Mulheres brancas ainda não sabem tratar do feminismo interseccional

Mulheres brancas ainda não sabem tratar do feminismo interseccional

* Texto orginalmente publicado no site For Harriet.

Por  Jaimee A. Swift do  Não me Kahlo

Uh-oh. Uma de suas ídolas brancas fazendo m* enquanto o feminismo branco ressurge.

Meryl Streep e outras três atrizes brancas receberam mais do que um conselho no Black Twitter após fotos na revista Time Out mostrando Streep e seus colegas de elenco vestindo camisetas brancas com as citações “Prefiro ser uma rebelde a uma escrava”. A frase é de Emmeline Pankhurst (quem Streep interpreta no filme), uma ativista e líder política do movimento sufragista britânico, que ajudou mulheres brancas a terem  direito de voto.

Entretanto, dentro de sua estrutura histórica, a citação é completamente crassa e ignora o fato óbvio, embora negligenciado, de que Pankhurst e outras sufragistas brancas estavam advogando somente para o inviolável privilégio das mulheres brancas e não para a inclusão e interseção das mulheres negras naquele tempo, que foram escravizadas e, naturalmente, não tinham o direito ao voto. A noção histórica de que as mulheres brancas, europeias “prefeririam ser rebeldes, que escravas” na busca de seu privilégio branco e matriarcal não vai bem na modernidade, pois ignora a presença das mulheres negras, que não tiveram nenhuma possibilidade igual de “rebelar-se” contra a opressão que lhes era imposta por ambos homens europeus brancos e, naturalmente, mulheres europeias “rebeldes” e brancas.

Meryl Streep and three other white actresse

Além disso, negligencia as implicações históricas do envolvimento europeu pioneiro no comércio transatlântico de escravos e a presença de homens e mulheres de origem africana e outras pessoas que viveram na Europa naquele tempo.

E as pessoas querem saber por que algumas mulheres negras não querem se meter com o feminismo.

Muitos comentários surgiram desde que Streep e outras atrizes sentiram a fúria do Black Twitter e de outros meios de comunicação. De acordo com um recente artigo do jornal britânico The Telegraph, o movimento pelos direitos das mulheres inglesas tem uma relação racial complexa, pois o movimento britânico das sufragistas supostamente diferenciava-se completamente dos movimentos das mulheres americanas, devido à polarização do racismo e da segregação racial nos Estados Unidos. O artigo também argumenta que “quase não há evidência sobre a participação das mulheres negras junto às sufragistas britânicas, ou como teriam sido tratadas se desejassem se unir ao movimento”.

Entretanto, apenas porque supostamente não há “quase nenhuma evidência de mulheres negras no movimento das mulheres britânicas” não significa que deve haver rejeição da discussão sobre a escravidão, racismo e imperialismo na Europa – que ocorreu antes, durante e depois do movimento britânico do sufrágio.

De acordo com  o Museu Internacional da Escravidão, já em 1596 a rainha Elizabeth se queixava sobre o número dos “de cor” na Grã-Bretanha. Com o comércio escravista expandido, os capitães e os proprietários de plantações trouxeram novamente os africanos para o norte da Europa e os venderam para trabalhar como empregados domésticos. Em meados do século 18, Londres tinha a maior população negra da Grã -Bretanha, composta por escravos e africanos livres.

E cabe permitir dizer: Por que alguns querem acreditar que a escravidão era somente má nos Estados Unidos? Ou tiveram amnesia e esqueceram de que os ingleses eram uma, senão a força central por trás da escravidão e propaganda pervasiva do racismo? Gorjeta histórica aos produtores e atrizes do filme sufragista: nem todos africanos foram para os Estados Unidos e Caribe. Estavam também na Europa. Lembre, negros estão em todas as partes. Por isso que chamamos de Diáspora africana, uuuuu.

Alguns dias atrás, Time Out defendeu as citações e concedeu a seguinte declaração:

“A citação original pretendia incitar as mulheres a se rebelarem contra a opressão, é um grito de alerta e absolutamente não pretendia criticar aqueles que não têm nenhuma escolha além de submeter-se à opressão, ou referir-se a Confederação, como algumas pessoas que viram as citações e a foto fora de contexto”.

Infelizmente, Time Out está realmente equivocada, pois a citação não faz referência a Confederação. Os EUA  são mais do que apenas um grupo de pessoas – ele representa uma ideologia, uma ideologia que foi pioneira através dos fundadores do comércio escravista, que eram por sua vez Europeus e que levaram consigo esta forma de pensar horrível e foi espalhada pelo mundo como uma doença. Racismo é uma epidemia global, assim conseqüentemente a Confederação é uma irmandade internacional, da qual as sufragistas britânicas também fizeram parte. As citações não podem levar as mulheres negras a rebelar-se contra a opressão, pois representam a ideologia das pessoas que instituíram a dita opressão das pessoas não brancas.Vou deixar isso marinando.

Nota a Streep, seus companheiros de elenco, aos produtores de Suffragette, Time Out  e mulheres brancas em geral: Parem de branquear a história a fim de criar uma utopia feminina branca para a liberdade e a igualdade na qual mulheres negras e outras mulheres não brancas são excluídas. É imperativo que o poder de mulheres negras na Diáspora, suas vozes, tribulações, e os triunfos sejam incluídos a fim de elevar todas as mulheres, vocês tem que incluir os interesses de mulheres negras também.

Mas tudo em tudo, eu acredito que algumas mulheres brancas estão demasiado receosas de serem inclusivas ou interseccionais, pois isto revelaria quem as “verdadeiras rebeldes” são.

Mas não estão prontas para tanto.

Tradução de Alessandra Gusatto.

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