Alguns privilégios CIS

É fácil escrever sobre privilégios masculinos porque conheço as opressões que as mulheres sofrem. É certamente um privilégio poder sair à rua à noite e ter medo apenas de ser assaltado. Mas a maior parte dos homens nem percebe este privilégio, assim como não percebe como a eterna ameaça de estupro é opressora para as mulheres.

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Já quando decidi escrever sobre privilégios héteros, não foi nada fácil, pois eu sou hétero, e pessoas que têm privilégios tendem a naturalizá-los, a não enxergá-los. O mesmo aconteceu quando escrevi sobre privilégios brancos.

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Já faz tempo que venho querendo falar sobre privilégios cisgêneros. Eu sou uma mulher cis, ou seja, uma mulher que foi identificada como mulher ao nascer e assim sou identificada pelo resto da vida. Entendo que ser cis é jogar a a vida no nível fácil. Duvida? Pense nas dificuldades que pessoas trans enfrentam. Pense em como é difícil pra uma pessoa trans conseguir emprego, ser tratada com respeito, ser chamada pelo nome.

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Acho absolutamente inegável que pessoas trans são alvos de imensos preconceitos e discriminações. Sem querer entrar numa Olimpíada da Opressão, é muito visível que uma mulher negra sofre muito mais preconceito do que eu. Uma lésbica sofre mais preconceito. Uma mulher pobre sofre mais preconceito. E não tenho dúvida alguma que uma mulher trans e, inclusive, um homem trans (aquele que foi visto como mulher ao nascer, mas que se identifica como homem), sofrem mais preconceito do que eu.

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Já vi feministas radicais, numa briga desnecessária importada dos EUA com transfeministas, dizerem que mulheres cis não têm privilégios sobre mulheres trans. Pra mim, é óbvio que têm. Claro que algumas opressões não são exclusivas às pessoas trans (o estupro corretivo, por exemplo, é uma ameaça comum feita às lésbicas). E claro que algumas opressões acontecem num nível individual. Mas não são regras. E, pô, claro que mulheres cis sofrem opressões também. Não é uma competição! Trata-se só de reconhecer privilégios.

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Reescrevi a lista de privilégios cis abaixo várias vezes. Numa outra versão, coloquei x para não fixar gênero. Mas quis deixar no feminino porque é uma lista de privilégios que eu, como pessoa cis, tenho. O que não quer dizer que essa breve lista introdutória não se aplique a demais mulheres e homens cis.
Eis alguns privilégios que pessoas cis têm. E que pessoas trans definitivamente não têm. Privilégio cis é:

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É ninguém insistir em me chamar com o pronome errado. Porque pra mim não há pronome errado.
É ninguém dizer que estou traindo meu sexo biológico.
É não ser reduzida ao meu órgão genital.
É não confundirem minha orientação sexual com meu gênero.
É não ser acusada de falsidade ideológica.
É as pessoas me chamarem pelo nome, sem perguntarem “Mas qual é o seu nome verdadeiro?”

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É as pessoas não “desconfiarem” do meu gênero por causa da minha voz.
É não ter um monte de gente pedindo minha opinião sobre uma série ou novela com uma personagem cis.
É não ser considerada uma aberração só por existir.
É não ser tratada como piada o tempo todo.
É não ter que temer ser presa numa manifestação de rua e ir parar numa cela masculina.
É não ter que ouvir pessoas desconhecidas perguntarem sobre meus genitais, ou perguntarem se eu já fui operada.

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É, sendo homossexual, ter o movimento LGBT para lutar por você (algo que muitas vezes o movimento se esquece de fazer pelxs Ts).
É não chamarem uma operação importante para minha vida de “mutilação”.
É não ter que ouvir que estou enganando as pessoas e a mim mesma.
É não ouvir que irei pro inferno apenas por existir.
É saber que não há gente que quer me bater e me matar apenas por eu ser como sou.

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É não correr o risco de ser estuprada por gente que quer me “corrigir”.
É não ter minha vida constantemente policiada.
É não ser impedida de estar perto de crianças para não “contaminá-las”.
É não ter que me submeter a atendimento psicológico compulsório.
É não depender da aceitação de um psicanalista para obter cirurgia, hormônios, documentos civis.
É não precisar mentir para um terapeuta para poder “passar” e, assim, conseguir uma receita médica.
É não ser considerada doente por este psicanalista.

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É, depois de finalmente ser aceita pelo psicanalista, não precisar contar com a boa vontade de um juiz.
É não depender de médico pra dizer se eu sou cis “de verdade”.
É não ter que exagerar minha feminilidade, transformando-me num estereótipo feminino, pra convencer meu psicanalista de que sou mulher.
É não ter que ouvir feminista dizendo que eu tenho privilégios masculinos.
É, muitas vezes, não ser expulsa de casa pelos pais.

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É não ser rejeitada na hora de comprar ou alugar um imóvel.
É não ser discriminada para vagas de trabalho.
É não ter toda uma cultura que acha aceitável me bater ou me matar por eu ter “enganado” um homem, “fingindo” ser mulher.
É ninguém supor que eu tenho apenas duas opções de emprego, prostituta ou cabeleireira.
É não ser rejeitada por planos de saúde.
É não ter que pagar o triplo para médicos particulares que não querem estar associados a mim.

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É poder ir ao banheiro sem ser constrangida ou ameaçada.
É poder competir profissionalmente em esportes, sem que uma categoria me proíba, por exemplo, por eu não ser “realmente” mulher.
É não ter que explicar o que me faz mulher (ou homem).

 

Fonte: Escreva Lola Escreva

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