Aos 16, ela tem bolsa em colégio de elite e ensina método a meninas negras

A estudante Isabelle Cristina compartilha suas ideias com uma plateia formada por 80 meninas do ensino médio que estão na sede do Google em Belo Horizonte. Após contar a elas sobre as participações em prêmios e viagens internacionais, ela apresenta um vídeo sobre o futuro da humanidade. Quando termina a apresentação, uma das garotas da plateia levanta a mão. “Quantos anos você tem?”, pergunta. Com um sorriso tímido, Isabelle responde: “16”. A resposta gera silêncio. Um sonoro “estou chocada” é ouvido no auditório.

Por Marcos Candido, Do Universa

Uma sala de aula vazia
Getty Images/iStockphoto

A surpresa não é à toa. Aos 16 anos, Isabelle já é uma importante liderança negra para meninas pobres de São Paulo. Nascida no Grajaú, uma das regiões mais pobres na capital paulista, ela lidera o projeto “Meninas Negras”. A iniciativa conecta e usa tecnologia, como o Hangouts do Google ou o Skype, para incentivar meninas negras da periferia a estudar e a disputar bolsas em colégios particulares da cidade. Para isso, além do incentivo e do exemplo, Isabelle distribui lista de escolas potenciais, sites para estudar por conta própria e dicas de como chegar lá. Mais de 30 meninas já aderiram às ideias de Isabelle desde 2017 em busca de um futuro melhor.

A iniciativa tem a ver com a própria trajetória de Isabelle. Desde os cinco anos, foi incentivada pela mãe, Regiane Cruz, a ler e a estudar. Do ensino básico ao fundamental, as notas decolaram. Com ajuda da internet, aprendeu inglês sem auxílio de um professor e passou a estudar sobre a condição da mulher negra no Brasil. Tudo na internet.

Certo dia, a mãe decidiu que era preciso dar um passo definitivo. Regiane bateu na porta de um dos colégios mais caros de São Paulo.”Vocês, por acaso, têm bolsa de estudos? Olha as notas da minha filha”, arriscou a mãe.

A pergunta foi feita em uma sexta-feira. Na segunda, a mãe recebeu um telefonema. O colégio ofereceu uma bolsa de estudos. Na ocasião, as duas moravam em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. A única condição do colégio era que a família se mudasse para São Paulo. Na mesma semana, conseguiram uma casa na zona sul da capital.

Isabelle afirma ter se reconhecido como uma mulher negra aos 5 anos, quando a mãe quis apresentá-la ao teatro e percebeu que as únicas negras vestiam uniforme com babado: eram babás.

“No colégio, fui convidada para uma festa de luxo. Enquanto subia as escadas que davam acesso ao salão de festas, notei que todos os empregados eram negros. Não eram garçons, eram faxineiros sem contato com o público. Pensei: como eu, que sou igual a eles, não faço nada?”, diz. “Havia um copo que era preenchido desde que era criança e percebi que não era igual às pessoas ao meu redor. Com essa nova vida, o copo transbordou.”

Em 2018, ela representou seu próprio projeto no Technovation, uma competição internacional para pré-adolescentes que já criam aplicativos com impacto social. Ela desenvolveu um app para pessoas que sofrem de escoliose e chegou às semifinais do concurso. “Eu seria muito ingrata de ter tudo que eu tenho se guardasse para mim. Seria injusto não multiplicar para outras meninas”, afirma.

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