrando inclusive a saga de Jim o escravo obra de Mark Twain, “As aventuras de huckleberry Finn”. Nela Jim, não podia sossegar em nenhuma das cidades em que ele e o seu amigo Huck (branco) visitavam, pois o medo ser recapturado o assombrava constantemente. O mesmo com Fin, que o medo de ser reencontrado pelos seus algozes da 1ª ordem, não o deixava ter nenhuma atitude nobre, ou altruísta. Rey só queria voltar para casa, enquanto Fin, não só não tinha uma casa, como só lhe restava fugir;

3. Outra caracterização reforçada no filme é a do negro como sem caráter, pois desde o início ele mente sobre sua real identidade apenas para ficar nas boas graças dos outros. Mente sobre ser da resistência para Rey e depois para Han Solo e mais tarde mente sobre o seu conhecimento a respeito do funcionamento da arma para conseguir ir até ao planeta por causa de Rey, mas tarde vê-se obrigado a confessar para Han Solo, que ele era o cara da limpeza, pois Han Solo não acreditava que Fin pudesse saber tanto sobre um assunto tão complexo (tecnologia). Apenas ao explicar qual era realmente o seu trabalho, é que este último parece ver as coisas finalmente fazerem algum sentido;

4. Outro problema: o heroísmo do rapaz tinha sempre que ser atestado por mais alguém. Ele nunca era confiável. É interessante porque pelo menos em duas oportunidades, ele precisou da confirmação de uma máquina (BB-8) e de uma de um animal (Chewie, o companheiro de Han Solo). Ou seja dois seres que não eram sequer humanos é que tinham que atestar a humanidade de Fin;

5. Interessante também foi observar que durante todo o filme apresentou-se uma grande diversidade de criaturas, extraterrestres, mas apenas um negro em destaque, o outro eventualmente negro que eu consegui ver no filme, foi em momentos que quase não eram distinguíveis pela duração da cena;

Então, mesmo concordando que Star War: O despertar da força é um filme fantástico e não deixando de louvar a “ousadia” de J.J. Abrams ao incorporar protagonistas diferentes, minha opinião é que ainda se pecou bastante na representação do negro. Vi com certeza um ator negro com um grande destaque, mas também a mesma caricatura do homem negro que infelizmente não faz uma representação justa e equilibrada da população negra.

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