Agatha presente!, por Dora Incontri

Quase me constranjo colocar em poesia a tragédia do extermínio que se vê hoje no Rio em particular e no Brasil em sua vastidão.

Por Dora Incontri, do Espiritismo Progressista, no GGN

Shutterstock

Mas algo tem que ser dito. E quando a dor é muito profunda, vale chorar em verso.

As palavras se retraem

Para falar de Agatha,

Mas precisam ser faladas

Mesmo que recusem rimas,

Para não enfeitar o crime.

As palavras soluçam

Para falar do menino

No pelourinho do mercado.

As palavras se rebelam,

Nelas não cabe o extermínio

De corpos negros e jovens

De um pai com nome de Rosa

Já nem mais falado se ouve

Por tantos outros que caíram

Depois dos 80 tiros!

As palavras morrem na goela

Para lembrar Marielle

Aclamada pelo mundo

Injustiçada aqui há uma eternidade.

As palavras se quebram no verso

Desencantado e avesso.

Porque o Brasil ainda é senzala

Ainda se farta de sangue

Do negro, do índio, da mulher.

Da criança que não crescerá,

Do jovem que sonhava ser.

Até quando?

“Senhor Deus dos desgraçados,

Dizei-me vós, Senhor Deus!”

Usarão de vosso nome

Para matar filhos teus?

“Existe um povo que a bandeira empresta

Pra cobrir tanta infâmia e covardia”

Dos navios imundos do passado

Às favelas alvejadas por fuzis.

“Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga”

Voltai Castro Alves e Luiz Gama

Mulheres Marielles e Dandaras

E arrancai essa vergonha que nos fere

E justiçai Agatha caída!

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