terça-feira, março 28, 2023

Branco no preto

A Madame funga suas lamúrias, diz que quer voltar para um mundo de antes, mais confortável. Ali poderia demonstrar seu susto com quem parece não caber na gaveta do que ela deduz como humanidade ‘normal’. Talvez sentinelas surgissem pra proteger seu nojo e amenizar o choque com o que pra ela são párias. A senhora colunista é amparada pela linha editorial do seu jornal que há muitas luas fortalece o time dos bacanas, mesmo que às vezes o palácio finja ser rua pra aumentar a clientela.

Por Allan da Rosa via Guest Post para o Portal Geledés

Sim, tem muito eufemismo só requentando situação e mascarando vampiragem. Mas é também nesse tabuleiro da linguagem, sem intenção de amornar, mas pra emancipar e desacorrentar humanidade, que começamos a abrir frestas na violência que voga há séculos nos livros, na piadinha do seriado de tevê e na borracha que se passa em nossa história. O que assusta a escrivã dos magnatas é um dia abrir a janela e não ver mais o seu jardim regado com nosso sangue? Ver vivo o espelho que mandou quebrar e jogar a moldura fora?

Ela diz da sinceridade das crianças. Sim, essas mestrinhas com suas percepções mais abertas desconcertam ideologias. Quem dera trincassem a forca dos olhos da Madame. A molecada que estranha, reconhece e diferencia também surpreende com carinho. Podem ser cruéis, sim, entre si e afora, mas também adoçar o azedo que os adultos insistem em jorrar e doutrinar. Diante de anões ou autistas não duvide que elas (e nós) numa boa podem partilhar irmandade, reconhecimento e afeto. Abraçar e não escarrar, como a Madame parece sugerir ‘normal’.

A colunista e seus problemas de coluna… fala do ‘diferente’ que lhe rodeia. Diferente de quem, cara pálida? De ti e da sua patota? Exótica pode ser você em muitas rodas e beiras d’agua, ladeiras e salões, vielas e bibliotecas. A madame e sua curriola pensam que ainda terão a fala bambambã por quanto tempo? Já pensou como é engenhado o que chama de ‘opção’? Com quais tijolinhos se construiu a mansão do seu conforto e com quais fotos se montou o álbum que tu chama de igual, pra outra gente ser eleita a ‘diferente’, ô distinta Madame?

Eta sensação de repetir e repetir o mesmo, mais e mais, pra quem ainda quer que a história gire em torno do seu próprio eixo…

Sim, como mestre Cúti ensinou perguntando: quem tem medo da palavra negro? Mudou em quê chamar de afrodescendentes, afro-americanos ou afro-brasileiros? Frisar a raiz cultural, demonstrar que há aqui uma extensão de um continente esparramado, com suas cores pintando rascunhos de fora, com suas tantas formas de considerar o tempo, a família, a arte, o trabalho, a morte. Raiz milenar que desenvolveu conhecimentos profundos e que passou por sangrias e sequestros pra tirar o caldo que baseou latifúndios e museus. Colocar o ‘afro’ aí no pé da palavra pode cair na modinha pra seus sobrinhos gastarem a mesada na balada, é um risco de esgarçar para alguns, mas tem a mira de firmar que pés que caminham aqui não se encerram nas trilhas da história que mora entre o Olimpo, Manchester e Manhattan, apesar de poder dialogar com estas, sempre. Afinal, do Egito fluiu tanta matriz técnica e filosófica que despontou na Grécia e das Áfricas de ontem, de hoje, do sul preto dos EUA e da gente caribenha muito se bebeu entre o Bronx e o Brooklin, também em luta pela necessidade e gosto de viver.

Madame, o ‘afro’ é ascendência e descendência, não pode ser condescendência. Nem mera conveniência.

Me sinto despejando água limpa em poça suja, desperdiçando tutano com suas frases que precisariam de muita forçação pra serem consideradas argumentos, mas seu QI de planta de plástico talvez possa mesmo já se alimentar pelas redações que frequenta. Com certeza pode dialogar isso com seus tantos camaradas. Ou será que o apartheid brasileiro está muito bem representado nas editoras, jornais e mídias graúdas?

Madame citou Michael Jackson (que, como Gil cantou, ‘além de branco ficou triste’). Quantos labirintos dentro dele se acenderam nos encontros e negações de si mesmo? Mas o mesmo corpo que se esfacelou fantasmagórico era o que mantece ritmo, sedução e encanto da arte que tinha matriz, plena fonte negra, passo preto, balanço do mar, blueseiro jazzeiro funkeiro.

De funeral, despertasse Michael como Madame imagina, talvez ele até fizesse festa. Há muitos enterros além da morte chorosa, há celebrações com jogos e bailes. Se Madame buscasse saber mais do que (des)qualifica como diferente, aprenderia que pra além da sala almofadada há muitos mais quintais. Aprenderia que o que decreta ser o ‘mais feio’, mesmo tão sanguessugado e esculachado, ainda impõe soberania. Cansado de ser coadjuvante, de ser aquele eterno Jeremias da turma da Mônica, aquela exceção que confirma o padrão e quase agradece a merreca de estar ali na beiradinha como escada e espelho trincado.

No Rio de Janeiro mesmo, de ti e de teu jornal, há milhões de negros muito bem resolvidos com suas belezas. Vários nessa condição hoje após as tretas com a latrina das cartilhas e com as masmorras das novelas, bailando pra não se atulhar nos 515 anos de pelourinho mental que emporcalham nossos corpos. Já outros pretos, desde o ninho foram ensinados que nada há de errado com sua pele, sua boca e seu cabelo, a não seguir a doença dos carimbos que vêm de cima pra baixo. Por isso nossas famílias aprumadas ainda são gotas de quilombos.

Essa é uma peleja de muitos hoje, quando só com muita má fé pode se omitir o estrago que escolas e mídias semeiam, pálidas, quando nas entrelinhas ou escancaradamente assim como você decretam o que é ‘mais feio’ e o que merecem ‘lugar no céu’, seja esse céu gelado ou quente, azul ou vermelho, Pindorama ou Saturno.

Enfim, pra teu texto ‘Preto no branco’ eu lembraria do branco no preto.

Branco no preto é o giz na lousa, aquela onde falta uma tonelada dos nossos saberes e imagens. Lousa na escola que ainda mói e mal engole a arquitetura profunda dos nossos saberes e corpos, na cartilha que não dá conta de tanta sapiência, garra, criatividade, graça e teimosia em abrir horizonte nas muralhas que gente da estirpe da Madame insiste em cimentar pra mó de vampirizar melhor o sangue e o psicológico. Um dia talvez saberá, ela e seus netos, que nosso quadro negro é redondo.

Branco no preto também é a nuvem na íris. Nuvem inspirando leveza e movimento, mas também lembrando que uma hora se estoura, se desagua. E a trovoada anuncia o relampo e o toró, nesse sonho antigo de lavar tanta fuleiragem e humilhação. Essa tempestade virá? É o medo maior dos que ainda controlam o reio, o orçamento e os cassetetes. E as redações grã-finas que já farejam sua decadência.

Minha pergunta pro texto seria outra, quase invertida: Que branco, tendo Madame como referência, gostaria de ser branco?

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