terça-feira, setembro 21, 2021
InícioQuestões de GêneroSueli Carneiro"Terra Nostra" só para os italianos, por Sueli Carneiro

“Terra Nostra” só para os italianos, por Sueli Carneiro

A mensagem subliminar é a de uma suposta resignação dos negros à escravidão 

por Sueli Carneiro no Folha de São Paulo em 27 de Dezembro de 1999

Em um recente seminário em Brasília, o deputado Aloizio Mercadante comentou sobre o impacto positivo que a novela “Terra Nostra” tem tido sobre a auto-estima da comunidade italiana. Auto-estima que, de tão elevada, estaria promovendo a revitalização das festas tradicionais da comunidade. Os negros, ao contrário, permanecem se defrontando nessa novela com as questões básicas que envolvem as suas contradições com a mídia em geral: a invisibilidade ou a visibilidade perversa, recheada de estereótipos.

O sociólogo Muniz Sodré diz que a TV brasileira está para o negro assim como o espelho está para o vampiro. O negro olha: não se reconhece, não se vê! Em “Terra Nostra”, o barão do café pondera com seu contratador sobre a impossibilidade de abrigar os italianos nas senzalas desertas pela abolição. Diz ele: “São brancos. Trazem no coração o espírito da liberdade. Não vão aceitar essa história de senzala”.

Em outro momento da trama, assistimos a o menino Tiziu reclamar de sua sorte ingrata com a seguinte frase: “Deus não quis me embranquecer”. Imagine o impacto dessas frases na auto-estima da comunidade negra, especialmente sobre as crianças negras.

Num diálogo entre o negrinho Tiziu e o italiano Matheu, o menino diz ao italiano que se ele não se comportar direito o capataz o colocará no tronco como fazia com os negros. Matheu, o herói italiano, reage dizendo que, se o capataz tentar colocá-lo no tronco, será um homem morto.

Essa é a chave explicativa dessas construções estereotipadas. A mensagem subliminar é a de uma suposta resignação dos negros à escravidão, cujo sentido é o de ressaltar a bravura, o orgulho e a garra do branco imigrante, que jamais se submeteria aos tratamentos dispensados aos negros. Garra, orgulho e bravura seriam atributos que só a brancura pode dar.

Considerando que os personagens negros não têm relevância na trama, a sua presença e a imagem negativa que veiculam prestam-se unicamente a ratificar a suposta superioridade do branco.

A subserviência e o infantilismo dos personagens negros reiteram a visão preconceituosa de uma humanidade incompleta do negro, que se contrapõe à completitude humana do branco, mesmo que sejam brancos de classes subalternas, como é o caso dos imigrantes de “Terra Nostra”.

Essa estereotipia justifica a exclusão e a marginalização histórica do negro. Ela legitima um projeto de nação que vem sendo construído nestes 500 anos: de hegemonia branca e exclusão ou admissão minoritária e subordinada de negros, indígenas e não-brancos em geral. E é esse projeto de nação que o imaginário televisivo busca consolidar para o próximo milênio.

Um projeto que faz, intencionalmente, uma leitura do passado que omite a violência da escravidão e as diversas formas de resistência a ela desenvolvidas pelos negros, a abolição inconclusa e o papel da imigração na estratégia das elites de branqueamento da nação. E quando reconhece alguma dessas questões o faz por intermédio de personagens brancos, consubstanciando uma imagem estigmatizadora do negro como um ser que tem de ser tutelado pelo branco.

Um projeto que invisibiliza as lutas do presente por igualdade de direitos e oportunidades e pela afirmação da identidade étnico-cultural, as reivindicações de políticas públicas inclusivas, os exemplos heróicos de sobrevivência numa sociedade hostil e excludente em relação aos negros.
A reflexão do deputado federal Ben-Hur Ferreira (PT-MS) sintetiza o sentido último dessas imagens: “Tendo como pano de fundo, inequivocamente, as comemorações dos 500 anos, a novela opta por uma leitura do passado que reforça a violência racial do presente e retira qualquer possibilidade de futuro em igualdade de condições de cidadania para milhões de brasileiros não-brancos”.


Sueli Carneiro, 49, filósofa, pós-graduanda em filosofia da educação pela USP (Universidade de São Paulo), é coordenadora-executiva do Programa de Direitos Humanos/SOS Racismo do Geledés Instituto da Mulher Negra.

 

RELATED ARTICLES