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Além do próprio umbigo: aprendizados de uma mulher negra cis e hétero sobre a cultura Afro-LGBTQIA

Além do próprio umbigo: aprendizados de uma mulher negra cis e hétero sobre a cultura Afro-LGBTQIA

São Paulo, 18 de junho de 2017, milhares e milhares de pessoas tomam a Avenida Paulista, para 21ª edição da Parada do Orgulho LGBT. Abro a página de uma rede social e vejo o post de um amigo joga luz sobre o acréscimo de mais três letras à sigla que busca aglutinar os contingentes que questionam a heterossexualidade como centro das experiências e dos debates sobre sexualidades e identidades de gênero. Juntamente a Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros, estariam Queer, Intersexuais e Assexuais, formando a sigla LGBTQIA.

Por Ana Flávia Magalhães Pinto para o Portal Geledés 

Tal como chegam a mim, essas disputas em torno da sigla falam de um esforço legítimo de reconhecimento de múltiplas possibilidades de ser que são negligenciadas em outros momentos e celebrações ao longo do ano. Isso me fez retomar questões que têm me chamado atenção, para as quais não tenho resposta, muito em função do meu lugar de “outra” nesse contexto, mas que certamente estão a organizar minha solidariedade. Peço, então, licença para compartilhar alguns comentários sobre informações que me tocaram profundamente.

“Nenhuma lágrima por Alden: a imprensa negra como um arquivo da performance e da performatividade negras”. Essa foi a chamada a partir da qual a historiadora Kim Gallon desenvolveu sua exposição na conferência As Artes na Imprensa Negra durante a Era do Jim Crow, realizada na Universidade de Yale, nos dias 10 e 11 de março deste ano. A fundadora do Coletivo de Pesquisa sobre Imprensa Negra (nos Estados Unidos) destacou em sua fala as representações e os silenciamentos acerca das histórias de pessoas negras não alinhadas à heteronormatividade, tomando a trajetória de Alden Garrison como fio condutor.

Garrison foi uma famosa travesti/cross-dressing negra que atuou em clubes noturnos de diferentes raças sobretudo em Washington, DC, nos anos 1920 e 1930; mas que morreu antes dos quarenta anos, vítima de um quadro depressivo. Seguindo pistas encontradas, por exemplo, no jornal The Afro-American, na década de 1930, Kim Gallon não apenas recapitulou registros sobre as homossexualidades existentes na imprensa negra, como reivindicou uma agenda de pesquisa nessa direção que não cabe mais negligenciar.

A fala de Kim Gallon me remeteu a nomes e histórias presentes e ausentes nos jornais da imprensa negra brasileira e ao fato de não ter sido dada a devida atenção à questão por muitos/as leitores/as e estudiosos/as do campo. E não estou falando apenas do que outros/as não fizeram, mas do que eu também não fiz, muito provavelmente orientada pela força da minha heterossexualidade.

A título de ilustração, não faz muito tempo, chamaram minha atenção os textos assinados por Passarinho, um dos fundadores do Adé-Dudu − Grupo de Negros Homossexuais de Salvador, em março 1981. Seus escritos publicados no Nêgo, primeiro jornal do MNU da Bahia, apontam para um esforço de pautar a questão do “Negro Homossexual” em eventos importantes, como o Encontro de Negros do Norte e Nordeste e o Encontro Nacional do MNU. A timidez dessa presença nos jornais negros, entretanto, contrasta com uma quantidade considerável de textos e imagens de gays, lésbicas e travestis negros/as, afora héteros, nas páginas do Lampião da Esquina, a mais famosa publicação voltada ao público LGBTT da época.

Com efeito, essa tendência ainda hoje se reproduz. Entre os muitos exemplos disponíveis, um vem da inegável indiferença dos atuais veículos da imprensa negra para com a cobertura de agendas como o concurso Miss Bonequinha do Café dirigido à valorização da beleza de drag queens negras em São Paulo. Iniciada por volta de 2010, salvo engano, essa versão do Bonequinha do Café teve como inspiração as edições dirigidas a mulheres negras cisgênero que atravessaram anos 1960 e 1970, promovidas por Frederico Penteado Jr, fundador do Clube 220 na mesma cidade.

E foi com essas questões na cabeça que, ao chegar em Nova York no início de março, me deparei com o anúncio da exibição do filme The Watermelon Woman [A Mulher Melancia], estrelado e dirigido por Cheryl Dunye, no Schomburg – Centro de Pesquisa em Cultura Negra. Tratava-se de uma agenda promovida em comemoração ao mês das mulheres e aos vinte anos de lançamento do primeiro filme dirigido por uma afro-americana queer, em 1996. Cheryl é atualmente professora da San Francisco State University e autora de mais oito longas e curta metragens. A obra em questão foi restaurada e remasterizada recentemente, e é considerada um marco na cinematografia por diferentes razões, sobretudo por articular questões de gênero, sexualidade e raça. E obviamente foi para mim uma outra novidade, embora tenha descoberto depois que fora exibido no Brasil no ano passado durante o 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, no dia 20 de novembro. Essa data, aliás, também é celebrada como o Dia Internacional da Memória Trans.

 

Mas, de fato, o filme traz qualidades mais que suficientes para ser visto por um grande público, porque apresenta conteúdos e abordagens apropriadas para muitas e muitas pessoas. A narrativa é construída a partir da articulação entre uma suposta história de Cheryl e a de sua busca por informações biográficas para a realização de um documentário sobre Fae Richard, uma atriz negra atuante nos 1930/1940 que teria recebido a alcunha de “Mulher Melancia”. Nesse percurso, a diretora permite que sua personagem compartilhe o protagonismo com a atriz de cinema que estaria sendo rememorada no filme.

Cheryl interpreta uma jovem que trabalha numa locadora de vídeos e se lança ao desafio de atuar como filmaker. Interessada na presença de atrizes negras em filmes de época, afora se dar conta de que essas pessoas muitas vezes nem eram citadas nos créditos, ela é tocada pela atuação de uma “mammy” referenciada apenas como Watermelon Woman em Plantation Memories, dirigido por Martha Page, uma mulher branca. Enquanto acompanhamos o relacionamento de Cheryl como uma moça também branca, Diana, o caráter documental da obra é desenvolvido através de uma série de entrevistas que revelam detalhes da trajetória de Fae nos anos seguintes, sua atuação como cantora em night clubs da Filadélfia e seu envolvimento amoroso com Martha, a diretora.

O filme, então, coloca em primeiro plano e ficcionaliza a aproximação de experiências de mulheres lésbicas negras em dois momentos e em diferentes posições da produção cinematográfica. Ao mesmo tempo em que pauta o esquecimento e invisibilidade da mulher negra no cinema, funciona com um poderoso exercício de reflexão sobre identidades, política, preconceitos e afetividades. Eis uma combinação potente para mobilizar quem acredita que estar no mundo é aproveitar as oportunidades de aprender com a vida, ou com as vidas, no plural.

Seja como for, tal como tenho conversado com pessoas companheiras de militância negra, tudo isso nos coloca um desafio: reconhecer, de fato, legitimidade e importância às múltiplas existências que compõem a nossa coletividade, romper com práticas de silenciamento ou apagamento que mais nos enfraquecem, do que nos fortalecem.

 

* Doutora em História, jornalista e ativista dos Movimentos Negro e de Mulheres Negras. Integrante do blog Conversa de Historiadoras e autora do Por falar em liberdade….

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