Bailarina denuncia ataques de racismo em rede social após performance em Teresina

Em foto publicada no Facebook, usuárias fizeram comentários racistas: ‘Merece 20 chibatadas!’, escreveu uma delas. Bailarina registrou boletim de ocorrências informando o caso.

Por Andrê Nascimento e José Marcelo*, Do G1 

Publicação sobre perfomance da bailarina piauiense Luzia Amélia recebeu comentários de cunho racista — Foto: Reprodução/ Facebook

A bailarina piauiense Luzia Amélia Marques registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia de Crimes Virtuais para denunciar três mulheres que fizeram comentários racistas contra ela em uma publicação no Facebook. A publicação mostrava imagens de uma performance de Luzia realizada na quinta-feira (10), no Palácio da Prefeitura de Teresina, Centro da capital, como forma de protesto contra a retirada de moradores da Avenida Boa Esperança.

A apresentação realizada por Luzia Amélia na última quinta-feira (10) manifestava apoio pela permanência de famílias que residem nas proximidades do Parque Lagoas do Norte, na Zona Norte da capital. Por conta das obras de uma nova fase do projeto de urbanização, alguns terrenos podem ser desapropriados. O conflito entre os moradores e a Prefeitura de Teresina se estende há mais de um ano.

Uma foto da performance foi compartilhada por usuários do Facebook com a legenda “Banho de sangue em frente a prefeitura de Teresina. Arte?? Falta do que fazer??”, e alvo de diversos comentários que atacavam a apresentação e a própria bailarina.

Entre eles, os comentários de duas mulheres ofenderam a artista de forma particular. Uma mulher escreveu: “Merece 20 chibatadas! Pode me criticar! Falta do que fazer e muita! Pergunta se ajuda a mãe em casa!?”. Adiante, outra usuária da rede social comentou: “Deveria arranjar uma vassoura!”.

A bailarina disse ao G1 que se sentiu ofendida com a intenção das internautas de lhe atacar fazendo referências à escravidão. “Não é sobre a pessoa gostar ou não de um trabalho artístico. Isso é totalmente compreensível. Mas a forma como colocaram, senti um racismo muito forte. É algo muito pesado, e parece que não vai acabar nunca!”, disse Luzia Amélia.

“Acho super digno lavar roupas, varrer casa… mas elas colocam de uma forma como se as mulheres negras só pudessem fazer isso”, disse a bailarina.

Crime racial

A bailarina piauiense Luzia Amélia registrou boletim de ocorrências contra ataques racistas nesta segunda-feira (14) — Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com João Paulo da Silva, advogado que acompanhou a bailarina durante a denúncia, foram registrados boletins de ocorrência pelo crime de racismo contra três pessoas: uma mulher que publicou a foto de Luzia e duas que comentaram. As denunciadas devem ser notificadas pela Justiça.

O advogado explicou que apesar de dispor de liberdade de expressão, nos comentários as denunciadas ultrapassam essa liberdade e atacam diretamente a bailarina e toda a comunidade negra, fazendo referências à situação que remetem à escravidão.

“Quando ela fala que ela merecia receber vinte chibatadas, ela sai desse campo de entender o processo artístico para atacar diretamente não apenas à Luzia Amélia, mas as pessoas que são negras. Ela faz a referência à chibatadas por ela ser uma mulher negra”, disse o advogado.

Banho de Sangue
A apresentação de Luzia realizada na ocasião chama-se “Banho de Sangue”, e foi desenvolvida pela bailarina como uma forma de chamar atenção para crimes de feminicídio.A primeira apresentação aconteceu em maio do ano passado, diante do Palácio de Karnak, para pedir celeridade na conclusão da investigação do feminicídio de Aretha Dantas, morta pelo ex-companheiro em maio de 2018.

“O que me fez fazer esse ‘Banho de Sangue’ foi saber de uma senhora que faleceu por um ataque cardíaco ao saber que iria ter de sair do local onde mora”, disse Luzia.

+ sobre o tema

Escolhas desiguais e o papel dos modelos sociais

Modelos femininos em áreas dominadas por homens afetam as...

Como se combate o racismo no mundo? Evento de Geledés responde 

O evento “Estratégias de Combate ao Racismo Global” promovido...

Como pôr fim ao marco temporal

A tese do marco temporal, aprovada na Câmara nesta terça-feira (30),...

A música outra

Eu tô pra ver um ano pior que 2018,...

para lembrar

Ministro australiano relembra “lado racista” de Margaret Thatcher

Atual ministro australiano das Relações Exteriores, Bob Carr lembrou,...

Kristen Stewart racista? Fãs negam discriminação no Twitter

Admiradores mobilizaram as redes sociais para refutar especulações...

Profissionais negras descrevem memórias de preconceito no cotidiano

Em 1994, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de...

Lidando com o racismo

“Como você lida com o racismo lá?” Essa...
spot_imgspot_img

Peraí, meu rei! Antirracismo também tem limite.

Vídeos de um comediante branco que fortalecem o desvalor humano e o achincalhamento da dignidade de pessoas historicamente discriminadas, violentadas e mortas, foram suspensos...

‘Moro num país racista’, diz empresário que encerrou contrato de R$ 1 mi por ser chamado de ‘negão’

Nem o ambiente formal de uma reunião de negócios foi capaz de inibir uma fala ofensiva, de acordo com Juliano Pereira dos Santos, diretor...

Coordenador do SOS Racismo de Geledés questiona decisões judiciais sobre racismo e injúria racial

Recentes casos de racismo que ocorreram de maneira individual e coletiva reacenderam os debates sobre a diferença entre a injúria racial e o crime...
-+=