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Além de preto, viado: o padrão heteronormativo de estudo sobre as masculinidades negras

“2002, 4ª série do ensino fundamental, 10 anos de idade. Eu havia mudado de endereço, agora morava na Zona Leste de São Paulo, Itaim Paulista. Já nos primeiros dias de aula, alguns meninos “perceberam” trejeitos afeminados nos meus gestos [que eu tentava esconder], colocando-me apelidos, dentre eles: Vera Verão”.

Por Kauan Almeida no Justificando

“2004, 12 anos de idade. Eu tinha apenas dois amigos no colégio, ambos bastante semelhantes a mim: todos eram lidos enquanto viadinhos pretos [ainda que não soubéssemos muito bem o que era ser um viadinho]. Nos protegíamos mutuamente das ofensas, mas havia um silêncio vergonhoso entre nossos olhares. Mesmo fora da escola, ao ir para casa de algum deles, passei a evitar a rua em que um dos meus algozes morava, pois, por duas vezes, ao passar pela rua, fui submetido a ofensas e gozações, além da ameaça constante em ‘apanhar para virar homem’. Passei a andar dois quarteirões a mais para encontrar meus amigos”.

Entender o masculino como uma categoria sócio-histórico-cultural implica na compreensão das diferenças inerentes a esta categoria. Consequentemente, segundo Connell há dimensões distintas de masculinidade, portanto, deve-se tratar em sua pluralidade, isto é, as masculinidades. Desta forma, de nenhum modo, anula-se o processo patriarcal marcado pela subordinação do gênero feminino ao masculino, contudo, são inseridas novas categorias de análises.

 

Pesquisadores como Osmundo Pinho, Robert Connell e Rolf de Souza Malungo possuem vastas produções a respeito do tema, inclusive, a partir das masculinidades marginalizadas, que são os casos onde o gênero intersecciona uma ou mais categorias, como, por exemplo, raça/etnia, classe, sexualidade, idade, etc. Recentemente, as produções sobre as masculinidades vêm ganhando atenção especial, especificamente de homens negros (que bom!).

No entanto, ao se tencionar à construção de uma masculinidade negra, há uma tendência a se verificar os processos sociais, as relações de poder e a raça enquanto dispositivo para marginalização do homem negro. Porém, muitos trabalhos calcados sobre os ideais da virilidade e da hipermasculinização não abordam a estrutura cis-heteronormativa dos padrões impostos pela masculinidade hegemônica.

Desta forma, silencia-se a sexualidade dos corpos dos homens negros, muitas vezes dando a entender que:

A negritude se apresenta como uma extensão da heterossexualidade, da mesma maneira que as sexualidades discordantes parecem exclusivas de pessoas brancas.(OLIVEIRA, 2017, p. 31).

Foto: Denilson Tourinho em “Madame Satã – Um Musical Brasileiro”.

De certo, tomando-me como método biográfico, não saberia dizer qual dos dispositivos (homofobia, racismo e classe) operaram/operam com maior rigor normalizador em minha vida, pois com a intersecção deles, a fronteira foi deslocada, deixando-me num hiato entre tais dispositivos.

“2004, 6ª série do ensino fundamental. Ao ser obrigado a jogar futebol durante uma aula de educação física, eu me esquivava da bola, pois tinha medo de me ferir, uma vez que chutavam a bola com força propositalmente para me machucar, o professor me chamou no canto da quadra e disse: ‘você não pode ter medo, você é homem ou não é? Assim, os outros meninos continuarão a te chamar de viado, você já é preto, e sabe como o mundo é preconceituoso, precisa ser macho para enfrentar’”.

Por sempre ter estudado em colégios públicos da periferia de São Paulo, a raça operava como um marcador social, e nela a pigmentação hierarquizava as relações. Os garotos de pele mais clara eram lidos enquanto “pardos” ou mesmo “brancos”, enquanto os de pele escura eram lidos enquanto “pretos”. Os garotos negros de pele retinta, inclusive eu, passavam por mecanismos discriminatórios baseados em nosso pertencimento racial o que, segundo Marília Pinto Carvalho, cria uma hierarquia que faz com que alunos negros sejam “transformados em potenciais suspeitos de toda indisciplina”.

A ideia de raça remete ao princípio colonial de dominação a partir das teorias científicas, onde os “outros” eram sujeitos racializados, enquanto o homem branco de classe média, cristão e heterossexual permanecia como método de aferição para os dispositivos normalizantes tornando a raça uma invenção que possibilitaria a distribuição dos locais sociais dada a cor da pele dos indivíduos (QUIJANO, 2005). Ou, como escreve Neusa Santos (1983) “instituiu o paralelismo entre cor negra e posição social”.

Contudo, conforme Grosfoguel:

 Não se pode pensar estas ideologias [raça, sexualidade, gênero e classe] separadas umas das outras. Todas integram a matriz de poder colonial que, em nível global, ainda existe.

Isto implica pensar nos corpos, mesmo que a partir de uma matriz racial marginalizada, interseccionados por outras categorias, como, no caso deste artigo, a sexualidade. 

Além de preto, viado!

“2007, 1º ano do Ensino Médio. Eu já havia ortopetizado meus gestos, agora mantinha uma postura “firme”, não gesticulava tanto, sentava com as pernas abertas e passei a ouvir “música de homem”. Nada de Divas Pop, ver novelas com minha mãe ou ser emocionalmente expansivo em público. Mas ainda assim, alguma coisa em mim – que eu não sabia o que era – me denunciava e, às vezes, independentemente de onde eu estava, escutava o grito ‘Viado!’, alguma coisa estava inscrita em meu corpo”.

Avtar Brah ao discorrer sobre as noções de diferenças criadas a partir da categoria “negro”, resgata a problemática da identidade e suas negociações que alteram a dinâmica do poder através da diferenciação social. A diferenciação social desloca os sujeitos para posições subordinadas à margem do sistema, tornando-os negativamente discriminados a partir da díade branco/não-branco. Desta forma, os sujeitos não-brancos reificam a categoria a que foi destinado, tornando-a política.

A negociação da identidade é fruto de um jogo de poder, sendo assim, dentro da categoria “negro”, há uma infinidade de atravessamentos que passaram a ser problematizados.

Este é o caso do estudo das masculinidades negras quando partem arbitrariamente de uma matriz heterossexual, invisibilizando e silenciando outros discursos e formas de experenciar a negritude a partir de uma sexualidade dissidente e marginalizada.

Perceber a complexidade da categoria homem e negro é um avanço conquistado por intelectuais dos movimentos sociais. No entanto, isto não anula o equívoco de manter como intocáveis outras categorias e seus exercícios de poder, uma vez que ele está em todos os locais e procura produzir indivíduos normalizados (FOUCAULT, 1988).

Racismo e homofobia juntos integram dispositivos, ainda que distintos, que visam a diminuir os sujeitos a discursos patologizantes produzidos através da relação saber-poder sobre os seus corpos. Inserindo-os, assim, em uma trama de violências físicas e simbólicas com o objetivo disciplinar.

“Em 2013, ao voltar para casa, percebi que havia esquecido as chaves do portão, por isso, resolvi saltar o muro. No momento, uma viatura passou e os policiais perceberam que eu estava tentando pular. Imediatamente apontaram as armas e me mandaram ficar quieto. Ao ser interrogado, contei o que havia acontecido, eles perceberam minha sexualidade e fizeram piada disso. Para verificar a veracidade da minha história, perguntaram aos vizinhos e às gargalhadas foram embora dizendo ‘pode pular o muro, viadinho’”.

O racismo e a homofobia não operam da mesma maneira e com a mesma intensidade (…) No entanto, esses dois marcadores estarão presentes ao longo de sua vidas, como uma sombra que muda de tamanho e de forma à medida que se move” (OLIVEIRA, 2017).

A análise das masculinidades é necessária para o entendimento das relações de poder e problematizações dos locais sociais destinados a homens negros, contudo, para além deste tema, a autocrítica ao exercício de poder realizado por homens também negros é preciso. Ainda que, de acordo com Audre Lorde, “as opressões não se hierarquizam”, elas se acumulam.

Ser negro não é uma extensão de ser heterossexual, e ser um homem negro heterossexual, ainda que racialize o gênero e, por isso, o subalternize, não impede que estes reproduzam ações normalizadoras em corpos não-heterossexuais.

Kauan Almeida é  fisioterapeuta e bacharelando em Saúde pela Universidade Federal do Sul da Bahia.

Referências Bibliográficas

Brah, Avtar. Diferença, diversidade, diferenciação. Cadernos Pagu, v. 26, n. 1, p. 329-376. Jan/Jun, 2006.

CARVALHO, Marília Pinto de. Quem é negro, quem é branco: Desempenho escolar e classificação racial de alunos. Revista Brasil Educação, n.28. Jan/Abr, 2005.

CONELL, Robert W.; MESSERSCHIMIDT, James W. Masculinidade hegemônica: repensando o conceito. Revista Estudos Feministas, v. 21, n.1, p. 241-282. Florianópolis, 2013.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Trad. Lígia M. Ponde Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1988.

GROSFOGUEL, Ramón. Descolonizar as esquerdas ocidentalizadas: para além das esquerdas eurocêntricas ruma a uma esquerda transmoderna descolonial. Revista Contemporânea, v. 2, n. 2, p. 337-362. Jul/Dez. 2012.

OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de. O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação. Curitiba, 2017. 190f. Tese. Universidade Federal do Paraná. Curitiba-PR, 2017.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: QUIJANO, Aníbal (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2005.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983

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