Wesley Barbosa, um escritor guardador de memórias e detalhes

Em sua quinta publicação e com cerca de 10 mil livros vendidos, autor paulista é nova promessa no mundo da literatura

A primeira leitura que fiz dos livros de Wesley Barbosa foi a partir do romance “Viela Ensanguentada”, logo após o seu lançamento, pela Ficções, em 2022. De lá para cá, tenho lido suas obras com certa frequência e acompanhado seus bem-sucedidos passos como autor, especialmente nos eventos literários, dentro e fora de São Paulo.

Wesley Barbosa é o tipo de escritor que empreende sua literatura, por onde passa e circula. Está sempre interagindo, conversando, expondo ou vendendo suas obras, com grande êxito nessa função.

No caso de “Viela Ensanguentada”, de certa forma me vi no personagem do Mariano, protagonista do romance —um ser apaixonado pelos livros de uma biblioteca municipal. Quando me iniciei no mundo da leitura, ainda um leitor em formação, também me apaixonei pelos livros deixados pelo meu pai, morto quando eu tinha de nove para dez anos —idade próxima do garoto da história.

Na minha casa, como na maioria das casas de gente pobre suburbana, livros em geral eram vistos mais como objetos de decoração do que de leituras. Mexer ou abrir um livro era quase um ato de sacrilégio —sob a advertência de “não estragar”. No entanto, os livros deixados pelo meu pai, não só os manuseei muito como também os li alucinadamente. Fui uma espécie de Mariano às avessas, desde aquela época.

Lendo o novo romance de Wesley Barbosa, “Pode me Chamar de Fernando”, publicado agora pelo seu próprio selo, Numa Editora, recordei o tempo emocional da leitura dos primeiros livros, quando passei a me fascinar com o contato com a escrita e as histórias contadas através de personagens e suas aventuras. Cedo também fui um escritor precoce —escrevia diários e arranhava poesias.

Wesley Barbosa traz consigo um jeito nobre de contar suas histórias —é coloquial e lírico ao mesmo tempo. Há nele sugestiva fabulação nos enredos, que lidam com ambientes humildes, pessoas simples, gente da favela, que são, todas, carregadas da esperança de viver.

O personagem central de “Pode me Chamar de Fernando”, cujo nome dá título ao livro, é um menino negro e pobre, com histórico de pai bêbado e violento, que vive a dor de não saber quem é a mãe. As pistas deixadas pelo autor dão conta de que se trata de uma prostituta, outra é que ela teria morrido no parto da criança —agora um moleque franzino com cara de fome.

O pai de Fernando, Vicente, é aquele homem curtido pela dureza da vida. A maior parte da história está desempregado e fazendo biscates, ou sendo despejado por não pagar o aluguel dos barracos onde reside com o filho, a quem se nega a perfilhar.

Nisso Fernando vai experimentar o abandono, o roubo de sua infância perdida e a frieza de dormir sob marquises e ao relento, tendo como colchão pedaços de papelão e alimento, pães dormidos ou o que encontra descartados nas latas de lixos.

Narrado na primeira pessoa, “Pode me Chamar de Fernando” está carregado de um sentimento de compaixão e perdas. Ao mesmo tempo, é um livro de propósitos. Wesley Barbosa é um autor que escreve com a missão de dar a sua literatura um sentido nobre, transmitir uma mensagem alvissareira e propor lições para um mundo tão humanizado.

Padrão de suas narrativas, o autor tem personagens quase únicos, que contam suas histórias do ponto de vista pessoal —isto ocorre também com Mariano, de “Viela Ensanguentada”, e Joaquim, do seu dostoievskiano “Parágrafos Fúnebres”, escrito durante o estertor da pandemia de coronavírus.

Com cinco livros na sua bagagem literária, iniciada com “O Diabo na Mesa dos Fundos”, Wesley Barbosa tornou-se, como ele mesmo diz, “um guardador de memórias, miudezas e detalhes”, a partir do que vai escrevendo.

Sem dúvida é uma escrita necessária, que nos prende e sobressalta, denunciadora da triste realidade da vida desigual e excludente. Não é à toa que já coleciona elogios, como o de Mário Bortolotto —que chama o que ele escreve de “narrativa crua e visceral”. Wesley Barbosa já ultrapassou, aos 34 anos, sendo oito de carreira, a marca dos 10 mil exemplares vendidos. É bom ficar de olho nele. Parabéns.


Tom Farias

Jornalista e escritor, é autor de “Carolina, uma Biografia” e do romance “Toda Fúria”

+ sobre o tema

Selo Sesc lança Relicário: Dona Ivone Lara (ao vivo no Sesc 1999)

No quinto lançamento de Relicário, projeto que resgata áudios...

Em autobiografia, Martinho da Vila relata histórias de vida e de música

"Martinho da Vila" é o título do livro autobiográfico...

MG lidera novamente a ‘lista suja’ do trabalho análogo à escravidão

Minas Gerais lidera o ranking de empregadores inseridos na...

para lembrar

A resiliência semeando sonhos

Um menino negro retinto, pobre da periferia de São...

Artista afro-cubana recria arte Renascentista com negros como figuras principais

Consideremos as famosas pinturas “A Criação de Adão” de Michelangelo, “O...

Não toquem em Machado de Assis

Chego tarde à discussão sobre a legitimidade de adaptações...

A alta modernidade de Machado de Assis

Em 1895, Sigmund Freud publicou em Viena Estudos sobre...
spot_imgspot_img

Em autobiografia, Martinho da Vila relata histórias de vida e de música

"Martinho da Vila" é o título do livro autobiográfico de um dos mais versáteis artistas da cultura popular brasileira. Sambista, cantor, compositor, contador de...

Chega a São Paulo Um defeito de cor, exposição que propõe uma revisão historiográfica da identidade brasileira por meio de uma seleção de obras em...

De 25 de abril a 1º de dezembro, o Sesc Pinheiros recebe "Um Defeito de Cor". Resultado da parceria entre o Sesc São Paulo...

Aos 76, artista trans veterana relembra camarins separados para negros

Divina Aloma rejeita a linguagem atual, prefere ser chamada de travesti e mulata (atualmente, prefere-se o termo pardo ou negro). Aos 76 anos, sendo...
-+=