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15 anos de cotas na Ufba: onde eles estão e como estão vivendo?

Como é a vida dos ex-cotistas da Ufba e quais os desafios do sistema

Por Alexandre Lyrio, Do Correio 

Cássia Maciel - mulher negra de cabelo curto e crespo, usando camiseta colorida- em pé olhando para cima e sorrindo
Pró-reitora de Ações Afirmativas da Ufba, Cássia Maciel: ex-manicure e garçonete mudou seu destino ao ingressar na instituição no curso de Psicologia pelas cotas (Marina Silva/CORREIO)

“Onde estão essas pessoas? Como elas transformaram suas vidas? O que elas têm a dizer”. Os questionamentos partiam da pró-reitora de Ações Afirmativas da Ufba, Cássia Maciel, 15 anos após o início da política de acesso por cotas sociais e raciais na instituição. Em um evento do Novembro Negro, na quarta-feira (20), ela parecia apenas incentivar a pesquisa sobre a vida dos ex-cotistas para confirmar o sucesso do sistema, mas na verdade queria falar também de sua própria história.

Não imaginávamos, mas Cássia se revelaria ali a personagem perfeita para esta reportagem, que se propunha a mostrar como está a vida dos ex-cotistas uma década e meia depois da implantação das cotas, além de destacar os maiores desafios dos atuais cotistas dentro da mais antiga universidade pública da Bahia. Ex-manicure e garçonete, moradora de São Cristóvão e Cajazeiras, Cássia achava que, no máximo, seria técnica de enfermagem.

Acabou se tornando a primeira pessoa da família a entrar em uma universidade.

“Eu achava que ensino superior público era para brancos e ricos. A Ufba não era pra mim! Gente como eu tinha que trabalhar para sustentar a família”, lembra ela, hoje aos 41 anos.

Após duas reprovações no vestibular, aos 30 anos de idade, grávida de gêmeos, passou para Psicologia pelas cotas. Cinco anos depois se tornaria pró-reitora.

“Mudei a história e a auto estima da minha família. As pessoas se orgulham e querem fazer o mesmo. Essa é a história de muitos outros cotistas”, afirma Cássia, filha de mãe solteira e empregada doméstica, além de sobrinha de sete outras empregadas. De fato, a luta que Cássia travou para conseguir um espaço na Ufba, se estabelecer no curso e seguir até o final é semelhante a de muitas pessoas que passaram pela Ufba nos últimos 15 anos. A Ufba não informou o número de cotistas que passaram pela instituição nesse período.

Uma trajetória não muito diferente da de Lucas de Jesus Ferreira, 28 anos. Formado em 2014 em Engenharia Química, ele relata um bom relacionamento com os não cotistas, mas ao mesmo tempo óbvias diferenças de oportunidades. “Muitos dos nossos colegas já tinham ido para o exterior, já falavam inglês. Mas sempre corri atrás do meu. Como minha mãe dizia: ‘O negro tem que dar 101%. Se for 100% não é suficiente’”, ilustra Lucas, hoje engenheiro da Braskem, em Camaçari.

Selfie de Ícaro Luis- homem negro de cabelo crespo, usando óculos de grau
O médico Ícaro Luis enfrentou ambiente hostil na primeira turma (Foto: Imagem retira do site Correio)

Lá no início, em 2005, era muito pior, narra o médico Ícaro Luis Vidal, 32 anos, primeiro estudante negro a se formar em Medicina como cotista. Ele descreve um ambiente bastante hostil na primeira turma. “Os estudantes sempre diziam que seus colegas com melhor capacitação e com escores maiores haviam ficado de fora por causa das cotas. Os professores diziam que a qualidade do curso despencaria com alunos de ‘baixo nível’ intelectual. Pensei em desistir”, conta Ícaro.

Seu colega, Miguel de Jesus Andrade Júnior, 28 anos, que se formou no final de 2018, traz o relato sobre um ambiente um pouco diferente. Não se esquece do quanto também foi duro enfrentar o racismo estrutural, mas não tão hostil. Filho de um professor e policial militar e de uma dona de casa, hoje ele tem uma rotina puxada e gratificante entre plantões em um Posto de Saúde da Família de Dias D´Ávila e duas emergências em Salvador. No período da universidade, se tornou um dos fundadores do Coletivo Negrex, formado por estudantes de Medicina negros.

“O quantitativo de estudantes negros em um curso como o de Medicina ainda é muito desproporcional. A questão racial precisa ser debatida. Mesmo quando não há um racismo escancarado, todas as relações são atravessadas por aspectos raciais”, diz doutor Miguel, um dos fundadores do Coletivo Negrex, formado por estudantes de Medicina negros de todo o país.

Miguel - homem negro de dreads, usando camiseta e calça jeans - sentado em uma escada
Miguel, formado em Medicina na Ufba: foi duro enfrentar o racismo estrutural (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

A mais negra entre as federais

A última pesquisa quadrienal do Fórum Nacional de Pró-reitores mostrou qual o perfil dos estudantes das universidades. A amostra de 5.774 estudantes de graduação da Ufba, de um total de 38,6 mil, revelou que três em cada quatro graduandos são considerados negros (soma dos que se autodeclaram de cor preta, parda e indígena). Isso significa 75,6% dos alunos da Ufba. O percentual de negros na instituição baiana é superior ao do conjunto das universidades federais (51,2%) e ao da população brasileira (60,6%, segundo a PNAD).

Na comparação com as outras 64 universidades e institutos federais (Ifes) que participaram da pesquisa, a Ufba é, disparada, a que tem maior número de alunos autodeclarados pretos: 32,2% ante 15,5% no Nordeste e 12% no restante do país. O fato é que há muitos embates e discussões em torno das cotas e de como a universidade precisa se reinventar e se manter em permanente produção de diálogo com a diversidade social. “Não é a lógica de que pessoas precisam de cotas para entrar, mas de que a universidade precisa de políticas de ações afirmativas para ter dentro do seu corpo a representatividade dessa diversidade”, diz Cássia.

Desafios

Por isso, há consenso de que os desafios para que a Ufba abrace melhor esse público são grandes. A cota ainda é mais para entrar do que para cursar. É o que dizem os estudantes e o que admite a própria pró-reitora. As políticas de permanência estudantil voltadas para os cotistas ainda são insuficientes diante da procura dos estudantes negros.

A política de assistência estudantil da Ufba hoje tem 20 modalidades de apoio, entre bolsas de moradia, transporte, alimentação, material didático, saúde, creche, restaurante e residências universitários, entre outras. “Mas precisamos de mais. Porque o processo de interiorização das outras universidades ainda não se consolidou. Tanto o interior quanto pessoas de outros estados procuram muito nossos cursos. Precisamos de mais política de permanência estudantil e de mais verba do Governo Federal”, considera Cássia Maciel.

Lucas - homem negro, usando uniforme azul - em pé olhando para frente.
‘O negro tem que dar 101%’, diz Lucas (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Mas, há uma discussão maior. A forma da universidade produzir conhecimento precisa se transformar, os conteúdos programáticos estabelecidos pelos professores precisam ser revistos, afirmam estudantes que fazem parte dos diversos cursos da instituição. Esses conteúdos ainda seriam hegemonicamente eurocêntricos, como destaca o Coletivo Dandara Gusmão, iniciativa de um grupo de estudantes negros da Escola de Teatro.

“Alguns professores se propõem à mudança, outros fazem ouvido de mercador esperando o momento certo pra praticar o racismo mesmo que veladamente. A Ufba precisa de fato mudar através de vontade política, tem muita conversa e pouca ação efetiva”, afirma Dêvid Gonçalves, que no dia 1º de junho desse ano, junto com um grupo de estudantes, interrompeu o espetáculo Sob as Tetas da Loba por considerarem que tinha conteúdo racista.

Segundo a Ufba, a inclusão da temática étnico-racial e do ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena alcança os currículos de 28 dos 88 cursos de graduação presencial e de 4 cursos cursos de graduação a distância (EAD) da Universidade. Ao todo, 71 componentes curriculares com essas temáticas são oferecidos na instituição.

Velado

Após 15 anos de cotas, a convivência de cotistas e não cotistas ainda não atingiu seu melhor nível. A própria pró-reitora admite que nas unidades da Ufba há preconceitos, na maior parte das vezes velado, mas muitas vezes também criminoso.

Cássia - mulher negra de cabelo crespo, usando camiseta colorida- em pé sorrindo
‘As relações interpessoais ainda são um desafio’, afirma Cássia (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“As relações interpessoais ainda são um desafio. Ainda existem preconceitos oriundos das cotas. E por isso muitos ainda não se sentem parte”, afirma Cássia, que chega a apontar os cursos em que o racismo, seja ele estrutural ou criminoso, está mais evidente. “Nos cursos de alto prestígio os tensionamentos são maiores, como em Medicina, Direito e as Engenharias”.

Negro, o engenheiro químico Paulo Hugo de Carvalho Nascimento, 28 anos, demorou a perceber essas diferenças, mas um dia elas se tornaram evidentes. “De um lado, os não cotistas provenientes da rede privada de ensino, do outro cotistas, negros em maioria, muitos vindos de escolas públicas grandes”, observa Paulo.

“No início da faculdade eu ainda não tinha a real noção desse abismo. Foram os primeiros momentos de minha vida que tive a chance de conviver com pessoas de realidades muito mais privilegiadas que a minha”. Claramente, diz Paulo, o processo de formação dos grupos em sala era influenciado pelos fatores de identificação. “Neste processo, construía-se um muro que dividia os cotistas dos não cotistas”, lembra.

Criminoso

Para além dessas diferenças, há, sim, casos em que o racismo chega a um estágio criminoso. Esses são registrados pela Ouvidoria da Ufba. Segundo a ouvidoria, no período de 2015 e o segundo semestre de 2019, foram registradas 14 denúncias de racismo.

O órgão diz que as providências foram tomadas de acordo com a legislação que rege a Ufba e o Serviço Público Federal. Os nomes dos punidos não são divulgados, mas o regimento da Ufba prevê advertências e suspensões.

Banca de aferição
Desde o início desse ano, para acessar a Ufba através das cotas, é preciso passar por uma banca de aferição. O objetivo é evitar as fraudes que vinham sendo denunciadas nos últimos semestres.

A professora Marcilene Garcia de Souza elaborou um método de aferição para minimizar as fraudes. Segundo ela, são avaliados traços fenotípicos negróides que definem se o estudante é negro (conjunto de pretos e pardos) ou não. Segundo Marcilene, quando há banca de aferição, a média nacional aponta para um número entre 3% e 7% dos candidatos que são eliminados porque não seriam negros. Na Ufba, esse número chegou a 10%.

“As bancas são uma forma de fiscalização e de garantia da efetividade da política”, afirma Marcilene, que participa de bancas de aferição desde 2005 no Paraná e elaborou uma das primeiras teses de doutorado no país sobre ações afirmativas por meio de cotas raciais e concursos públicos. “As pessoas não aceitam mais essas fraudes. A banca inibe esses candidatos”.

Desempenho e evasão

O real desempenho dos estudantes cotistas ainda não é bem definido. Há pesquisas antigas de professores e os dados atuais não foram informados até o fechamento dessa edição. “O que se sabe é que na área de humanas o desempenho dos cotistas é melhor do que os não cotistas. Ano a ano a Ufba vem melhorando seus indicativos de desempenho, o que joga por terra a ideia de que as cotas iriam influenciar na qualidade da universidade”, explica Cássia.

Mas, quantos desses cotistas terminam, de fato, os cursos? Um estudo da Pró-reitoria de Planejamento e Orçamento (Proplan), que não faz separação entre cotistas e não cotistas, aponta que a taxa de evasão média dos cursos de graduação da Ufba é de 16,2%.

O dado leva em consideração os alunos que até 2017.2 haviam chegado ao tempo máximo previsto para conclusão de seus respectivos cursos. Mas não é possível saber, por exemplo, quantos desses ingressaram em outros cursos da Ufba ou em outras universidades públicas.

Conheça os caminhos trilhados por seis ex-cotistas

Lucas de Jesus Ferreira, 28, engenheiro químico

Formei em 2014. Não houve impasse na convivência com os não cotistas – a percepção deles era de que estávamos no mesmo nível. Obviamente que a gente via diferenças. Sempre tive em mente de que não era menor do que ninguém. Como minha mãe dizia: ‘O negro tem que dar 101%. Se for 100% não é suficiente’. Para ingressar no mercado de trabalho, o fato de ter feito Ufba foi um diferencial. Consegui me inserir em uma indústria petroquímica internacional, a Braskem.

Viviane Martins, 28, psicóloga

Quando entrei na Ufba em 2009 percebi o abismo (social, econômico e educacional) entre estudantes de escolas pública e particular. Sempre fui muito estudiosa, e ainda assim senti dificuldade no primeiro semestre, pensei em desistir e acreditei que aquela realidade não era para mim. Passar em um concurso público era uma meta. A formatura aconteceu em fevereiro de 2015 – no ano seguinte, consegui aprovação em um concurso público. Além disso, a graduação na Ufba ampliou as possibilidades de ingresso no mestrado, no qual estou inserida hoje.

Wesley Marcos Santana Miranda, 26, jornalista

Não tinha condições de pagar um curso de publicidade em uma universidade particular. Como não tinha na Ufba, fiz o que mais se aproximava. Tinha um curso técnico em design gráfico, investi nisso. Entrei no 2º semestre de 2010. Formei em 2014 e criei a BATEKOO, uma plataforma de divulgação da cultura negra, urbana e de jovens LGBT. Entrei no mercado de trabalho de Salvador fazendo trabalhos de design. Hoje moro em São Paulo e sou diretor de arte de uma empresa.

Rita de Cássia Martins, 26, jornalista

Minha cota não foi exclusivamente racial. Na época tinha cotas sociais mais raciais. Eu e minha irmão entramos nessa. Entrei em 2010 e saí em 2014. Sempre estudamos em escola pública. A gente estudava juntas. Se não fosse a escola pública e a universidade pública, não teríamos muito futuro. Somos filhas de uma empregada doméstica e de um pedreiro. Não sentia qualquer diferença de tratamento ou qualquer discriminação quanto à cor lá na Faculdade de Comunicação. Hoje trabalho na comunicação social de um órgão da prefeitura de Camaçari. Faço de tudo um pouco, escrevo para o site, cuido das redes sociais, envio releases à imprensa, elaboro o informativo mensal, organizo e alimento os murais internos e externos, elaboro peças gráficas para divulgações e para eventos internos, cuida da lista de transmissão (externa e interna), faço fotos e, de quebra, ainda sou ouvidora. Acredito que só em ocupar estes espaços, como universidades públicas e cargos em concursos públicos, já é uma forma de luta antiracista. Então, minha maior e melhor forma de lutar é conquistando estes espaços por mérito, com bastante esforço e dedicação.

Rodrigo Alves Rodrigues, 26, médico

Nasci no interior de Minas Gerais, um povoado com 800 habitantes. Desde os 7 anos já trabalhava na lavoura. Estudava de noite. Consegui ir para Belo Horizonte e estudei em um cursinho. Aos 17 anos, vim sozinho de ônibus para Salvador e consegui ingressar na Ufba através do Enem e o sistema de cotas e renda. Minha mãe é branca e meu pai é negro. Quando entrei me senti acolhido. Para conseguir me manter aqui tive apoio de bolsas. Percebi que havia a separação de grupos de pessoas. Tinha o pessoal dos Bacharelados Interdisciplinares (BI), que tem trazido mais pessoas negras e de baixa renda também. Mas a maioria era o pessoal de inclusive com perfil sócio econômico maior e a gente ficava meio de escanteio. Aconteceu uma clara situação de preconceito com uma colega negra e quilombola. Uma professora saiu do elevador quando ela entrou. Comigo também aconteceu uma coisa chata. Apesar de ser mais claro, pardo, fui cumprimentar uma colega e ela não quis me dar a mão. Nesse caso, foi mais uma questão de classe. Me engajei no movimento estudantil e passei a discutir mais sobre essas questões da população negra, LGBT e das classes mais baixas. Nesses momentos, se afloravam as diferenças. A Faculdade de Medicina ainda é muito conservadora e os professores muito preconceituosos. Se você for das cotas e não se articular, você vai ter dificuldades. A Ufba precisa fazer políticas de inclusão, principalmente pedagógicas. Assim que me formei, ingressei na residência de medicina em família e hoje sou médico residente no município de Salvador, na unidade de Saúde da Família de Plataforma. Dos seis irmãos, só eu e meu irmão fizemos faculdade. Hoje nossa vida mudou muito.

Romário Almeida, 25 anos, produtor cultural

Antes da graduação, fazia produção cultural na Escola Percussiva do Olodum, onde comecei meu processo de entendimento da identidade negra e de me perceber como negro. Entrei na Ufba em 2014 através das cotas raciais e sociais. Sou filho de cozinheira e pintor de automóveis. A universidade ainda não era tão bem resolvida com a questão das cotas. Tinha muita fraude. O processo era muito complexo. Tive que provar que era negro. A Facom não é um ambiente em que você sente a questão racial de forma tão objetiva, mas nas entrelinhas. A Facom ainda é uma faculdade bastante branca, inclusive no seu corpo docente. É difícil pautar a questão racial nas aulas e fazer eventos com essa temática. Acho que as coisas estão melhorando, mas ainda há muito a avançar. Atualmente sou assessor de comunicação da Caderno 2 Produções e faço a parte de comunicação e marketing do Ilê Aiyê, onde consigo trabalhar mais as questões raciais.

Entenda

As cotas foram implementadas na Ufba no final de 2004, inaugurando a política de ações afirmativas na instituição. Em julho de 2004, a medida foi aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) e publicada na resolução n°01/04. No final do mesmo ano, saiu o edital para o vestibular de 2005, o primeiro que trouxe a opção de reserva de vagas para alunos pretos e pardos que estudaram em escola pública.

Confira entrevista com o professor Antonio Alberto Lopes da Faculdade de Medicina da Ufba

1) Gostaria que primeiramante o senhor contasse um pouco da sua vida e do seu ingresso e atuação na Medicina.

Eu nasci no Subúrbio de Salvador e concluí o ensino fundamental e ensino médio em colégios públicos. Em 1969, fui aprovado em primeiro lugar no exame vestibular para ingresso no curso de Medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. No mesmo ano fui aprovado no vestibular da Faculdade de Medicina da Bahia (FMB) da Universidade Federal da Bahia (Ufba) onde estudei e concluí o curso em 1975. Em seguida, fiz residência médica e treinamento em doenças renais (nefrologia) na Ufba e na Universidade de São Paulo.

Recebi os títulos de Mestre em Medicina Interna pela Ufba e de Mestrado e Doutorado em Saúde Pública e Epidemiologia pela Universidade de Michigan nos Estados Unidos. Sou Professor Titular da Faculdade de Medicina da Bahia e já atuei como Professor na Universidade McGill em Montreal, Canadá. Sou pesquisador atuando em grandes estudos de pesquisa longitudinais, um estudo brasileiro de base populacional e três outros em pacientes com doença renal crônica, um desenvolvido em Salvador que coordeno e dois estudos desenvolvidos em diversos países.

2) É possível afirmar que o curso de medicina é (ou foi) um espaço tradicionalmente voltado para famílias ricas e tradicionais? Como o estudante negro se inseria em espaços como este antes da política de cotas?

Dados do Ministério da Educação de 2006 referentes a Universidade Federal do Rio de Janeiro indicaram que os Estudantes Universitários de Origem Popular (EUOP) têm maior representatividade em cursos de humanas (aproximadamente 16% em estudantes de História) e muito menor no curso de Medicina (aproximadamente 1%). A tendência é que o percentual de estudantes negros e de famílias mais pobres aumente nos cursos de Medicina com a política de cotas.

3) O senhor, na condição de médico negro, já sofreu algum tipo de discriminação racial enquanto estudante ou mesmo já formado e estabelecido na profissão?

Não posso afirmar que determinadas situações enfrentadas como estudante ou no exercício da profissão foram devido especificamente a discriminação racial. Isto não significa negar o racismo estrutural e institucionalizado que, segundo a Organização das Nações Unidas, permeia a vida na sociedade brasileira.

4) O senhor acredita que o ingresso de negros e pessoas vindas de classes sociais menos favorecidas na Medicina é capaz de transformar a própria profissão? No sentido de pesquisas voltadas à saúde coletiva e descoberta de doenças relacionadas aos negros?

Acredito que um pesquisador médico que vive ou viveu em comunidades que enfrentam grande desvantagem social, geralmente comunidades predominantemente constituída de pessoas negras, esteja mais apto para identificar fatores que merecem investigação como possíveis causas preveníveis de doenças altamente prevalentes como hipertensão arterial e diabetes.

Estes pesquisadores podem estar também mais aptos a desenvolverem trabalhos para investigar fatores e comportamentos específicos (exemplo: crenças que determinam não aderência a tratamentos efetivos) como potenciais determinantes do risco de eventos fatais e não fatais, como acidentes vasculares cerebrais, doença cardíaca e doença renal crônica em portadores destas doenças de elevada prevalência.

5) O que representa o ingresso do senhor na Academia de Medicina da Bahia?

O ingresso na Academia de Medicina da Bahia representa uma honra e o reconhecimento da minha trajetória como médico, professor e cientista. Espero que a Academia sirva cada vez mais de veículo de divulgação do conhecimento científico em saúde para a comunidade de forma a contribuir nos diversos níveis de prevenção em saúde. Vou me empenhar para concretizar este objetivo.

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