segunda-feira, setembro 20, 2021

Um monumento levantado

Não queremos morrer nem de vírus, nem de fome, nem de tiro!
Wesley Teixeira, em manifestações do movimento negro em 2020, em protesto contra a morte do menino João Pedro, assassinado dentro de casa durante operação policial.

Em um monumento à história do Brasil, a Enciclopédia negra, livro de Flávio Gomes, Lilia Schwarcz e Jaime Lauriano, escreve e reescreve a trajetória de 550 personagens que marcaram o país. Trata-se de um exercício prático de reparação histórica, porque muitas das figuras que encontramos nas mais de setecentas páginas são quase ou totalmente desconhecidas pela maioria da população. As pessoas negras que agora temos a oportunidade de conhecer nunca foram coadjuvantes, mas acabaram tendo sua existência apagada. Os ícones não ficam de fora, contudo não são o foco da obra publicada agora pela Companhia das Letras.

O verso “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, do samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira no Carnaval de 2019, ganha outras camadas em retratos feitos por diversos artistas e em dados sobre lugares e épocas que colocam novos personagens no mapa histórico, ao identificar atores revolucionários negros que antes não tinham rosto. “Não é só a história brasileira do negro, mas é a história do Brasil”, reforça Gomes à Quatro Cinco Um.

Cada vida contada, certamente, rende novas biografias, livros didáticos, séries, podcasts, nomes de praças e ruas. Os mesmos monumentos que foram derrubados mundo afora nos últimos anos, por serem considerados racistas, poderiam no Brasil ser substituídos pela Rainha Marta dos Quilombolas Iguaçu, que comprou a alforria de sua família sendo comerciante, ou por Inácio Monte, que, vindo da região do que conhecemos hoje por Benin, participa de uma irmandade fundada em 1740 com africanos de Cabo Verde e São Tomé e encontra no contexto da mineração sua companheira Vitória da Costa, que é descendente de um rei da Costa da Mina. Africanos dos dois lados do Atlântico atualizaram alianças, redes de proteção e disputas por prestígio. Na irmandade de Inácio, reuniam-se escravizados e libertos e, em muitos casos, libertavam-se no amor.

Humanidade

A pele negra ganha outras características além da dor e da exclusão. Nossa gente apresenta-se no cenário das lutas e dos conhecimentos científicos e artísticos. O livro evidencia a nossa capacidade de nos organizarmos pelo direito e pela política, além de conduzirmos a nossa sociedade em um rumo menos desumano.

Enciclopédia negra contempla o esforço de não generalizar personalidades, profissões ou qualquer outro modelo organizativo. Os verbetes trazem a humanidade de volta a cada personagem e explicam comportamentos que temos até hoje. Edson Cardoso, editor do jornal Ìrohìn e doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que existe o racismo, mas que há também um esforço organizado da população negra para confrontar as ideias do racismo. Gomes e Schwarcz lembram que essa obra só foi possível graças ao trabalho de intelectuais negros, principalmente os que se formaram nos últimos vinte anos.

Lendo a enciclopédia, descobrimos que Minervino de Oliveira foi um líder operário do Partido Comunista e o primeiro negro candidato à Presidência do Brasil, em 1930. O humorista Mussum passou pela Aeronáutica antes de formar Os Originais do Samba e, nas últimas décadas de vida, lotou os cinemas brasileiros. Todos aqui são protagonistas da própria vida e, figuras públicas ou não, anulam a ideia de anonimato. O próprio Flávio Gomes resgata a história de sua avó, Dionísia. Anônimos para quem? Certamente não para seus pais, filhos, companheiros, vizinhos e amigos. Amarildo, Mestre Irineu (criador do santo-daime) e Garrincha são recortes de masculinidades negras mais complexas do que o olhar que a branquitude tem sobre nós.

Assim como é distinta a música de Itamar Assumpção e de Dona Ivone Lara, o mesmo acontece com a literatura de Cruz e Sousa e Maria Firmina dos Reis. Entre rebeldes, professores e advogados, os séculos de história confirmam que o maior tesouro está nas estratégias de sobrevivência e criação de novos mundos realizados pela população negra, preservando o nosso próprio universo ou formando um que dê conta das nossas demandas.

Nossas vidas importam

A obra dá corpo a palavras, histórias e dados que foram fruto de seis anos de costura dos autores, que trazem figuras como Zumbi dos Palmares e Mãe Beata, passando por Abdias Nascimento — que, como um Exu, abre o livro. Esses personagens gravam a pluralidade do Movimento Negro, que se une ao redor de uma reivindicação comum: nossas vidas importam. Canetas, baquetas, colheres de pau e saberes ancestrais sintetizam nossos passos desde antes da chegada da primeira caravela até o assassinato de Marielle Franco, no Estácio, em 2018. O livro resgata lutas de mulheres pela sua própria liberdade e pela de seus filhos, enfrentando seus algozes.

Marielle não é apenas a vereadora que foi assassinada há três anos: é uma mulher negra, cria da Maré, filha da dona Marinete e do seu Toinho. Irmã da Anielle e mãe da Luyara, Marielle foi bolsista na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio pelo ProUni, trabalhava com direitos humanos e vivenciava a realidade fluminense na sua camada mais crua. Ela atendia desde familiares de mortos pela polícia até mães e esposas de policiais militares assassinados. Tornou-se semente para uma geração de mulheres negras que se elegeram no ano passado e para muitas outras que virão. O livro demanda muito fôlego de quem lê: são inúmeras vidas e milhares de histórias que podem ser conhecidas e contadas de diferentes maneiras. São vidas com ciclos completos, atravessadas por tragédias e glórias.

A roda das mulheres negras congrega a ativista e filósofa Lélia Gonzalez, a psiquiatra Neusa Santos Souza, que expôs as complexidades de ser negro e ascender socialmente por aqui, e a socióloga Luiza Bairros, ex-ministra do governo Dilma. Reúne também a compositora Chiquinha Gonzaga e Claudia Silva Ferreira, bisneta de libertos ex-escravizados do Vale do Paraíba, que foi morta há sete anos pela polícia, deixando quatro filhos. Atingida por um tiro, ela foi jogada no porta-malas de uma viatura que se abriu e a arrastou por 400 metros. Os culpados nunca foram responsabilizados.

Memória e identidade

Entre 1855 e 1856, Pretextato dos Passos e Silva instalou em sua casa, na rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, uma escola para meninos pretos e pardos. “A iniciativa de Pretextato sugere as expectativas de ampliar as experiências de liberdade por parte de uma população negra que não pretendia ficar aprisionada por estigmas de cor, mas queria manter e ampliar sua memória e identidade”, detalha o livro. Lima Barreto e Machado de Assis desfilam na mesma avenida que Madame Satã, a primeira artista travesti do Brasil.

Ela também exercia a função de protetora dos moleques perseguidos da Lapa. Ficou presa por mais de 27 anos e foi filha de santo de Joãozinho da Gomeia. O babalorixá se encontra com várias outras lideranças religiosas na gira dessa grande encruzilhada do livro: Mãe Beata de Yemanjá (Ilê Omiojúàrô, no Rio de Janeiro) organizou mulheres negras e escreveu livros, além de ser uma forte voz contra o racismo religioso; Mãe Aninha (Axé Opô Afonjá, da Bahia), Mãe Stella de Oxóssi, Mãe Menininha do Gantois e Olga do Alaketu são outras mulheres que fazem coro à importância das religiões de matriz africana na luta e na formação da identidade do povo negro.

Milton Santos e Marighella partilham o terreiro comum da cidade de Salvador. Enquanto o último empunha o manual do guerrilheiro urbano, o primeiro se utiliza da geografia humana para difundir pelo mundo uma outra lógica de desenvolvimento, ganhando, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud. Também na Bahia está Luiza Mahin, líder da Revolta dos Malês, que agora terá sua história adaptada para a TV Globo, a partir do livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (Record, 2006). Ela também foi mãe de Luiz Gama, importante abolicionista do século 19.

O livro demanda fôlego de quem lê: são inúmeras vidas que podem ser contadas de diferentes maneiras

José Ezelino foi um dos primeiros fotógrafos negros do Brasil, de Caicó, no Seridó do Rio Grande do Norte, e teve sete irmãos livres, num ambiente predominantemente feminino no qual aprendeu a bordar e costurar. Um vizinho o presenteou com uma câmera pouco tempo depois de o jovem se encantar pela técnica, e todos os anos Ezelino ia ao Recife e ao Rio de Janeiro para comprar materiais fotográficos. Improvisador, tinha um rigor na criação de cenários e na preparação de seus modelos. São dele os primeiros portraits de negros do Norte do país.

Mais que uma enciclopédia, que por si já é uma ousadia, o livro será tema de uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, a fim de democratizar seu conteúdo para escolas públicas e particulares. É o início de um movimento que deve unir a sociedade em um resgate histórico comum. A falta de imagens dessas figuras históricas não impediu que artistas imaginassem como elas seriam fisicamente, dando rosto e corpo a quem antes era intencionalmente invisibilizado. Os retratos feitos por artistas como Mulambö, Panmela Castro e Elian Martins foram viabilizados graças a uma parceria com o Instituto Ibirapitanga.

Esses são os protagonistas de episódios decisivos da historiografia brasileira. São rostos pretos diversos em idade, período histórico e campo de atuação. Foram os primeiros homens e mulheres negros a realizar importantes feitos em muitas áreas. Participaram ativamente de revoltas, lutaram pela conquista da abolição. Insurgentes, questionaram as leis injustas que os privaram de suas liberdades; foram os sujeitos das suas próprias histórias, mas preservaram a dimensão do coletivo no centro de suas ações. E foi com essa perspectiva coletiva que seguiram firmes e conquistaram direitos não só para si, mas para o grupo racial do qual fazem parte. (Colaboração de Gustavo Zeitel, Juam Ferreira, Sharah Luciano e Tatiane Alves).


Flávio Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz
Enciclopédia negra: biografias afro-brasileiras
Companhia das Letras • 720 pp • R$ 89,90

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