terça-feira, setembro 21, 2021

A esperança de volta

A esta altura, o país todo já sabe que quinta-feira é dia consagrado a Oxóssi, o caçador de uma só flecha na mitologia iorubá e, nas religiões de matriz africana, reverenciado como o guerreiro astuto e preciso, o provedor. E meio Brasil está avisado de que Exu não é demônio, mas o orixá que abre os caminhos, subverte tempo e espaço, comunica, produz movimento. Quem espalhou esses saberes ancestrais aos quatro ventos foi Paulo Henrique Sampaio Filho, o Paulinho, jogador concebido no Madureira, criado no Vasco da Gama, contratado pelo alemão Bayer Leverkusen, a serviço da seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio. E também meu sobrinho na vida e irmão na fé.

O jovem atacante, 21 anos recém-completados, precisou de um relato de vida em prosa e de um chute certeiro no canto superior esquerdo do goleiro da Alemanha para fazer ecoar o grito de alívio e orgulho há muito entalado na garganta do povo de santo. Desde que o Brasil é Brasil, as religiões de matriz africana são perseguidas e demonizadas. Somente no ano passado, após intensa campanha de líderes religiosos e empenho do Ministério Público Federal, as mais de 500 peças sagradas sequestradas de terreiros do Rio de Janeiro por forças policiais, entre o fim do século XIX e a década de 1940, foram transferidas para o Museu da República.

Faz meia década, Kailane Campos, aos 11 anos, vestida de branco e usando seus fios de conta, foi apedrejada numa rua da Vila Penha, mesmo bairro onde Paulinho nasceu. A CPI da Intolerância Religiosa da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) apurou que um em cada quatro casos registrados nos dois anos de existência da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância está relacionado à perseguição religiosa.

Um mês atrás, terreiros foram invadidos e atacados nos arredores de Brasília durante perseguição ao assassino e estuprador Lázaro Barbosa, em verdade, autodeclarado evangélico e ligado a fazendeiros da região. Há poucos dias, o advogado Hédio Silva voltou aos tribunais para livrar da acusação de maus-tratos mais uma mãe que iniciara a filha no candomblé.

Quando reverencia orixás nas redes sociais, cita Exu em comovente artigo, evoca o ofá (arco e flecha) de Oxóssi numa comemoração de gol, Paulinho produz liberdade, não proselitismo. Umbanda, candomblé e demais cultos afro, oprimidos desde sempre, não fazem catequese, não impõem conversão, não se ocupam de outras fés. Não querem abafar ninguém, mas existir.

O texto de Paulinho varreu as redes sociais como peça de coerência, dignidade e coragem. Por escrito, ele revisitou a história de vida que, partindo do subúrbio carioca, o catapultou para o mundo. Em quase década e meia de futebol, jamais rompeu os laços de afeto que mantém com pai, mãe, irmão, com a família, o território, as origens. Como todo filho do subúrbio, da favela, da periferia, das quebradas, o camisa 7 da seleção olímpica é projeto coletivo. E sabe disso. É resultado do trabalho, da persistência, da confiança, da fé de um lar e de uma comunidade inteira. Retribui em reconhecimento, gratidão, memória e também recursos.

Não faz muito tempo, em diálogo com Thiago Amparo, professor na FGV Direito, e Leonardo Fabri, curador na Casa do Saber, comentei sobre quanto a mobilidade social dos negros —e também dos brasileiros de baixa renda — é redistributiva. Quem sobe na vida ajuda o outro: do remédio dos idosos ao material escolar de afilhados, do cômodo a mais na laje aos cuidados com a cria de quem sai para trabalhar. São redes de solidariedade que forjam parentescos, se biologicamente eles não existirem.

A história de Paulinho guarda esse enredo. O chute expiou a tensão de um ano de medo, trabalho, persistência. Foram duas lesões, duas cirurgias, longo tratamento, treinos intermináveis, confiança na convocação, desejo de vitória. O gol devolveu a alegria de torcer pela camisa apropriada pela política rasteira. O artilheiro, filho de Odé, ressuscitou a esperança de quem enxerga o Brasil como país livre, farto e generoso — invisível ao Planalto, mas que pulsa na planície —onde nascem, crescem, vivem os Paulinhos.

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